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Rio de Janeiro, 25 de julho de 2024


Esporte

Seleção ainda bate um bolão... nos negócios

Igor Novello e Vítor Afonso - Do Portal

29/05/2013

 Arte: Nicolau Galvão

A menos de um mês da estreia na Copa das Confederações e às vésperas de protagonizar, com a Inglaterra, a reinauguração oficial do Maracanã, a seleção brasileira mantém pelo menos o hábito de dividir opiniões. Sob o comando de Felipão e Parreira, oscila entre as incertezas ao redor de um pentacampeão rebaixado a 19º no ranking da Fifa e as esperanças de Neymar, Fred, e outros jogadores, conduzirem a Canarinho ao reencontro com a alma do nosso futebol. Enquanto busca a redenção nos gramados, já no torneio preparatório para o Mundial do próximo ano, a equipe da CBF segue batendo um bolão no campo dos negócios. Faturou, só em patrocínio, algo em torno de R$ 235 milhões no ano passado.  

A seleção provavelmente produziria ainda mais dividendos se reunisse mais prodígios e vitórias. Para tornar a alcançá-las, e recuperar o título de "melhor do mundo", o time brasileiro precisa, mais que craques, de líderes. Assim avalia o cronista esportivo Roberto Assaf, para o qual jogadores com espírito de liderança estão entre os ingredientes decisivos de uma equipe vencedora. Já o sociólogo Ronaldo Helal pondera que o Brasil “vive uma entressafra natural”, o que explicaria os insucessos nas últimas duas Copas e os resultados pouco animadores nos amistosos recentes, mas seria insuficiente para projetar um fiasco no Mundial verde-amarelo.

Jogam a favor (ainda) dois traços do imaginário, mas cuja valorização excessiva cheira a saudosismo: o peso da camisa amarela, que, a despeito da fase instável, conserva o respeito dos adversários; a história recheada de conquistas, craques e jogadas encantadoras. Detentor de cinco títulos mundiais, oito Copas América e três Copas das Confederações, o Brasil acumula um currículo invejável. Única equipe a disputar todos os Mundiais, a seleção contabiliza o melhor ataque (210 gols) e o maior número de vitórias no torneio (67). Ostenta também uma série de 11 vitórias seguidas, a melhor marca entre todas que já disputaram o principal torneio de futebol, cujo pontapé inicial remonta a 1930. Na época, o anfitrião Uruguai foi o primeiro campeão. Nós, brasileiros, torcemos agora para que a história se repita para o país-sede do Mundial do ano que vem... 

Os números movem-se igualmente expressivos no campo dos negócios. Com 11 patrocinadores oficiais, a seleção arrecadou R$ 235,5 milhões em 2012, R$ 16,3 milhões a mais do que no ano anterior, segundo as  demonstrações financeiras da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Além disso, nenhuma outra seleção brasileira contou com jogadores tão valorizados no cenário mundial como esta. Segundo cálculos do site europeu Transfermarkt, negociações envolvendo 15 dos 23 convocados para a Copa das Confederações totalizaram 325,5 milhões de euros (cerca de R$ 852 milhões). Prova de que o prestígio do Brasil, embora arranhado no gramado, mantém-se aceso no mercado de atletas e na publicidade. 

"O que se construiu no imaginário não se perde em pouco tempo", pondera especialista em marketing

 Clique para ampliar Na avaliação de  Luiz Francisco Ferreira Léo, professor de marketing esportivo da PUC-Rio, os recentes fracassos e o rendimento distante do esperado para um pentacampeão mundial relevam-se frágeis diante da marca construída pela seleção e suas glórias. Garrincha, Nilton Santos, Didi, Pelé, Rivelino, Tostão, Zico, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, entre outros tantos, ergueram uma catedral da bola. Este gabarito histórico, associado à percepção do Brasil como sinônimo de virtuosismo, segura a barra nos períodos, digamos, menos empolgantes.

– O que se construiu no imaginário dos amantes do futebol não se perde em pouco tempo. A seleção hoje se vende menos pela qualidade do espetáculo oferecido do que pela mística e pela tradição.  Não podemos esquecer que é uma seleção com cinco conquistas mundiais. Algo único, e que vende – reconhece Luiz Léo.

Para o especialista em marketing, quando o rendimento anda em baixa, é preciso destacar os predicados singulares da seleção:

– A camisa amarela vencedora, os talentos, a tradição, as conquistas, o espírito vencedor. Para vender a seleção, é preciso marcar um discurso com esses atributos.

