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Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2017


Meio Ambiente

Espaços urbanos sustentáveis são sinônimo de economia

Patrícia Côrtes e Tiago Coelho - Do Portal

17/04/2012

 Jefferson Barcellos

“Sem a participação das cidades não haverá possibilidade de êxito na luta do desenvolvimento sustentável”. O alerta sistemático do economista Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE e do Instituto Pereira Passos, reforça o coro dos que reiteram a necessidade de se repensar o modelo urbano. Ele ressalva que cada cidade deve encontrar soluções específicas, desde iniciativas simples, como o reaproveitamento da água e o uso de bicicletas no transporte diário, até iniciativas impulsionadas por novas tecnologias, como a adoção de aerogeradores e placas solares em residências e empresas. Caso contrário, adverte o especialista, a fatura ambiental assumirá a forma de uma vida mais penosa, sobretudo para os mais pobres.

Em boa parte dos municipíos brasileiros, o saneamento básico ainda representa um atraso em relação às demandas ecológicas e sociais, e expõe a distância para as ambições de sexta economia do mundo. Besserman qualifica como “vergonhoso” o nível de investimento na área, especialmente num país que vai sediar a Copa 2014, as Olimpíadas 2016 e a Rio+20, que carrega a missão de transformar os debates ambientais – intensificados desde a Eco 1992 – em políticas e práticas sustentáveis.

– Observamos uma inércia nas cidades brasileiras, uma divida social e ambiental gigantesca: o tratamento de água e esgoto. Num país com renda per capta do Brasil, a situação do saneamento é vergonhosa – avalia

Para o ambientalista, a responsabilidade de "fazer alguma coisa" envolve cidadãos, empresas e, principalmente, representantes do poder público. Considerando as metas da Rio+20, como consumo sustentável e energia limpa, o Portal PUC-Rio conversou com especialistas para esclarecer os parâmetros de uma cidade sustentável e os caminhos para transportá-la da retórica à realidade:

Água

 Isabela Castro Sugestão recorrente em fóruns do gênero, o reaproveitamento dos recursos hídricos esbarra na carência de programas para o setor e no legado de práticas tradicionalmente desalinhadas com os compromissos ecológicos. Contaminada por esgoto sanitário, produtos químicos e por resíduos dos lixões, águas do solo e do subsolo em metrópolis como o Rio fogem dos padrões de potabilidade.

Enquanto se busca um modelo de tratamento ótimo e o avanço dos sistemas de despoluição (como o da Baía da Guanabara, iniciado no incício dos anos 1990), o uso racional dos recursos hídricos no espaço urbano representa um passo rumo a soluções que afastem o risco de escassez de água potável – um dos principais fantasmas que assombram as metas para um planeta sustentável. Na cartilha contra o desperdício, impõe-se o reutilização da "água cinza", aquela eliminada durante o banho, no vaso sanitário. O engenheiro e professor da PUC-Rio Antônio Roberto Barbosa de Oliveira acredita que a opção se torne um hábito:

– Essa água do banho pode ser utilizada na descarga sem problema, mesmo porque o sabão é um bactericida. Ela só não pode ser contaminada com urina – ressalva.

A Organização Mundial de Saúde advertiu que, para a higiene e o consumo geral, uma pessoa precisa de 110 litros de água por dia. No Brasil, que ocupa a 25° posição entre as nações com maior disponibilidade de água no planeta, segundo a Unesco, gasta-se o dobro. Já a média de água utilizada por um europeu é de 140 litros por dia. A abundância deste recurso no Brasil e a cultura do “banho relaxante” induzem ao consumo excessivo, apesar de o custo da água tratada ser mais caro no país, como observa Oliveira

– No Brasil, toma-se banho para relaxar. O europeu não tem esse hábito. Há um excesso de água no país, em quantidade 20 vezes superior à da Europa. Apesar da abundância, o custo do litro tratado é três vezes mais caro do que na Europa.

Outra sugestão para o uso racional da água remete às descargas reguláveis. Para resíduos sólidos, são necessários cinco litros; para os líquidos, apenas três. Como a maioria das descargas disponíveis no mercado não é ajustável, uma boa parte da água potável é desperdiçada.  

