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Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2017


Meio Ambiente

Transporte, a pedra no caminho de um Rio sustentável

Ligia Lopes - Do Portal

08/05/2012

 Ligia Lopes

Morador de São Gonçalo, o estudante de jornalismo Fabio Távora, de 21 anos, demora quase três horas para ir de casa à PUC-Rio, na Gávea, onde estuda e estagia. Ele é um dos que enfrentam a rotina já conhecida por cariocas e fluminenses, e confirmada em pesquisa inédita. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a partir de dados do Censo de 2010, acaba de apontar a região metropolitana do Rio como a pior do país em relação à mobilidade urbana, com 28,6% da população levando mais de uma hora para chegar ao trabalho e voltar para casa. O Estado do Rio também bateu recorde nacional: 23,1% dos trabalhadores fluminenses perdem mais de 60 minutos no deslocamento, e, entre as capitais, o Rio só perde para São Paulo, com 31,03% contra 25,3%.

– O transporte público no Rio é fraquíssimo. Engarrafamento é uma coisa normal de cidade grande, mas outras megalópoles com tráfego pesado conseguem oferecer o mínimo de conforto ao povo. É crucial, para uma grande cidade, investimento forte no setor de transporte. Os ônibus que eu pego sempre vêm lotados, tem gente em pé na escada! Aqui as coisas são muito paradas. Precisa de uma Copa do Mundo para mudar alguma coisa – reclama o estudante.

Excesso de carros nas ruas, poluição e trânsito são problemas observados nas grandes cidades do Brasil e do mundo. No Rio, que será sede da Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em junho, da Copa de 2014 e das Olimpíadas, em 2016, medidas vêm sendo adotadas para minimizar as falhas do sistema de transportes. Em nível nacional, a presidente Dilma Rousseff anunciou em abril o investimento de R$ 22 bilhões no projeto PAC Mobilidade Urbana. O projeto conta com os governos regionais para complementar os R$ 32 bilhões que devem ser aplicados em metrôs, corredores de ônibus e veículos leves sobre trilhos (VLTs) em 18 estados, incluindo o Rio, nos próximos anos.

Estado e Prefeitura também apostam em investimentos em grandes obras viárias. A obra pretende diminuir pela metade o tempo da viagem entre Barra e Santa Cruz. Mas o nó a ser desatado é mais complexo do que simplesmente abrir vias expressas. A palavra de ordem, tanto para o poder público como para especialistas, é “transporte sustentável”, ou seja, melhorar a eficiência do sistema de transporte poupando, além de tempo, a qualidade de vida do cidadão e do meio ambiente.

– Quanto mais tempo perdemos no trânsito, menos tempo temos para descansar, e, quanto menos tempo temos para descansar, mais cansados chegamos ao trabalho e menos qualidade conseguimos dar a ele. Quanto menos qualidade, menos dinheiro e menos empenho – pondera Fábio.

 Ligia Lopes

Entre os projetos da prefeitura relacionados à sustentabilidade no transporte estão a aplicação do Bilhete Único, já em vigor, desde outubro de 2010; a rede básica hierarquizada (sistemas BRT – Bus Rapid Transit, corredores expressos de ônibus, onde os veículos trafegam em canaletas específicas; e BRS, serviço que pretende reduzir o congestionamento, além de reduzir a emissão de poluentes e o consumo de combustíveis, já adotada em Copacabana, Centro, Leblon e Ipanema), além do Morar Carioca, programa de inclusão social e urbana das comunidades.

O gerente de Mobilidade Urbana da Prefeitura do Rio, Luiz Paulo Gerbassi Ramos, ressalta:

– Para as propostas do governo municipal darem certo, é preciso unir inteligência e infraestrutura. Queremos evitar viagens desnecessárias, o que vai gerar reserva de renda e diminuir o gasto de tempo e de poluentes. Ligia Lopes

Alvo de polêmica em relação a seu traçado, a linha 4 do Metrô (Barra-Ipanema) teve suas obras iniciadas em 2010 e deve entrar em fases de teste em dezembro de 2015, para começar efetivamente a funcionar em 2016. O projeto prevê que a estação Gávea seja instalada no terreno onde hoje estão parte do estacionamento da PUC e o Instituto Gênesis. Com as obras, a Zona Sul, que ganhou novas estações recentemente, voltará a conviver com canteiros de obras e trânsito caótico.

Mas a coordenadora de Mudanças Climáticas da Subsecretaria de Economia Verde do Estado, Márcia Real, afirma que essas mudanças nos transportes públicos, somadas às ações da prefeitura, como os BRTs, vão causar um impacto positivo na direção do transporte sustentável, com mais qualidade de vida, além de melhorias no ar e na redução de gastos de energia:

– O ideal é reduzir o número de viagens de carro, que afetam a poluição local e o clima. Há uma forte tendência à redução dos gases do efeito estufa em torno de 30% até 2030, e isso seria obtido através do aumento da oferta e da melhoria dos transportes públicos, como barcas e metrô.