Além desses valores, é sempre importante – para o futebol e para o marketing – a seleção contar com estrelas de projeção internacional. Enquanto Neymar caminha para assumir tal papel, Léo sugere explorar outros traços originais: 

– É preciso buscar o ineditismo. Devemos oferecer a nova geração do futebol brasileiro. Este é o caminho que se tem na ausência de nomes de maior destaque.

Mesmo com nomes ainda em busca de um maior reconhecimento internacional, e com atuações fracas, a seleção ora comandada por Luiz Felipe Scolari preserva certa imunidade a cartões vermelhos de patrocinadores. Léo ressalva, contudo, que, embora “suficientes para as necessidades da entidade”, o volume dourado de patrocinadores pode sofrer um mudanças depois da Copa do Mundo:

– O interesse hoje se sustenta na tradição, na jovialidade e, sobretudo, na realização da Copa aqui. Esse é o momento. Mas amanhã pode ser outro. Não sei se esse interesse vai continuar se a seleção perder a Copa. Um fracasso no Mundial pode fazer com que os patrocinadores atuais revejam as posições, por exemplo.

Ele acrescenta que o Brasil coleciona cada vez mais concorrentes não só nas competições, mas também nas relações comerciais. O professor de marketing observa que hoje há mais opções os investidores na área esportiva:

– A seleção deixou de ser a referência mais importante. Um investidor que olhe para a seleção da Espanha, Alemanha, e até a Argentina, que está evoluindo bastante, consegue ver alternativas interessantes.

A despeito da certa desvalorização da equipe brasileira, em consequência de desempenhos mornos, o especialista acredita que o apelo da verde-amarela vai potenciar o turismo no país. Para ele, "uma boa estratégia é conciliar a experiência do jogo com uma experiência cultural diferente”.

"Resistimos à saída de Pelé, Garrincha, Zico. A paixão está acima dos ídolos", diz assessor da CBF

 Clique para ampliar O assessor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva, reconhece que a imagem positiva da seleção sustenta-se nos resultados acumulados ao longo dos anos. Na opinião dele, os títulos e a história da Canarinho “são maiores até do que os craques que já defenderam o Brasil”:

– Resistimos à saída de Pelé, Garrincha, Zico, e de outros jogadores importantes. A paixão está acima dos ídolos. É uma paixão pela seleção brasileira.

A paixão, no entanto, se alimenta também de ídolos, de vitórias e, mais que isso, de jogadas encantadoras. Resultados negativos podem até, por enquanto, serem inofensivos às estratégias comerciais, aos patrocínios, à venda de amistosos. Porém corroem, aos poucos, o imaginário, a percepção de futebol encantador colhida ao longo de mais de cinco décadas. Para Paiva, o momento da seleção “pode não ser incrível, mas não é tão ruim quanto dizem”:

– O número de patrocinadores da CBF aumentou, os estádios nos jogos da seleção estão quase sempre lotados, o interesse da televisão aumentou. São números de sucesso, não de fracasso – argumenta.

Parte desses "jogos quase sempre lotados" é disputada no exterior. O distanciamento do torcedor brasileiro consequente da consolidação de uma equipe "tipo exportação" contribui, segundo analistas, para a perda de encantamento. Paiva explica por várias partidas são porgramadas para fora do país:

– Em primeiro lugar, metade dos jogadores [da seleção] atua na Europa e os clubes europeus têm muita resistência em liberá-los para atuar no Brasil. E a Fifa, nessa questão, dá suporte aos clubes europeus. Isso ocorre porque são 12 horas de viagem, fuso-horário e desgaste grande. Assim, existe uma preferência desses jogos serem na Europa. Outro fator é que o Brasil ficou muito tempo com 12 estádios em reformas e em construção. Não havia palcos adequados para a seleção jogar.

O nível técnico dos adversários em amistosos também é alvo de críticas da imprensa e de torcedores desejosos de testes mais compatíveis com a tradição e a preparação para a Copa. Até o Mundial de 2022, esses jogos serão administrados pela empresa inglesa Pitch International, conforme acordo firmado com a CBF no ano passado. Paiva garante que interesses comerciais não influenciam os critérios técnicos:

– É como um show. Quando você contrata uma banda já paga antecipadamente. O Brasil recebe pelo jogo antes mesmo de entrar em campo. Mas nem sempre  é possível jogar contra as seleções consideradas mais fortes. É preciso também conciliar agendas. Não raramente a outra equipe está disputando as eliminatórias.