– Uma mulher saudável vai ao banheiro 10 vezes ao dia para urinar, gastando 50 litros de água com a descarga. Em vez de gastar 50 litros, vai gastar 30 litros se utilizar as descargas reguláveis. Uma economia de 20 litros – calcula o professor.

A conta básica ilustra como os benefícios econômicos revelam-se importantes para converter em ações a "conscientização" ecológica. Outro item do manual contra o desperdício refere-se, ainda de acordo com Oliveira, aos hidrômetros individuais nos apartamentos. Assim, argumenta ele, pode-se controlar melhor os gastos e "acabar com as brigas de quem consome mais nos condomínios". O bolso, reforça o especialista, é um aliado estratégico para se desenvolver um "pensamento sustentável":

– Numa casa com quatro pessoas, a conta de água deve ficar entre 250 e 300 reais – estima – Hoje são obrigatórios, por lei, medidores de água em cada apartamento. Isso já diminui o consumo, pois as pessoas terão consciência do gasto. Se você atinge o bolso, elas passam a economizar.

 

Energia

 Divulgação As cidades são responsáveis por 75% das emissões de gases do efeito estufa por conta do uso predominante de combustíveis fósseis. A transição para formas de energia mais limpas e eficientes, depende, entre outros fatores, da conjugação entre as demandas ambientais e conômicas. O engenheiro Roberto Schaeffer, professor da UFRJ especializado em energias alternativas, avalia que a consolidação das fontes renováveis exige uma mudança de foco: 

– A energia está sendo pensada, sobretudo, para suprir interesses industriais, inclusive de transporte. A energia não é pensada para as cidades. Pensa-se na maneira mais barata de aumentar a economia.

A Alemanha está na dianteira da chamada energia distribuída. A matriz energética utilizada em áreas urbanas agrega fontes variadas, como painéis solares instalados em residências. Fransheit pondera, no entanto, que tais medidas, embora compatíveis com cidades europeias de baixa densidade demográfica, ainda revelam-se insuficientes para suprir o consumo energético em larga escala de centros urbanos como Tóquio, Nova York e São Paulo:

– Na Europa, o desenvolvimento é um pouco mais equilibrado, pois há muitas cidades de pequeno porte onde se pode pensar num tipo de geração mais local. Utilizar energias a partir do lixo e de painéis solares no telhado são medidas que se aplicam a essas cidades, mas não a São Paulo, Nova Yorque, Londres e até ao Rio. A concentração populacional e a verticalização impedem que a captação de energia por fontes alternativas seja suficiente para atender exclusivamente suas populações.

Para diversificar as matrizes energéticas nas cidades, é necessário diminuir o custo das fontes alternativas. Tal redução, afirmam os especialistas, demandam uma combinação entre políticas públicas e iniciativas do setor privado.

A utilização da energia eólica no Brasil cresce a cada ano. O país produz, atualmente, 606 megawatts derivados desta fonte a energia eólica – o que representa crescimento de 31% na matriz energética, o dobro da média mundial, segundo o Conselho Global de Energia Eólica. Schaeffer confia na popularização deste tipo de energia:

– A expectativa é que, até 2030, as energias eólica e solar se tornem mais baratas e até dispensem incentivos do governo para se tornarem competitivas no mercado. 

A energia proveniente dos ventos tende a ganhar residências brasileiras em menos de uma década. A captação poderá ser feita por meio de aerogeradores menores, cujas hélices giram no eixo vertical, como os helicópteros. Um sistema deste tipo (foto) está sendo desenvolvido por uma parceria entre a Enersud, empresa especializada em soluções energéticas, a Ampla e a Coppe (UFRJ). Chegará ao mercado até o fim do primeiro semestre. 

– O modelo vertical, em fase de ajustes finais, aproveita melhor a insconstância dos ventos urbanos, que, por causa das barreiras (construções), vêm de diversas direções – explica o engenheiro Luiz Cezar Pereira, diretor da Enersud.

Ele estima que uma turbina tradicional (eixo horizontal) de 1.000 watts possa gerar uma redução de 30%, ou mais, na conta de luz. Pereira ressalta, contudo, que a adoção das fontes eólica e solar deve vir acompanhada de outros equipamentos e hábitos voltados à eficiência energética (leia-se economia de recursos e de dinheiro). Usar lâmpadas frias e evitar a manutenção de aparelhos no modo stand by e desligar o monitor de computadores ociosos são exemplos de gestos simples contra o desperdício. 