Especialista em transporte e logística, o engenheiro José Eugenio Leal, professor de Engenharia de Transportes da PUC-Rio, critica a abertura de canteiros de obras sem planejamento consistente:

– É tudo jogo com a imprensa para o governo mostrar que está fazendo, mas não há políticas claras. No meio do caos que estamos vivendo, a derrubada do Elevado da Perimetral vai causar um nó infernal no trânsito do Centro. Se o governo quiser assumir isso, que assuma claramente.

  Ligia Lopes Outra megaobra em andamento é a BRT Transcarioca, sob o custo de R$ 800 milhões, que ligará a Barra ao Aeroporto Internacional Tom Jobim. Depois de deixar o consórcio da reforma do Maracanã, a construtora Delta também abandonou a obra da Transcarioca, que será agora concluída pela Andrade Gutierrez. A entrega está prevista para o fim deste ano. O empreiteiro Fernando Cavendish, dono da construtora Delta e amigo do governador Sérgio Cabral, será investigado por envolvimento com o esquema do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, alvo de uma CPI no Congresso.

O Plano de Mobilidade Urbana Sustentável, outro projeto da prefeitura, ainda não assinado pelo prefeito Eduardo Paes, prevê metas a serem cumpridas até o fim deste ano (leia no quadro abaixo).

Bicicletas: uma alternativa viável?
A adoção de bicicletas como meio de transporte não poluente para curtas distâncias faz parte do programa Rio Capital da Bicicleta, da Prefeitura do Rio, que quer assumir a liderança latino-americana em quilômetros de ciclovias construídas. Além de evitar colapsos no trânsito, diminuirá a poluição ambiental. Cidades como Bogotá, na Colômbia, e Amsterdã, na Holanda, já assumiram a bicicleta como alternativa viável em sistema de transporte.

Para José Eugenio Leal, é preciso criar uma rede de ciclovias segura na cidade:

– O Rio só tem ciclovias para passeio, e não há segurança. Uma coisa radical a se fazer é, em alguns pontos, dar prioridade à ciclovia, mesmo que signifique tirar faixas de automóveis – opina o especialista, acrescentando que o meio de transporte deve atender a trajetos de curta distância. – O ideal seria fazer como na Europa, em que você vai de bicicleta até a estação do trem ou do metrô e a deixa lá. Também poderia haver um sistema ampliado para o uso de bicicleta elétrica, por exemplo. Porque, apesar de ser um ótimo exercício, não é bom suar para ir trabalhar.

 Jefferson Barcellos A polêmica sobre a regulamentação das bicicletas elétricas ganhou força esta semana com a apreensão do veículo de um ciclista submetido ao teste do bafômetro e de decreto estabelecendo velocidade máxima de 20 km/h. Ao mesmo tempo, no ano passado, a prefeitura também estabeleceu por decreto que elementos do mobiliário urbano, como estátuas e postes de luz, não podem ser utilizados para prender o veículo, a menos que faltem vagas nos bicicletários. Essa postura teve como consequência ciclistas multados e bicicletas recolhidas por guardas municipais.

A professora e especialista em gerenciamento de transporte sustentável Milena Bodme, do Programa de Engenharia de Tráfego da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PET-UFRJ), propõe uma saída pela água, em trajetos cruzando a Baía de Guanabara, encurtando o tempo de viagem:

– O Acqua Mobile criaria pontos estratégicos nas margens da Baía de Guanabara. Por exemplo, ligaria São Gonçalo à Ilha do Fundão. Uma ligação com a Transcarioca aliviaria ainda mais a locomoção. Também há a possibilidade de traçar um trajeto da Zona Sul de Niterói com a do Rio, mas isso ainda está em fase prematura de estudos – explica Milena.

A professora ressalta que seria necessário revitalizar toda a área em torno dos pontos de embarque e desembarque. Segundo Milena, essa revitalização estimularia os usuários a optar por esse meio de transporte.

A alternativa ajudaria a estudante Gabriela Barra, de 24 anos. Nascida em Belém, ela veio para o Rio cursar sua terceira faculdade. Hoje mora na Ilha do Governador, trabalha em Botafogo e estuda desenho gráfico no Rio Comprido.

– A Ilha é meio deixada de lado. Não tem metrô nem trem, e as barcas são precárias, demoram 50 minutos para atravessar a baía. Para chegar à Zona Sul, ou vou pela Avenida Brasil ou pego a Linha Vermelha. Se tiver um acidente em alguma das duas, com certeza vou chegar atrasada. Deviam levar o metrô até lá. Meu namorado diz que a Ilha é a Zona Sul da Zona Norte, porque lá quase não passa ônibus, como se todo mundo tivesse carro – conta.

Metas do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável

  • Substituir gradativamente a utilização de combustíveis fósseis por outros renováveis ou com baixo teor de carbono;
  • Adotar a norma Euro V; Promover políticas com o objetivo de redução de acidentes;
  • Melhorar o ambiente urbano para os veículos não motorizados;
  • Facilitar integração de diferentes transportes; Implantar a BRT Transoeste;
  • Capacitar em mobilidade sustentável 10% dos profissionais dos órgãos de projetos urbanos;
  • Garantir a manutenção da rede cicloviária no município;
  • Expandir o sistema BRS para o Centro, Zona Sul e Zona Norte;
  • Desestimular o uso do transporte motorizado.