A sequência de amistos sem expressão, a falta de competições e os resultados negativos fizeram a Canarinho despencar para o inacreditável 19º lugar no ranking da Fifa. Para o assessor da CBF, é preciso relativizar o rebaixamento, pois “o Brasil está lutando sem as armas dos outros”:

– Os jogos de eliminatórias têm um peso, da Eurocopa têm outro, as Olimpíadas não contam. É natural essa posição, e é possível que o Brasil caia ainda mais. É totalmente desigual. É um critério que prejudica demais o país-sede, se ele for uma potência.

"A seleção não tem craques como antigamente. Não é saudosismo, é constatação", avalia Assaf

 Clique para ampliar Uma discussão recorrente em torno da seleção remete à capacidade de reinventar craques ou à incapacidade, para os nostálgicos de plantão, de reeditar os melhores dias. Com a equipe de Felipão não é diferente. Para Roberto Assaf, cronista do periódico Lance!, o Brasil não revela mais jogadores com o espírito de liderança daqueles que atuavam 20, 30 anos atrás. Na avaliação do jornalista, hoje estamos servidos “apenas de bons jogadores”:

– A quantidade de craques que tínhamos antigamente era muito maior. Isso não é saudosismo, isso é uma constatação. Não se fabrica mais atletas que chamam para si a responsabilidade do jogo quando ele está complicado. Esses caras eram capazes, dependendo das circunstâncias, de desobedecer ao treinador e fazer aquilo que eles achavam que era mais conveniente naquele momento, já que eram eles que estavam dentro de campo sentindo a barra.

Outro problema que chama atenção de Assaf é a falta de capacidade de improviso do jogador brasileiro hoje em dia. Segundo o cronista, o Brasil em campo não consegue mais surpreender os seus adversários. Assaf cita, inclusive, um exemplo da Copa de 1970 para ilustrar essa visão:

– O Brasil perdeu um pouco da capacidade de improviso, que é ligado à técnica. Um exemplo clássico do improviso tradicionalmente peculiar ao jogador brasileiro, relacionado também ao espírito de liderança, remonta à Copa do México, em 1970. O Gérson, que era referência de criatividade, estava muito marcado por um uruguaio. Quando o canhota percebeu que o carrapato não ia sair de perto, ele trocou de posição com o cabeça-de-área Clodoaldo. O Clodoaldo foi jogar na frente e o Gérson, atrás. A marcação do Uruguai se perdeu e o Brasil ganhou por 3 a 1.

Embora se curve às evidências de que a seleção não é mais referência técnica e tática, Assaf afirma que o Brasil segue "muito respeitado" internacionalmente:

–O futebol brasileiro ainda é, de alguma forma, respeitado. O Corinthians foi campeão do mundo no fim do ano passado, por exemplo. Ainda somos respeitados. Outra prova disso é que o Brasil exporta 600, 700 jogadores por ano. Se você pegar o campeonato da Lituânia, por exemplo, vai encontrar três brasileiros lá. Os estrangeiros acham que qualquer sujeito que nasce no Brasil sabe jogar bola, o que nem sempre é verdade. Isso só acontece porque o Brasil sempre está presente na Copa do Mundo, além de ser o maior vencedor da competição.

A formação de jogadores, que passou a valorizar mais aspectos físicos e táticos, e a mentalidade atrasada, segundo ele, de boa parte dos técnicos brasileiros colaboram para a perda gradual de identidade e de rendimento, aponta Assaf. Ele afirma que tais aspectos deixam o Brasil parado no tempo, enquanto seleções como a da Espanha, campeã mundial e europeia, e da Alemanha se modernizaram. Não à toa times desses países duelaram nas semifinais da Liga dos Campeões e consolidam-se como os novos reis da bola.

– A revelação de jogadores aqui no Brasil está prezando mais a marcação do que a criatividade. O cara que deveria sair driblando recebe ordens para marcar o lateral ou o volante do time adversário. A mentalidade está errada. A seleção precisava de um técnico com a capacidade de ousar. Não será assim com o Felipão, porque ele é um técnico superado, que tem o ranço do autoritarismo. O que nós veremos agora, provavelmente, é uma seleção com dois volantes e menos jogadores criativos. Então, vamos continuar jogando esse futebol defasado contra seleções que apresentam um futebol mais dinâmico – projeta o jornalista. 

