Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 22 de abril de 2024


Esporte

Flamengo x Botafogo, clássico sem festa pelos 100 anos

Amanda Reis e Matheus Vasconcellos - Do Portal

13/05/2013

 Reprodução

Há exatos cem anos, em 13 de maio de 1913, uma terça-feira, Botafogo e Flamengo se enfrentavam pela primeira vez, dando início à história de um dos mais importantes clássicos cariocas. O primeiro, vencido pelo Botafogo por 1x0, com gol de Mimi Sodré, marcou a inauguração do estádio General Severiano, do time alvinegro. Desde então, foram 297 jogos, com 107 vitórias do Flamengo, 92 do Botafogo e 98 empates que despertaram muitas emoções.

Ídolo de várias gerações da torcida do Flamengo, o ex-jogador Zico se lembra de sua infância ao comentar a rivalidade com o Botafogo. Para ele, a experiência de entrar em campo contra o alvinegro unia a vontade de vencer do jogador e a sede por revanche do torcedor.

– Este clássico sempre foi muito importante para mim, principalmente como torcedor rubro-negro. Sou da época em que o alvinegro contava com grandes jogadores que sempre admirei, como Garrincha, Nilton Santos, Paulo César. Foi um timaço que marcou o futebol brasileiro. Naquela época, os clubes davam uma gratificação aos jogadores a cada vitória. O goleiro Manga, do Botafogo, sempre dizia que gastava o dinheiro antes do jogo, porque a vitória contra o Flamengo era garantida. Por isso o Botafogo era o time sobre o qual eu mais tinha desejo de ganhar. Era o Zico torcedor e o Zico jogador em campo – revela o craque, que lamentou a derrota do Flamengo para o Botafogo em seu aniversário, no último dia 3 de março: – Ganhar e perder faz parte do jogo. Obviamente, eu queria que o Flamengo tivesse ganhado, mas não deixei de comemorar meu aniversário. O Parabéns foi cantado do mesmo jeito.  Divulgação

Este centenário, porém, corre o risco de passar em branco. O Botafogo, que comemora a conquista da Taça Rio e foi o primeiro a vencer o primeiro Campeonato Carioca, em 1910, sofre com um importante desfalque. O estádio olímpico João Havelange, o Engenhão, arrendado pelo clube desde 2007, foi interditado pela prefeitura no dia 26 de março, por causa de rachaduras identificadas na cobertura. Com isso, o alvinegro deixou de arrecadar R$ 400 mil no último mês com a bilheteria de jogos, incluindo partidas de Flamengo e Fluminense, e com a realização de eventos no estádio (veja fotogaleria). Com os jogos transferidos para o Estádio Raulino de Oliveira, em Volta Redonda – como a final da Taça Rio entre Botafogo e Fluminense, no último domingo, dia 5 – o Botafogo gasta, a cada partida, R$ 80 mil com transporte, alimentação e hospedagem, sem contar com o aluguel do estádio, em torno de R$ 55 mil. Somando as despesas e a falta de arrecadação, o clube somou um déficit de R$ 800 mil.

Mesmo antes do fechamento do Engenhão (foto), a torcida carioca já andava sumida dos estádios, que registravam queda de público. Apesar da fidelidade da torcida, que lotou o estádio de Volta Redonda, a 130 quilômetros do Rio, o jogo teve 12.485 pagantes, menos da metade do público do segundo jogo da final do Campeonato Carioca em 2012, entre Botafogo e Fluminense, quando o Engenhão recebeu 25 mil torcedores.Arquivo Portal

O Flamengo, por sua vez, está em crise desde o ano passado, com uma dívida assumida de R$ 750 milhões, incluindo o salário de jogadores, que ficaram meses sem receber. O presidente Eduardo Bandeira de Mello, empossado em janeiro, prometeu quitar as dívidas deixadas pela gestão anterior e cortou as despesas com o elenco. O técnico Dorival Junior não aceitou ter o salário reduzido à metade e deixou o clube, que também perdeu o atacante Vagner Love. O time foi eliminado do Campeonato Carioca 2013 após uma sucessão de derrotas, causando a revolta de torcedores.

