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Rio de Janeiro, 22 de abril de 2024


Esporte

São Cristóvão escala fidelidade campeã para se reerguer

Monique Rangel - Do Portal

29/05/2012

 Jefferson Barcellos

Meio século antes de o sapateiro Álvaro Carneiro nascer, o São Cristóvão de Futebol e Regatas conquistava seu título de maior expressão: campeão estadual de 1926. Nascido, em 1976, e criado no bairro da Zona Norte, o torcedor se alimenta de uma "paixão difícil de explicar" pelo time que hoje luta contra o rebaixamento à Terceirona do Carioca. Torcedor é assim, só muda de endereço. Uniformizado como quem se veste para uma decisão, Álvaro foi à abertura do 3° Cinefoot – Festival de cinema de Futebol (veja a programação completa) –, na quinta-feira passada, em Botafogo, assistir ao curta Meu Glorioso São Cristóvão (1978). Apresentado pelo Portal PUC-Rio ao diretor do documentário, Ney Costa Santos, eles bateram bola sobre a importância histórica dos escretes de subúrbio, sobre o bairro que dá nome ao clube e os desafios da equipe longe dos holofotes, e da grana, mas ainda próxima de uma doce lembrança. De quebra, combinaram uma sessão na indefectível sede da rua Figueira de Melo.

Enquanto tabelavam memórias e desejos referentes à paixão em comum, Álvaro e Ney viram a rápida preleção ao filme ser interrompida por um senhor que escutava a conversa. "Desculpa, vocês estavam falando de São Cristóvão? Estão de parabéns. Este time é a história do futebol carioca", afagou o aposentado Luiz Teles, 65 anos. "Eu simpatizo muito com os times pequenos", completou. Por pouco esse comentário final não recebeu cartão vermelho do torcedor: "Time pequeno, não. São Cristóvão é um clube pequeno, falta grana", esclaraceu. O cineastra concluiu de primeira: “O São Cristóvão era um pequeno que foi grande”, definiu o cineasta.

 Jefferson Barcellos Grande ainda é a emoção de Álvaro ao sonhar não com um título, mas com a permanência na Segunda Divisão. Missão quase épica, revigorada pelas imagens predominantemente nostálgicas distribuídas nos 15 minutos do filme. Naquele passado "glorioso", das ruas tranquilas e das vitórias trazidas na tela grande por fotos e narrações, o torcedor de 36 anos renovava o fôlego. “Estamos com a corda no pescoço”, desabafou. Dividia-se entre o encanto dos registros históricos e a ansiedade em relação à partida decisiva, amanhã, às 15h, contra o Angra, no sul fluminense. Se perder, o simpático São Cricri aproxima-se do rebaixamento. "Não poderei ir, pois tenho de trabalhar, mas um amigo vai me manter informado, por telefone", contenta-se. 

Álvaro é um típico "cidadão sãocristovense", daqueles que frequentam a Feira de Tradições Nordestinas, a Quinta da Boa Vista, os botecos do antigo bairro imperial. "Um domingo ou outro", faz  uma oração ao protetor. Entre os pedidos, é claro, a melhor sorte para time do peito. A paixão pelo clube cadete – como é conhecido, por ter sede próxima ao Exército Brasileiro – começou ainda criança. Naquela época, Álvaro tornava-se Varal, por conta do tipo magrinho, e improvisava traves de pedrinha para jogar bola com a meninada no asfalto.

– Ainda menino, comecei a ver os jogos em Figueira de Melo (sede do clube). Acompanhava pelos cadernos de bairro dos jornais os resultados do time, que já estava na Série B – recorda.

Ney Costa Santos também nasceu e morou naquele cantinho da Zona Norte. Até os 4 anos, o suficiente para incorporar as raízes familiares. Nelas o cineasta e professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio se inspirou para produzir Meu Gloriososo São Cristóvão. O documentário, diz ele, expõe uma fidelidade campeã: 

– Fiquei surpreso com a fidelidade dos torcedores ao clube, que na década de 1970 já não tinha mais perspectiva de ser campeão. O amor dos torcedores foi o que mais me chamou a atenção – reiterou Ney, que torce pelo Flamengo.

