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Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2017


Meio Ambiente

Quatro sugestões para o verde ganhar a economia

Monique Rangel - Do Portal

02/05/2012

 Jefferson Barcellos

A falta de consenso em torno da definição de "economia verde" não impede que seja apontada por ambientalistas como símbolo de uma revolução comparável à saída da Idade Média ao Renascimento. Reunidos num prelúdio da Rio+20, no Palácio da Cidade, especialistas apontaram medidas essenciais para que os discursos sobre relações econômicas sustentáveis – iniciados há 40 anos, em Estocolmo, e reforçados há 20, na Eco 92 – virem realidade. Entre as principais propostas, estão o aumento do custo de energias poluentes, para que as fontes limpas, como a eólica e a solar, se tornem uma "alternativa viável"; a disseminação de hábitos de consumo equilibrados; a valorização de indicadores sociais nos parâmetros de desenvolvimento, para os quais o Produto Interno Bruto (PIB, soma das riqueza de um país) ainda exerce um peso preponderante, embora não raramente enganoso; e uma cooperação entre os integrantes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Apesar da influência crescente no jogo econômico e político global, tais países estão longe de políticas e práticas econômicas sustentáveis. Segundo a edição de 2011 do relatório “Quem está ganhando na corrida de energia limpa?”, baseado em dados da Bloomberg New Energy Finance (BNEF), China (US$ 45,5 bilhões), Índia (US$ 10,2 bilhões) e Brasil (US$ 8 bilhões) até aparecem no ranking dos 10 maiores investidores em energia limpa, mas os bilhões aplicados revelam-se ainda insuficientes para efetivar essas  matrizes energéticas em um mercado dominado por fontes não renováveis. A distância entre a retórica e a prática "verde" multiplica riscos que vão dos prejuízos ambientais até instabilidade econômica e inchaços demográficos causados por refugiados do clima.

 Jefferson Barcellos Os diferentes cenários políticos, econômicos e culturais, somados à busca por mais espaço no mercado externo, dificultam as articulações internacionais, avaliam os especialistas. Para o sociólogo e jornalista Sérgio Abranches, os países emergentes não têm noção de que compromissos podem adotar na Rio +20 sem fragilizar a posição política assumida ou desejada. Ele ressalta que "o atraso do Brasil em relação às questões ambientais" pode prejudicar as negociações durante a conferência:

– O Brasil está muito atrás da China. Não avançou um milímetro de Copenhagem (2009) para cá. Só adotou a lei de mudança climática, que não foi operacionalizada. E ainda estamos correndo o risco de retrocesso no Código Florestal – alertou Abranches, que participou da mesa redonda sobre economia verde, com o economista e professor da PUC-Rio Sérgio Besserman; Ariel Pares, diretor de programas, da Secretaria Executiva do Ministério do Meio Ambiente; José Eli da Veiga, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e Suzaba Kahn Ribeiro, professora da Coppe/UFRJ e subsecretária de Economia Verde do Estado do Rio de Janeiro.

Além de uma maior cooperação entre os países integrantes dos Brics, os especialistas consideram que, para a constituição de uma economia verde, é necessário que as matrizes energéticas mais limpas tornem-se viáveis. Sérgio Besserman, presidente do grupo de trabalho da Rio+20, adverte que o debate sobre a preservação do planeta foi válido na Eco 92. Hoje, aqueles riscos exigem ações imediatas e coordenadas, pois "não se trata só de amor ao mico-leão dourado, e sim à vida de todos". Ele defende o repasse dos prejuízos ambientais futuros ao preço atual do petróleo e outras fontes enérgicas "sujas".

– Os combustíveis fósseis são imbatíveis enquanto recurso energético. O fato é que eles aquecem o planeta. As fontes renováveis de energia não vão vencer só porque são "do bem". É preciso estímulos econômicos para torná-las viáveis. É preciso precificar os limites do planeta – enfatizou Besserman.

 Jeferson BarcellosA população pobre é a mais prejudicada com a decadência da "economia marrom", observam economistas e ambientalistas. Um dos principais desafios é equilibrar o aumento do consumo e o desenvolvimento sustentável, que exige, entre outros atributos, o aproveitamento harmonioso dos recursos naturais. O professor José Eli da Veiga ressaltou que a “questão da desigualdade está no centro do pilar ambiental, não é só uma questão de justiça social”. Na busca do equilíbrio, Suzana Kahn Ribeiro alerta para o risco de seguir o modelo ostentatório de consumo observado em países como os Estados Unidos:

– Não dá para achar que o bem-estar e a melhoria de vida só estão ligados ao consumo. O mundo está passando por uma crise ambiental, social e econômica. O atual modelo de desenvolvimento é um fracasso.

No limiar de um novo padrão de economia, os velhos indicadores mostram-se insuficientes para traçar uma radiografia precisa e projetar o futuro dos países. Ganham força propostas de novos parâmetros para medir as riquezas e o desenvolvimento das nações. O PIB é considerado enganoso, advertem os analistas. Na Rio +20, um dos temas analisados será a Felicidade Interna Bruta (FIB), adotada pelo Butão, pequeno país do Himalaia. O índice leva em conta fatores ambientais e sociais, como a felicidade da população.

– Temos que descolar o crescimento do PIB da ideia de progresso e fazer um nova métrica para mostrar o desenvolvimento humano social e econômico. O Produto Interno Bruto, como indicador, é contraditório e ultrapassado – pondera Abranches.