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Rio de Janeiro, 15 de junho de 2024


Campus

"A mídia não é máquina generalizada de conspiração. A mídia não fala, não faz discursos"

Adriana Braga*

28/05/2014

 Arquivo

A professora da PUC-Rio Adriana Braga conversa com o professor português Adriano Duarte Rodrigues, que ministra seminário no Departamento de Comunicação da PUC-Rio nesta segunda e terça.

Professora Adriana Braga: O título de sua palestra – O que é afinal o discurso da mídia? Será que a mídia produz discursos? – traz perguntas que desafiam o entendimento relativamente consensual de que os meios de comunicação produzem e reproduzem discursos. Em que consiste, na sua opinião, a atividade midiática?
Professor Adriano Rodrigues: Não creio que o tema desta palestra desafie um entendimento consensual, mas o entendimento que tem o consenso apenas de alguns analistas do discurso, dos que pretendem encarar a mídia como maquinação, como máquina generalizada de conspiração. Penso até que todas as pessoas, inclusive esses analistas do discurso, quando param para pensar, sabem que a mídia não fala, não faz discursos. Quando eu escrevo uma carta a um amigo, estou utilizando a mídia da escrita. Agora pergunto-lhe: a carta que o seu amigo recebe é um discurso produzido pela escrita ou por mim? Creio que todas as pessoas responderão que fui eu, e não a escrita, que escreveu a carta ao meu amigo. Imagine que, em vez da carta, utilizo o telefone. Será que é o telefone que fala com o meu amigo? Imagine agora que estou assistindo a uma entrevista televisiva. Será que o discurso a que estou assistindo é produzido pela televisão ou pelos participantes na entrevista?

Posso aceitar que se possa falar de discurso da mídia, mas temos que saber em que sentido utilizamos a preposição “de”. Se esta preposição tiver um sentido idêntico ao que tem, por exemplo, nas expressões “mesa de madeira” ou “casa de tijolo”, posso até aceitar a expressão discurso da mídia. A mesa não foi evidentemente produzida pela madeira, mas pelo carpinteiro, nem a casa pelo tijolo, mas pelos trabalhadores.

Adriana Braga: Muitas pesquisas empreendem seus esforços teórico-metodológicos na interpretação e análise dos programas e peças produzidas e veiculadas pelas empresas jornalísticas, os chamados “conteúdos das mídias”. Como a perspectiva etnometodológica do discurso lida com estes materiais?
Rodrigues: A perspectiva etnometodológica não faz propriamente análise de conteúdo, uma vez que, para esta perspectiva, os discursos não são propriamente recipientes que guardam ou recebem conteúdos, mas comportamentos ou atividades que os seres humanos adotam nas diferentes situações de interação que estabelecem uns com os outros.

Tenho dificuldade em entender em que consiste o conteúdo de um comportamento ou de uma atividade. Qual é o conteúdo, por exemplo, de uma caminhada, de fazer o almoço, de descansar, de arranjar o meu jardim, de dar um aperto de mãos?

Quando algumas análises do discurso dizem que fazem análise de conteúdo, partem de uma ideia completamente distorcida do que é o discurso. Entendem que têm diante de si um recipiente em que alguém colocou um conteúdo, e pensam que são eles que vão destapar esse recipiente para descobrir o conteúdo que foi colocado dentro desse recipiente. Veja só a presunção de se pensar que se vai descobrir o que as próprias pessoas envolvidas no próprio processo discursivo não foram capazes de ver.

O discurso não é num recipiente. É a atividade que os seres humanos desencadeiam e em que se envolvem sempre que se encontram em situações de interação e com a qual produzem o seu mundo comum.

Arquivo do Portal  O que os analistas do discurso têm diante de si são materialidades (sonoras, gestuais, gráficas, visuais), produzidas por pessoas utilizando dispositivos a que damos o nome de dispositivos midiáticos, e que levam os seus interactantes, aqueles que os observam, a desencadear processos interpretativos. Aconselho a ler com atenção as obras de George Mead ou de Alfred Schutz, autores que viram muito claramente o discurso como atividade, e não como recipiente. Quem analisa em primeira mão os discursos não são os analistas do discurso; são os próprios interactantes que estão neles envolvidos.

A perspectiva etnometodológica procura observar, registrar e entender esta atividade desencadeada pelos interactantes da atividade discursiva, assim como dar conta da sua própria análise daquilo que dizem uns aos outros. O entendimento etnometodológico do discurso procura entender não os conteúdos, mas a atividade de interação que desencadeia os processos discursivos.

No seminário do dia 2 de junho, procurarei mostrar, a partir da observação de materiais retirados de entrevistas televisivas, a riqueza extraordinária destes processos de interação discursiva que a etnometodologia procura registrar e entender.

Adriana Braga: No Brasil, estamos vivendo um momento de questionamento e reformulações das diretrizes curriculares para o curso de jornalismo. Além disso, a exigência de diploma para o exercício profissional do jornalismo foi revogada. Em Portugal, o diploma nunca foi uma exigência para a prática jornalística. Como o senhor avalia esta questão em termos da formação profissional e da qualidade do produto jornalístico?
Adriano Rodrigues: Na Europa, o exercício da atividade jornalística nunca esteve dependente da obtenção de um diploma específico. Há razões históricas e culturais específicas que explicam este fato. O aparecimento de cursos de comunicação nas universidades é relativamente recente, e teve mais a ver com o surgimento de um paradigma comunicacional nas ciências sociais do que com a preocupação de formar jornalistas. Os cursos universitários de comunicação em Portugal, como nos outros países europeus, não são por isso cursos profissionais. É verdade que nos anos 1980, com a criação de uma rede não universitária do ensino superior, a rede dos institutos politécnicos, apareceu uma vertente mais profissionalizante, mas mesmo os seus diplomas não condicionam o acesso à profissão na área do jornalismo.

Em Portugal, a carteira de jornalista é conferida por uma comissão do sindicato a qualquer cidadão, depois de ter realizado, durante seis meses, estágio profissional num órgão de comunicação social, independentemente da formação académica do candidato.

Os diplomados em comunicação estão sujeitos às mesmas condições de acesso à profissão a que estão sujeitos quaisquer outros candidatos. Apenas ficam dispensados do estágio se tiverem feito um estágio na área durante o curso. É claro que o diploma universitário lhes dá uma formação que tem sido muito útil para a entrada no jornalismo e, por isso, são cada vez mais os que ascendem a cargos de responsabilidade nas empresas. É frequente ver jornalistas também com formação jurídica, econômica, de relações internacionais, em letras, em medicina, em engenharia. Ainda há até alguns excelentes jornalistas que nem formação acadêmica possuem, embora cada vez menos.

* Professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio e doutora em Ciência da Comunicação.