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Rio de Janeiro, 22 de abril de 2024


Esporte

Fome de bola e de histórias move o duelo centenário

João Pedroso de Campos - Do Portal

06/07/2012

Arte: Maria Christina Corrêa

Surgido 40 minutos antes do nada, como eternizou Nélson Rodrigues, ou da dissidência de alguns atletas do Fluminense, como conta a história oficial, o Fla-Flu – apelido dado pelo jornalista Mário Filho, irmão de Nélson, em 1933 ao derby do Rio – é uma entidade, um campeonato à parte, um espetáculo que completa 100 anos amanhã e se reedita no domingo. Colorido de vermelho, preto, verde, branco e grená nas arquibancadas e no campo, o clássico carrega a fama de mais charmoso do Brasil desde os tempos românticos do futebol carioca e, de um modo geral, do futebol brasileiro.

Os 800 espectadores que foram ao campo das Laranjeiras na tarde daquele domingo, 7 de julho de 1912, nem imaginavam que o duelo se tornaria, anos depois, o “Clássico das Multidões”, dos Maracanãs lotados, dos craques e personagens folclóricos, das crônicas de Nélson e Mário. A primeira disputa entre os gigantes cariocas inaugurou a mística centenária antes do apelido famoso, e a rivalidade antecipou-se até ao apito inicial. Em novembro de 1911, não havia futebol no Clube de Regatas do Flamengo, dedicado às equipes de remo, das quais fazia parte o jovem Alberto Borgerth, atacante e capitão do escrete do Fluminense Football Club. Incomodados com a ligação de Borgerth com o clube da Gávea, dirigentes do Flu limitaram a voz ativa dele no vestiário do time às vésperas das finais do Campeonato Carioca. Foi o estopim para a dissidência tricolor. Nove jogadores, liderados pelo capitão, debandaram rumo ao Flamengo, que passou a ter um departamento de futebol. Mesmo tendo perdido os principais jogadores para o rival, o time tricolor venceu o rubro-negro por 3 a 2.Reprodução

– O Fla-Flu, mais que qualquer outro jogo, é imprevisível. É uma velha máxima, não tem favorito. É um jogo que vive desmentindo os prognósticos dos entendidos em futebol. Quem está por baixo sempre pode vencer. Foi assim no primeiro Fla-Flu da história, e será assim no próximo domingo – sintetiza o jornalista João Máximo, da ESPN Brasil, cujos ofício e preferência o levaram a acompanhar incontáveis Fla-Flus.

Nélson Rodrigues e Mário Filho, craques das palavras, impulsionaram a mística do clássico que atualmente mobiliza 37 milhões de torcedores pelo Brasil e reproduz o embate entre irmãos que se repelem por muito se parecerem. Fla e Flu são os clubes do Rio com mais conquistas estaduais (32 a 31 para o clube da Gávea). Uma prova do equilíbrio entre ambos é o placar destes 100 anos: em 390 partidas, 139 vitórias rubro-negras, 123 tricolores e 127 empates. O Flamengo também balançou mais as redes, 568 a 518, mas o Fluminense leva vantagem nas decisões estaduais: em 11 finais, venceu oito.

Os clubes compartilharam alguns ídolos, como Doval, Renato Gaúcho, Romário, Edmundo, Petkovic, Carlos Alberto Torres, Nunes e Paulo César Caju. No entanto, os camisas 10 mais lembrados e identificados pela torcida jamais, como se dizia, viraram casaca. No Fla, embora os mais antigos enalteçam a categoria de Zizinho, a coroa é de Zico, artífice do time que ganhou o Brasil e o mundo nos anos 1980. No Flu, a majestade é dividida entre Rivellino, maestro da Máquina, nos anos 1970, e Assis, o carrasco rubro-negro no tricampeonato carioca em 1982, 1983 e 1994.

O Galinho de Quintino era jovem e talentoso quando deixou o subúrbio carioca para liderar uma geração de craques integrada por Carpegiani, Adílio, Andrade, entre outros. Rivellino, mais experiente, já passara pelo Corinthians e por duas Copas (1970-74) quando foi trazido pelo presidente Francisco Horta para liderar uma equipe inesquecível, formada também por Dirceu, Marinho, Caju, Pintinho. Naquela segunda metade dos anos 1970, o Flamengo começava a esboçar o time que em 1981 seria campeão mundial. O Fluminense era A Máquina. Nos três anos em que se enfrentaram no Maracanã, melhor para o maestro das Laranjeiras, que levou o clube ao bicampeonato carioca (1975/1976). Zico, maior artilheiro do clássico, com 14 gols, só voltaria a ser campeão depois do desmanche da Máquina, em 1978.Reprodução

Para o produtor musical, compositor, jornalista, escritor – e tricolor – Nelson Motta, autor de Fluminense: a máquina de jogar bola (Ediouro), um Fla-Flu inesquecível foi o da decisão do Carioca de 1969. "Pode ser que existam, venham a existir Fla-Flus melhores. Mas maiores, impossível. Esse Fla-Flu tinha mais de 170 mil pessoas, ou mais. Jamais vai se repetir. São dois Engenhões lotados", lembrou Motta ao portal G1.

