A tragédia na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, onde o jovem Wellington Meneses de Oliveira baleou 18 crianças (12 morreram) e cometeu suicídio, renova o debate sobre as ações necessárias para tornar a orientação psicopedagógica uma prática efetiva nas escolas. Tanta como um mecanismo de prevenção contra a violência quanto de suporte para asuperação de traumas. Segundo especialistas, o ato desesperado do rapaz de 23 anos, embora seja um "caso isolado", poderia ter siido evitado se seus comportamentos suspeitos fossem não só observados pela família, mas também detectados e tratados a tempo em ambiente escolar.
Somado ao apoio familiar, a orientação psicológica profissional é considerada imprescindível para que os alunos e professores submetidos àqueles intermináveis minutos do massacre possam retomar suas vidas, seus planos. Esse tipo de acompanhamento, observa o professor de psicologia da PUC-Rio Alberto Filgueiras, revela-se igualmente essencial para preservar os papéis básicos da escola, como provedora de conhecimento e de sonhos. Segundo ele, é importante prover um treinamento psicológico adequado a todos os profissionais envolvidos na rotina da educação escolar, desde diretores, inspetores e professores até funcionários administrativos. Assim, eles teriam condições de identificar melhor problemas pelos quais passam os estudantes, "encurtando a grande distância ainda existente entre vida particular e formação escolar".
– Até a moça que serve a merenda, por estar próxima aos alunos, pode identificar mais facilmente comportamentos suspeitos – afirma o especialista, acrescentando que os professores devem ser instruídos para denunciar casos de bullying, "jamais minimizá-los".
Filgueiras avalia que as atividades escolares devem ser (re)pensadas, para não gerar atritos e situações desagradáveis:
– Os recreios, por exemplo, que são espaços abertos, têm que promover uma interação social agradável, não abrir brechas para se oprimir alguns alunos.
Motivo de perplexidade e indiganção no Brasil e no mundo, as cenas do massacre ficarão vivas ainda por um "bom tempo" na memória de alunos e professores da escola Tasso da Silveira, acreditam os especialistas. A psicóloga e professora da PUC-Rio Lydia Levy esclarece que os efeitos sobre os alunos variam de acordo com a pré-disposição e a história de vida de cada um. No entanto, a tragédia é especialmente delicada durante a infância, pois pela primeira vez muitos dos estudantes terão de lidar com a perda de colegas e com a “visão de que também são mortais”.
– O acompanhamento psicológico é necessário para dar suporte às vítimas. Em todos os lugares do mundo onde casos semelhantes ocorreram, elas foram efetivas. Espero que aqui também sejam – diz Lydia.
As aulas na Tasso da Silveira recomeçarão só na próxima segunda-feira, dia 18, mas a escola estará aberta esta semana para prestar serviços de orientação psicopedagógica. No retorno à rotina acadêmica, serão realizadas dinâmicas voltadas à superação do trauma. Alguns pais já pediram a transferência dos filhos. Outros, no entanto, se intergram à corrente formada por professores e ex-alunos para preservá-la como um dos espaços educativos mais proveitosos e tradicionais da região. A secretária estadual de Educação, Claudia Costin, planeja uma série de mudanças na escola, incluindo o aperfeiçoamento da segurança.
Na série de esforços para amenizar as sequelas do massacre, a solidariedade – impulsionada pelas redes sovais – também mostra-se importante. Até sexta-feira passada, 896 pessoas haviam procurado o Hemorio para doar sangue às crianças feridas na tragédia. Cerca de 700 bolsas de sangue foram coletadas. Nem as quatro horas de espera desanimaram os doadores. O Hemorio esclarece que, mesmo com a grande procura, ainda as doações ainda são necessárias.