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Depois de três anos de produção, e 18 interditado, Glauber, o labirinto do Brasil, de Silvio Tendler, foi lançado em 2003. O filme foi um dos três exibidos no encontro “30 anos sem Glauber Rocha”, semana passada, an PUC-Rio. Os outros dois, curtas-metragens, são do próprior: O pátio (1959) e Di Cavalcanti (1977). As produções serviram de pano de fundo para, uma (re)visita conjunta à obra e a vida do cineasta baiano, a pretexto do aniversário de morte (1981). A mãe de Glauber, Lúcia Rocha, o cineasta Joel Pizzini e os professores Miguel Pereira, Angeluccia Habert e Andrea França, além de Tendler, também professor do cursao de cinema da universidade, lembraram contribuições importantes do homenageado.
– Glauber era uma figura única, capaz tanto de chorar a morte de [Carlos] Marighella (líder comunista), quanto elogiar o general [Ernesto] Geisel (ex-presidente do Brasil), o que de fato fez – comentou Silvio Tendler.
Eduardo de Holanda
Apesar da efeméride que motivou o encontro, os participantes inspiraram-se em Glauber para iluminar algumas das ideias mais festivas, polêmicas, desconcertantes do cineasta morto há 30 anos. A começar pela convicção de que morte não é para ser chorada, e o enterro não deve ser transformado numa ode à tristeza. No filme Di Cavalcanti (vencedor do festival de Cannes de 1977, na categoria curta-metragem, e indicado à Palma de Ouro do mesmo ano) ilustra perfeitamente essa filosofia. Glauber desmonta o teatro que é um funeral, liga para pessoas e pede para virem de branco, faz experimentos sonoros, e, como contou Joel Pizzini, ainda teve de superar a obstrução de um guarda:
– Era proibida a filmagem do enterro. Glauber chega com uma kombi branca, e logo na entrada o guarda vem avisar que não seria permitido o uso de câmeras. Glauber retruca na hora, bem alto, que ele "era do Cinema Novo, e veio fazer uma homenagem a seu amigo, e que, por favor, ninguém interviesse". O homem ficou desarmado pelo vigor de sua fala e, além de deixar a filmagem acontecer, ainda ajudou a levar os equipamentos e ficou cuidando da kombi.
Eduardo de Holanda
Assim um guarda quase impediu que uma obra premiada em Cannes fosse concebida. Pizzini também recordou a alma militante do baiano:
– Ele estava sempre em atividade, seu espírito nunca se acomodava. Na época do Patio, na Bahia, não existia a produção de filmes. No máximo, um estrangeiro encantado pela beleza de lá ia filmar, mas a população não tinha contato com as obras. Glauber juntando uma turma de amigos e encabeçou um movimento de infiltração nos jornais locais, com o objetivo de se escrever e se falar mais sobre cinema, para tentar criar o interesse pela sétima arte. Quase uma operação de guerrilha em prol do cinema.
Pizzini permitiu-se lembrar de mais uma história, uma descoberta casual. Em andanças pelos sebos de Copacabana, encontrou um livro do pintor suíço Paul Klée. Pagou seis reais pelo "livro fantástico". Mas a melhor surpresa estava por vir. Ao chegar em casa e debruçar-se melhor sobre o livro, deparou-se com dediatória "mais ou menos assim": "Para meu amigo e mestre, como comemoração da nossa descoberta do Simultâneo Absoluto. Com carinho, Glauber Rocha.”
Eduardo de Holanda
Até hoje Pizzini e provavelmente outros tantos que gravitam na órbita de Glauber Rocha ficam intrigados com o tal “Simultâneo Absoluto”. “Talvez tenha relação com o processo de montagem que aparece nos filmes de Glauber, em que a história não precisa ter uma linearidade, com o encadeamento direto de efeito e causa", arrisca Pizzini. "Filmes assim são mais para serem sentidos do que entendidos, falam aos sentimentos, ao invés do cérebro”, completa
Veja mais sobre o mundo de Glauber em:
www.youtube.com/watch?v=D-QXkUX6fQ4 (Di Cavalcanti).
www.youtube.com/watch?v=O419JjtSkPw (O Patio).