O diretor-executivo do Botafogo, Sérgio Landau, afirma que o clube pretende organizar um encontro comemorativo em conjunto com o Flamengo. Dependendo do entendimento dos clubes, o centenário deve ser festejado na primeira partida entre os dois no Campeonato Brasileiro, no Maracanã, em 28 de julho. O presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Melo, também diz que certamente haverá uma comemoração:

– Estamos estudando o melhor local, porque neste dia 13 de maio estaremos sem o Engenhão e sem o Maracanã – afirmou, lembrando que o estádio pré-inaugurado no último dia 27, numa partida que reuniu jogadores e ex-jogadores consagrados, ainda não pode receber partidas oficiais e se encontra em fase de testes (veja galeria de fotos das obras). O próximo jogo do rubro-negro é no dia 15 de maio, contra o Campinense, ainda sem um estádio definido.

Sobre a crise, Bandeira afirma estar seguindo as orientações da consultoria contratada pelo Flamengo para driblar as dificuldades:

– A Ernst & Young recomendou investimento em transparência e profissionalismo. Buscar proteção jurídica, reduzir as penhoras e gerar receitas com novos contratos, como Adidas e Peugeot.

Autor da biografia Zico, 50 anos de futebol, o jornalista Roberto Assaf, colunista do jornal esportivo Lance! e flamenguista, defende que, antes de quitar as dívidas, o rubro-negro precisa ter um time forte, mesmo sem grandes nomes no elenco:

– É um absurdo o Flamengo não disputar pelo menos as semifinais do Campeonato Carioca. Ele não precisa nem ganhar, só disputar os campeonatos. Se o clube continuar assim, todo o planejamento que essa diretoria está fazendo vai por água abaixo, eles não vão conseguir se sustentar. As cobranças serão cada vez maiores.

Arquivo Portal Torcedor botafoguense, o jornalista Arthur Dapieve, colunista do O Globo e professor da PUC-Rio, acredita que  a crise dos clubes é pequena em relação à questão dos estádios cariocas. Lembrando que o Engenhão, construído para o Pan-Americano e inaugurado em 2007, custou R$ 380 milhões, seis vezes mais que o previsto, ele critica a política pública de construção e manutenção de complexos esportivos:

– O grande problema é o desprezo profundo que nossos políticos têm pelo dinheiro público. A Prefeitura do Rio tinha um relatório há quatro anos sobre um problema no Engenhão, achou que não precisava fazer nada e, agora, o estádio foi interditado. A entrega do Maracanã (foto) já foi adiada várias vezes, e cada vez o estádio fica mais caro. Essa ligação espúria entre governantes e empreiteiras é que precisa ser mudada. O Botafogo e o Flamengo terão fases, elas são circunstanciais, mas essa política governamental será difícil de mudar.

O jogo da minha vida

Roberto Assaf, 57 anos, mais de 30 deles cobrindo esporte, conta que não viu um time como o Flamengo comandado por Zico em 1981. Nesse ano houve a partida mais importante da vida de Assaf entre os dois times – a goleada de 6 a 0, com o brilho de Zico:

– O maior time do Flamengo que já vi jogar foi o de 1981, sem dúvida. Eu vi todos os elencos que jogaram nos últimos 50 anos e esse é disparado o melhor deles. Não existe nenhum nível de comparação que possa equiparar os outros times do Flamengo a esse. Em novembro deste ano vivi o melhor jogo da minha vida. Em 1972, quando o placar tinha sido o inverso (Botafogo 6 x 0 Flamengo) eu estava no estádio e é claro que fui embora durante o intervalo. Só depois de quase 10 anos a vingança chegou. Esse jogo vale mais do que um jogo em si, ele vale um título.