Schaeffer aposta em uma maior rigidez nas Leis para Índices Mínimos de Eficiência Energética, para racionalizar o uso da energia nas casas. Para ele, o governo precisa cobrar dos produtos industrializados um padrão nos eletro-eletrônicos compatíveis com as novas demandas dessa área:

– A legislação para índices mínimos de eficiência energética é um pouco frouxa. O carro e o ar-condicionado vendidos no Brasil, por exemplo, devem ter um índice mínimo de eficiência energética. Ou seja, devem apresentar padrão de consumo energético que concilie economia e eficiência. E a publicidade deveria informar melhor, valorizar, produtos que consomem menos energia – propõe – Do ponto de vista ambiental, a prioridade deve ser a eficiência energética. É necessário que se realize campanhas informando das vantagens que isso pode trazer.

 

Arquitetura

“Um dos problemas das cidades brasileiras é que elas se expandem desordenadamente para os lados, favorecendo a favelização, e dessa forma não poderemos ser muito mais sustentáveis do que somos agora. O jeito de ocupar e construir vai ter que mudar”, avalia o professor Celso Romanel, coordenador da Pós- Graduação em Engenharia Urbana e Ambiental da PUC-Rio. Um dos pontos de partida, segundo ele, deve ser a “centralização” da cidade: revitalização do Centro, com a concentração de atividades nessa área, para diminuir o tamanho dos deslocamentos pelas ruas. “É um espaço ótimo, mas muito mal aproveitado”, argumenta.

Expansão desorganizada e aproveitamento inadequado dos espaços urbanos são sintomas de sucessivos erros na gestão pública, analisam urbanistas e ambientalistas. Estão associados também "ao modo de vida individualista das cidades", acrescenta Fernando Betim, coordenador da graduação em Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio:

– Hábitos de consumo aliados ao individualismo exacerbado faz com que todo mundo queira um carro, que em geral, só vai levar você e talvez mais uma pessoa. O automóvel vai passar a maior parte do tempo em garagens. Você perde espaços importantes para um objeto parado. Por isso, é muito necessário o investimento em mobilidade. O ideal é que os serviços substituam a posse de bens.

Para Betim, a sustentabilidade está muito ligada à forma como fazemos uso das coisas. Na opinião dele, o consumo consciente e a eliminação de desperdícios revelam-se tão importantes quanto o uso de matérias primas “verdes”. Nas construções, pode-se preferir, por exemplo, vidro que deixe passar mais luminosidade e retenha menos calor. Ou até adotar alternativas ao vidro, aproveitando beirais das janelas e espaços sombreados. Em ambas as soluções, observa o engenheiro, consegue-se economizar energia e ter uma ventilação mais natural.

Antes de escolher a matéria prima mais "sustentável", Betim aconselha verificar com cuidado se a opção é totalmente viável. Segundo ele, o bambu, por exemplo, é um ótima alternativa "até certo ponto". Se for necessário transportá-lo por grande distância, armazená-lo e tratá-lo, seu uso mostra-se "economicamente pior" do que o de materiais comuns:

– Quem não quiser ou puder fazer uso de materiais diferentes, uma modificação no projeto pode ser suficiente. Em vez de pensar na casa com vários espaços individuais, substitua por áreas comuns maiores. A construção fragmentada usa e desperdiça mais matéria prima. Temos que mudar essa cultura de cada um em seu espaço.

Os espaços urbanos sustentáveis devem harmonizar construções e espaços reservados à natureza. Nesse sentido, Betim acredita que o Rio está um degrau à frente de outras metrópoles: “Fomos beneficiados pela geografia, temos florestas no meio da cidade, como a da Tijuca”. Para o engenheiro, o caminho do Rio sustentável começa pela valorização das particularidades cariocas:

– Temos de aproveitar essa característica. Não é à toa que moramos na Cidade Maravilhosa. Temos muitos parques de preservação, não precisamos de novos. Só precisamos mantê-los e plantar árvores avulsas em outros pontos da cidade.