Ao perfil menos criativo observado na seleção e em grande parcela dos times da elite nacional, Assaf identica outros motivos de afastamento entre o torcedor e o Brasil dos sonhos, no qual jogo e arte se confundem, e nem por isso menos competitivo. Desorganização associadas ao consumo do futebol nos estádios, da venda de ingressos às inconveniências de acesso, também minaram, segundo ele, a tolerância, ou a esperança, num espetáculo compatível com as tradições e as ambições esportivas e econômicas.

– Além do mais, quase todos os jogadores de seleção atuavam em clubes brasileiros. Você podia dizer ao torcedor  rival que o seu time tinha mais jogadores convocados do que o dele. O outro ponto é que a seleção jogava muito mais no Brasil. Há alguns anos, estavam fazendo o estádio do Arsenal, o Emirates, que também virou a casa do Brasil, muito provavelmente pelo dinheiro. Mas, se é isso que eles queriam, conseguiram afastar os torcedores da seleção – desanima-se.

"Saída de craques e fragmentação das identidades predicaram o apelo popular", afirma Ronaldo Helal

 Clique para ampliar Para o sociólogo e pesquisador Ronaldo Helal, a suposta perda do apelo popular da Canarinho não pode ser explicada por uma entressafra de craques. Até porque, diz ele, os craques existem, porém atuam no exterior (Neymar transferiu-se recentemente do Santos para o Barcelona). Ou talvez a conotação do jogador extraordinário tenha ficado mais flexível.

– Não vejo falta de craques. O problema é que estão jogando fora do país. A seleção perdeu muito do seu apelo nos últimos anos por conta não só disso, mas também da fragmentação das identidades, da globalização e da posição do Brasil no ranking – acrescenta.

De acordo com Helal, até os anos 1970 a popularidade da seleção era muito maior e "todos se importavam mais com a Canarinho". Os torcedores preferiam comemorar um título da verde-amarela em vez de uma conquista de qualquer clube brasileiro, compara o sociólogo. Os resultados da seleção “transcendiam o mundo da bola”. Helal enxerga, porém, uma mudança nesta filosofia ao longo das décadas seguintes. Vitórias e derrotas já não eram mais “dramatizadas por um projeto de nação”:

– A conquista do tricampeonato mundial ultrapassava as noções do universo esportivo. A sensação era de que um título iria consagrar o Brasil e uma derrota marcaria um fracasso da nação. E o torcedor comparecia no estádio independentemente do resultado. Depois da década de 1970, as coisas mudaram. Os clubes passaram a ter mais significado do que a seleção.

Até a imprensa passou, por assim dizer, a jogar contra. Assim enxerga o sociólogo, para o qual há uma “perda de neutralidade” na cobertura esportiva; uma tendência, sobretudo na TV, de dramatizar e potencializar as derrotas:

– A imprensa tem uma coisa assim: por conta de dois, três resultados ruins, ela começa a utilizar a expressão "crise do futebol brasileiro". O Brasil fica sem ganhar uma Copa, ou até duas, e já se fala em crise.

Para a popularidade da seleção brasileira, tão importante quanto vencer e, sobretudo, jogar bem é o cultivo de heróis, ressalta Helal. Ele explica a diferença entre heróis e ídolos:

– Heróis precisam de títulos. Ídolos são idolatrados, mas nem sempre são heróis. Por exemplo, o Neymar é ídolo nacional, mas herói do Santos. O Messi é herói do Barcelona, mas apenas ídolo na seleção argentina. O herói se torna importante devido à capacidade de criar a identidade do torcedor com o clube ou com a seleção.

Edinho: "Depois do Mundial da África do Sul, desconstruiu-se o trabalho que havia sido feito"

Acostumada a ser defendida por jogadores habilidosos e reconhecidos mundialmente, a camisa verde-amarela vive um momento em que jovens talentos, considerados craques em seus clubes, buscam construir espaços como ídolos e heróis também na seleção. O ex-zagueiro da seleção Edino Nazreth Filho, o Edinho, reitera que o Brasil sempre se sobrepôs aos adversários pela técnica, e confia neste legado:

– O Brasil tornou-se referência técnica, não muito tática. Referência tática fica por conta, principalmente, dos europeus, que têm mais disciplina. Nós superamos isso com a técnica.

O diagnóstico, embora reproduza a genética da Canarinho, pode parecer, entretanto, ligeiramente descolado do que se vê hoje nas seleções espanhola, alemã e, em menor escala, italiana. Escolas que têm casado a reconhecida disciplina tática com o toque de bola outrora exclusivamente brasileiro. Edinho lembra que não menos importante, ao sucesso no futebol atual, é o ótimo condicionamento. Para ele, hoje em dia “a técnica só se sobressai se for acompanhada da parte física”:

– Na minha época, o futebol era mais técnico, mais cadenciado. Hoje é muito mais rápido. Para se obter êxito contra as outras seleções fortes, era precisa correr junto.