Se as histórias de Assaf e Zico se encontram em 1981 no Flamengo, para o jornalista Arthur Dapieve o ano especial é 1989. O time alvinegro estava há 21 anos sem ganhar um título carioca quando, na final do campeonato, o ex-jogador Maurício fez um gol aos 12 minutos do segundo tempo, consagrando o Botafogo como campeão. Dapieve estava no estádio, na tribuna de imprensa:

– Foi o jogo que mais me marcou. O Botafogo era um time inferior ao Flamengo no papel, mas tinha empatado o primeiro jogo e ganhou o segundo jogo com o gol do Maurício. Eu estava com uma credencial de cronista esportivo emprestada, e um colega me chamou a atenção: “Contenha-se, você está aqui como jornalista, e não como torcedor”.

Esta final de 89, em um Maracanã lotado de torcedores do Botafogo na expectativa pelo fim do jejum de 21 anos, foi mais importante na carreira de Maurício (na foto do alto, prestes a chutar):

– Como clássico, a final do Carioca de 89 foi maravilhosa, inesquecível, não só na minha vida como para todo o clube – lembra o jogador, para quem, no entanto, a partida mais marcante foi ainda na segunda fase daquele campeonato: – O jogo que levou nosso time a conquistar esse título foi aquele 3 a 3 na segunda fase. Foi muito importante naquele momento. Um empate com sabor de vitória que nos encheu de força e esperança para sermos campeões invictos.

Como bom torcedor, Landau também elege aquele 1 a 0 na final do Campeonato Carioca de 1989 como uma de suas preferidas, mas destaca ainda a final de 1962:

– Eu tinha 10 anos, o Flamengo estava bem no campeonato, sempre na frente, e ainda tinha a vantagem de poder empatar para ser campeão, mas o Botafogo ganhou brilhantemente com Garrincha – conta ele sobre a vitória por 3 a 0.

Bandeira de Melo também guarda no coração o jogo em que o Flamengo quebrou o jejum de vitórias. Ele destaca dois jogos do clássico que foram mais marcantes para ele:  Arte: Cynthia Salles

– Um foi a revanche do Flamengo de 6 a 0, em 1981, pelo Campeonato Carioca. Desde 1972, estávamos engasgados com a derrota de 6 a 0 pelo Campeonato Brasileiro, no dia em que o clube completava 77 anos (15 de novembro de 1972). Chegamos perto várias vezes, mas a conquista só veio em novembro de 1981. Antes foi a partida do dia 1º de junho de 1969. Ganhamos de 2 a 1, com gols de Arilson e Doval, e quebramos o tabu de quatro anos sem vencer o alvinegro. Neste jogo, foi a primeira vez que o urubu entrou em campo, levado pela torcida do Flamengo – conta. O urubu foi adotado como mascote do clube depois que torcedores rivais usaram o animal para provocar a torcida rubro-negra.

Landau acredita que o Botafogo continua o mesmo time de raça desde a época dourada, com Garrincha, Amarildo, Nilton Santos e Zagallo, porém o futebol mudou:

 – Antigamente, era um esporte romântico. Hoje, é um jogo mais duro, profissional, os jogadores não tem mais tanto apego aos clubes – explica.

Para o ex-jogador Maurício, a rivalidade entre os dois clubes vem de uma “geração fantástica lá de trás” e o grande motivo é as conquistas particulares dos times:

 – A rivalidade vem de uma geração fantástica lá de trás. O Botafogo foi o time que mais cedeu jogadores na história para a Seleção Brasileira; o Flamengo construiu sua história depois, com grandes jogadores e grandes títulos. Acho que, por serem duas grandes potências do futebol brasileiro, o clássico Botafogo e Flamengo ficou caracterizado por ter sempre grandes jogos.

Para Maurício, o centenário tem que ser lembrado de alguma forma:

– O jogo poderia ser em General Severiano (usado hoje apenas para partidas de juniores), já que o primeiro jogo foi lá. O campo é bom, e a festa seria em proporções reduzidas. Seria até melhor, porque eu e os outros jogadores da minha época já não conseguimos mais correr como antigamente, e não faríamos vergonha na frente da torcida. Mas não podemos deixar de comemorar. Botafogo e Flamengo fazem parte de um clássico com uma história muito bonita.