Gravado em apenas sete dias, o curta reúne histórias do bairro, da luta pela sobrevivência de clube tão amado, da abnegação de torcedores como Paulo Amargoso, presidente União da Ilha em 1978. “Se você se casasse com uma mulher que é uma miss Brasil e, depois de dez anos, ela ficasse doente, você a largaria? Então, o São Cristóvão era bom. Ele decaiu e eu continuei com ele”, comparou Amargoso para as lentes de Ney. 

 A decadência testa ainda hoje, talvez mais, a fidelidade dos torcedores. O time é quinto colocado no "grupo da morte" da Série B do Carioca e está a um passo da Terceira Divisão. As campanhas fracas dificultam a captação de patrocinadores e o espaço na mídia. Por falta de estrutura, os jogos em casa, no Figueirinha, com capacidade para três mil espectadores, deixaram de ser abertos ao "público externo". Só entram sócios e familiares de jogadores. 

– A equipe não pode nem contar com a tradicional pressão da torcida. Não tem ninguém para xingar o juiz – reclama o comerciante Celso Luiz Roberto, que também acompanhava a sessão de abertura do festival – Hoje, um jogo que poderia ter umas duzentas pessoas, tem apenas vinte, porque só vai pai de jogador ou sócio. – desabafa.

Se "tivesse condições", garante Celso, bancaria os 5 mil reais necessários à estrutura de cada jogo, o que inclui, por exemplo, despesas com ambulância e Corpo de Bombeiros. Ele sonha com a volta à Primeira Divisão e com a fabricação de talentos como Ronaldo Fenômeno, que deixou o clube em 1993, aos 16 anos, para despontar no Cruzeiro e ganhar o mundo. O mundo do São Cristóvão se equilibra no embalo de alguns Álvaros e Celsos, que, entre lembranças adocicadas e a dureza das vacas magras, enchem-se de confiança na vitória nesta quarta-feira, 30, em Angra. "Estarei lá", anima-se Celso.  

O São Cristóvão, que no começo do ano quase teve a sede vendida,­ sobrevive com o aluguel para festas, do dinheiro de um solitário patrocinador (Assim Saúde) e da contribuição dos 300 sócios, torcedores como Álvaro e Celso. Pagam 10 reais por mês. 

– O nosso maior medo é cair para a Terceira Divisão – reforça Álvaro, triste ao avistar o fundo do poço. 

Os problemas, contudo, revelam-se insuficientes para derrubar o orgulho e o encanto do torcedor, ao ver Meu Glorioso São Cristóvão. "Era naquela vila que eu jogava bola", reconheceu. Reanimado com o sabor das imagens, ele deixou encaminhada uma sessão no clube:

– Nós temos que passar esse filme lá. É maravilhoso. Quero assistir de novo, e pausando – disse Àlvaro, antes de anotar o telefone de Ney. 

O Cinefoot exibe gratuitamente 28 filmes sobre futebol, 15 brasileiros e 13 estrangeiros. A mostra competitiva termina nesta terça, 29, no Espaço Itaú de Cinema de Botafogo (Praia de Botafogo, 316). No entanto, as produções serão exibidas de 31 de maio a 3 de junho no Centro Cultural da Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241, Centro).

O pequeno que foi grande

O time cadete, que hoje conta com a graça do protetor dos motoristas para encontrar novamente o caminho das vitórias, foi Campeão Carioca em 1926. Entre 1918 e 1937, venceu o tradicional Torneio Início do Rio de Janeiro. Ganhou também a segunda edição do Torneio Municipal, em 1943, deixando o Fluminense em vice.

Outro momento de ouro do São Cristóvão foi vencer, de virada, o Flamengo de Zico em 1975, por 3 a 2, em pleno Maracanã. A última campanha expressiva foi o vice-campeonato da Copa Rio, em 1998.

O São Cricri também é conhecido por ter revelado, na década de 1990, o jogador Ronaldo Fenômeno.