O professor Augusto César da Silva assumiu pela primeira vez, nesta terça-feira, a direção do Departamento de Geografia da PUC-Rio, após os cinco anos de gestão da professora Regina Célia de Mattos. Doutor em Geografia pela UFRJ e com pós-doutorado em Geografia Política e Ensino de Ciências Sociais na Universidade Autônoma de Madri (UAM), o novo diretor terá de contemplar avanços associados, por exemplo, a ajustes curriculares necessários ao "dinamismo da ciência" e à interdisciplinaridade exigida pela melhor capacitação. "O geógrafo assume papel estratégico no estabelecimento das novas concepções sustentáveis", afirma o professor, em entrevista ao Portal.
Há 12 anos no departamento, onde coordenou a graduação e a pós, Augusto César revela-se especialmente otimista sobre a perspectiva do curso de doutorado, talvez já a partir do primeiro semestre do próximo ano. Orientador do grupo de estudos GeTERJ (Gestão Territorial no Estado do Rio de Janeiro) e integrante do conselho editorial da revista GeoPUC, ele também aposta na expansão da pesquisa na universidade, até como um instrumento de qualificação. Na cerimônia de posse, o reitor da PUC-Rio, padre Josafá de Siqueira — que também foi diretor daquele departamento — lembrou a importância do desenvolvimento da área:
— A Geografia está presente desde o nascimento da PUC. Nós temos que consolidar a licenciatura e nos tornamos referência no Rio de Janeiro e no Brasil.
Para cumprir tais desafios, Augusto César da Silva confia nos 10 anos em cargos de gestão. Serão importantes no caminho até o sonhado doutorado e outras ambições, apontadas nesta conversa:
Portal PUC-Rio Digital: Que mudanças estão previstas para a grade curricular atual, montada pelo senhor?
Augusto César da Silva: A graduação precisa, por lei, sofrer ajustes na grade curricular a cada cinco anos. Neste início de gestão, estamos encaminhando reuniões diárias com o objetivo de pensar pequenos ou grandes ajustes na grade curricular do departamento. A ciência é altamente dinâmica. Assim, precisamos de uma constante atualização das bases curriculares e das ementas das disciplinas para garantir a tradicional excelência na formação geral do geógrafo.
Portal: Qualificação e ampliação do corpo docente são pautas recorrentes em novas gestões. Quais são os seus objetivos neste sentido?
Augusto César: Esta é sempre uma questão fundamental nas discussões internas. Sempre há a necessidade de pensar para frente, pensar no futuro e aumentar o número de pessoas no quadro permanente. Até porque passamos por um processo de renovação do quadro. Isso é uma tendência de qualquer departamento e a PUC tem a tradição de manter o professor até se aposentar. Evidentemente, é preciso abrir espaço para quem está chegando, os alunos formados e os doutorandos que estão se tornando figuras constantes na área da produção acadêmica e da pesquisa.
Portal: Em relação à pós-graduação, quais são os planos?
Augusto César: Ainda não temos doutorado, mas provavelmente em breve teremos um programa. Isso obrigará o departamento a ter um quadro docente diferenciado. Primeiro, um quadro maior e, em segundo lugar, um quadro docente que seja ligado a pesquisa, docência, gestão interna e administração. Portanto, a iniciativa abre espaço, num futuro não muito distante, para novos quadros no departamento.
Portal: Há perspectiva de o curso de doutorado ser aberto já no próximo ano?
Augusto César: A partir de avaliações trienais, a Capes qualifica o mestrado das instituições. A nota para começar a se pensar em um programa de Doutorado é 4. O mestrado de Geografia da PUC sendo avaliado por apenas 2 anos já alcançou 4,10. Em 2012 se encerra nossa primeira avaliação completa e já pensamos no doutorado.
Portal: Como a interdisciplinaridade, que ganha peso crescente na qualificação, aplica-se à melhor formação do geógrafo?
Silva: A Geografia tem, como estudo fundamental, as dinâmicas sociais e ambientais que definem o que é a vida no planeta Terra. Contempla as organizações da sociedade, a política, a economia e a articulação de vários setores. Neste sentido, acreditamos que o bom geógrafo é aquele que sabe fazer a interface com ciências das áreas sociais, tecnológicas e biológicas. A realidade é bastante complexa, e o geógrafo precisa da compreensão das leituras espaciais e dessa realidade.
Portal: A revista GeoPUC está no terceiro ano. Qual a importância dela para o Departamento?
Silva: A GeoPUC é uma revista que emerge da produção dos grupos de pesquisa dos alunos da graduação e da pós. Tem um papel importante na divulgação da produção acadêmica do departamento. Não só do corpo discente, mas docente, e de outras instituições de ensino. Ela vem se consolidando pela regularidade, fundamental para o fortalecimento do programa. Com a aprovação do doutorado, a gente terá a possibilidade de torná-la uma agregadora de trabalhos.
Portal: O senhor acredita que as pesquisas na área tendam a se expandir?
Silva: A expectativa é muito interessante, porque a produção vem se ampliando numa velocidade significativa. Os grupos de pesquisas vêm se consolidando na base CNPq desde 2007, quando o mestrado começou, e também com participação em eventos científicos internacionais, por meio de publicações diversas e orientações de mestrado. Nossos grupos de pesquisas hoje são frequentados não só pelos alunos de graduação, o que é muito bom, mas também por mestrandos que se formaram aqui e em outras universidades.
Portal: Que competências, em especial, o geógrafo deve desenvolver para aproveitar as oportunidades associadas à sustentabilidade e ajudar a transformar os discursos em práticas comprometidas com o meio ambiente?
Silva: O geógrafo tem papel extremamente importante no estabelecimento de novas concepções em torno da sustentabilidade. Nós, sociedade, temos uma perspectiva aberta e plural no que tange à sustentabilidade. Mas nós, Departamento, acreditamos que a sustentabilidade é extremamente pontual, no sentido de ser localizada. Ela é do homem situado. Não é ligada à megaprojetos globais, mas sim à qualidade de vida de quem vive nos diferentes lugares, a partir de padrões históricos, tecnológicos, sociais e ambientais diferenciados. Esta perspectiva dá ao geógrafo a capacidade de ter um espaço extremamente complexo de análise ambiental do planeta. Possibilidade de pensar a sustentabilidade a partir de dimensões bastante diferentes, mas não desiguais.
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