Ainda de acordo com o ex-zagueiro doda seleção, hoje comentarista esportivo, os resultados negativos da seleção atual dentro decorrem, entre outros motivos, de uma transição desajustada entre a geração antiga e a nova:

– No Brasil pós-Copa da África do Sul, houve uma tendência de destruir o trabalho que havia sido feito na seleção. Até pela antipatia que se tinha em relação ao Dunga (técnico brasileiro no Mundial). Além disso, muitos jogadores foram testados sem condições de vestir a camisa da seleção brasileira.

“Adversários não têm mais o mesmo medo de antes”, afirma jovem

 Clique para ampliar Apesar do reconhecimento internacional e do prestígio vigoroso no campo dos negócios, analistas acreditam que a seleção brasileira não desperta mais temor nos oponentes. O estudante  João Paulo Medeiros, 20 anos, testemunha esta mudança em Londres, onde faz intercâmbio. Nas peladas disputadas às quartas-feiras, percebe que os colegas ingleses respeitam o passado, não o presente do futebol pentacampeão:

– Eles respeitam muito o futebol brasileiro pelo que o Brasil fez. Nós brasileiros, antes mesmo de tocarmos na bola, já somos respeitados. Para eles, só o fato de sermos brasileiros indica que sabemos jogar. Mas, hoje em dia, ninguém mais teme a seleção.

Mesmo sem o brilho do passado, a Canarinho levou milhares de ingleses para vê-la em março, contra a Rússia, no amistoso disputado no estádio do Chelsea, Stamford Bridge, recorda João Paulo. O “jogo ruim, sonolento e com poucos lances de perigo”, contudo, não empolgou:

– O estádio tinha muitos ingleses que queriam ver o Brasil, estavam torcendo pelo Brasil. Mas a partida não colaborou para a animação dos torcedores.

O intercambista engrossa o coro dos desanimados com a seleção. Diz torcer mais por um título mundial do Flamengo do que do Brasil. Ele conta que a Copa do Mundo de 2006 marcou uma mudança na forma de ver a equipe brasileira:

– Quando eu tinha uns 10 anos, era fanático pela seleção, tanto quanto pelo Flamengo. Torci muito até 2006, quando o Brasil teve o melhor time que eu vi. Porém, depois daquele vexame na Copa, daquela desclassificação para a França, meu interesse diminuiu. Torço agora só em Copas do Mundo.

Observado em tantos outros jovens torcedores, o desinteresse pela seleção tem um motivo especial, segundo o estudante. Para João Paulo, os jogadores perderam o ardor de defender a Canarinho:

– Quando minha vó era viva, ela assistia a todos os jogos, mesmo sem gostar muito de futebol. Ela sempre levantava da cama quando ouvia o hino e cantava com a mão no peito. Hoje, nem os jogadores, que deveriam ser exemplo, fazem isso.

Fã de futebol "desde pequena", a aposentada Thereza Christina Gallier, 78 anos, também nota uma relação estremecida entre torcida e seleção. E também responsabiliza, em parte, o "perfil atual dos jogadores": 

– Eles, em geral, se importam menos. Antigamente, tínhamos líderes dentro de campo, tínhamos sempre alguém que se destacava. Todos se emocionavam com esse tipo de jogador, que se entregava à seleção, fazia de tudo para que ganhasse, e não queria apenas aparecer. Acho que hoje o dinheiro influencia muito a cabeça dos jogadores. Falta humildade.

Sem disfarçar a dicção saudosista, Thereza afirma que, no passado, as jogadas empolgavam mais:

– Os jogos eram melhores. O futebol era mais bonito, mais pensado. Os jogadores se conheciam muito. A maneira brasileira de jogar encantava mais. Talvez seja esta mudança de filosofia que faça até com que alguns torçam para que a seleção não vença.

Ainda assim, seleção é seleção, diz a veterana torcedora. Quem assistiu às glórias do passado não pode jogar a toalha:

– Ainda tenho muita motivação para ir aos jogos da seleção. Até hoje eu fico nervosa com as partidas. Torço pela seleção, mesmo sem estar jogando bem, mesmo não gostando muito do futebol apresentado. Quero ver as glórias se repetindo agora.