Para João Máximo, que acompanha e vive intensamente o confronto há mais de 50 anos, o Fla-Flu inesquecível foi o do primeiro turno do Campeonato Carioca de 1964.

– Esse jogo foi 3 a 3. Havia 130 mil pessoas no Maracanã. O Fluminense fez um gol com um minuto de jogo. A partir daí, o Flamengo dominou a partida e virou pra 2 a 1. Mas, quando o excelente ponta-direita Carlos Alberto se machucou, o rubro-negro acusou o golpe e deixou o tricolor empatar. A um minuto do fim, o Flu fez 3 a 2. Então, o Flamengo deu a saída, foi à área tricolor e, aos 45, sofreu um pênalti. Airton empatou de novo. Um jogo incrível, com várias alternativas. A cada minuto,a indefinição aumentava. Não me esqueço desse jogo, pois do primeiro ao último minuto a gente ficou sem saber quem ia ganha – recorda.

O recorde mundial de público num estádio é atribuído a um Fla-Flu. Foi em 1963, quando pouco mais de 190 mil torcedores viram o Flamengo ser campeão estadual depois de um empate em 0 a 0 no "maior do mundo".

Capaz de mover multidões e lembranças arrebatadoras, o Fla-Flu se transformou também numa marca. Uma marca com a qual sonha todo publicitário, daquelas que viram sinônimo de uma categoria, um tipo de comportamento. Feita para diluir fronteiras, como expõem o encanto do correspondente Hugh McIlvanney, do jornal The Observer: "Enorme, esmagador, capaz de transformar em carnaval um espetáculo de futebol, o Maracanã já é uma lenda. A realidade contudo, é muito maior. A memória que em mim ficará para sempre do Fla-Flu e, mais, do próprio futebol brasileiro, será desta enorme, pungente, feliz experiência humana.”.

 As palavras de McIlvanney, como outras tantas, resumem o Fla-Flu. O clássico em que um tem prazer em ser o mais popular, e o outro, orgulho de ser o mais nobre. Essa loucura que coroa heróis improváveis, que eterniza gols de barriga. Essa língua conjugada desde o sotaque europeu de Petkovic ao castelhano de Gamarra. Quintal do Diamante Negro, do Maestro e do Baixinho. Do Fla de Mário, do Flu de Nélson. Do Fla de Caetano, do Flu de Chico. Do Fla de Aymoré, do Flu de Telê. Todos abençoados por São Judas rubro-negro e João de Deus tricolor, à espera dos próximos 100 anos.

Bola para Lagoa, que o jogo é de campeonato

O memorável Fla-Flu da Lagoa talvez seja o mais famoso e emocionante jogo da história do clássico. Disputada no estádio da Gávea no dia 23 de novembro de 1941, a partida era vista como um tira-teima. Afinal, o Fluminense havia conquistado os campeonatos de1936/37/38, além do de 1940. O Flamengo, uma equipe forte, sagrara-se campeão de 1939.

Os tricolores chegaram a abrir dois gols de vantagem, mas o centroavante rubro-negro Pirillo empatou o jogo em duas jogadas rápidas, e os donos da casa foram ao ataque. Envolvidos pelos atacantes do Flamengo, os jogadores do Fluminense passaram a usar o artificio de jogar a bola na Lagoa Rodrigo de Freitas, que ficava ao lado das gerais da Gávea. Para o Flamengo somente a vitória interessava. Para o Fluminense, o empate servia. Nos instantes finais o processo se acentuou: o Flamengo atacava e o Fluminense chutava a bola para a Lagoa. Dirigentes do Flamengo conseguiram com que os remadores do clube fossem para a Lagoa e, como gandulas, atuassem na devolução rápida da bola para o campo de jogo.

O árbitro interpretou a atitude dos tricolores como antidesportiva e o ponta-esquerda Carreiro foi expulso. Em vantagem numérica, os ataques do Flamengo se intensificaram. Então, Romeu Pelliciari, o craque do Fluminense, passou a prender a bola no campo de ataque, junto à bandeirinha de escanteio. Os flamenguistas, muito irritados, passaram a cometer faltas duras e seguidas no meio campista tricolor. O juiz José Ferreira Lemos, o popular Juca da Praia, descontou justos doze minutos. Nesses descontos, o Flamengo acuou o Fluminense, mas não conseguiu o gol da vitória. O goleiro do Flu, Batatais, teve a clavícula deslocada a cinco minutos do fim da partida, mas continuou no jogo. Sua bravura contagiou seus companheiros, que lutaram para manter o resultado que lhes favorecia. Até que o juiz ergueu os braços: era o fim, o Fluminense foi o campeão carioca de 1941.