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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

"Não há diferença de direitos entre gêneros no Islã"

Mauro Pimentel e Stéphanie Saramago - Do Portal

28/06/2011

 Karine Lino

Desde o ataque ao World Trade Center, em Nova York, dez anos atrás, a religião islâmica é alvo de discussões, reportagens e debates por todo o mundo. Apesar disso, grande parte da população ocidental, pouco conhece sobre a fé muçulmana. Segundo especialistas no Islã, convidados para o ciclo de palestras “Desmistificando os estereótipos acerca do Islã”, promovido pelo Centro Loyola de Fé e Cultura da PUC-Rio, nos dias 14 e 20 de junho, no Centro Cultural João XXIII, em Botafogo, a cobertura "superficial e preconceituosa" de grande parte da mídia internacional criou estereótipos que culpam o islamismo por atos terroristas, governos ditatoriais e limitações dos direitos femininos em países de maioria muçulmana.

 – Somos iguais perante Deus. No Islã, homem e mulher possuem os mesmos direitos desde o advento da religião – contou Jamila Hussein, advogada e membro do departamento feminino da Sociedade Beneficiente Islâmica do Rio de Janeiro (SBMRJ). 

 Mauro Pimentel Jamila faz duras críticas ao que ela chamou de "cobertura tendenciosa" das notícias que de alguma forma buscam repetidamente culpar a religião por crimes cometidos por seguidores do Islã.

 – Se no Brasil um homem de qualquer religião for preso por bater em sua esposa a manchete será "Homem é preso por bater em sua esposa", enquanto se essa mesma pessoa for muçulmana, a chamada será "Muçulmano é preso por bater em sua esposa". A todo momento a mídia busca culpar a religião por crimes cometidos por muçulmanos. Enquanto no primeiro sua crença religiosa sequer será citada na reportagem – contou Jamila

A religião tem no profeta Mohammed seu último mensageiro. Seu trabalho ajudou a propagar as palavras de Deus, escritas no livro sagrado muçulmano, o Alcorão, onde os direitos e o papel da mulher e do homem islâmico está descrito em todos os aspectos de sua existência, inclusive a vida após a morte.

Para Sami Armed Isbelle, diretor do departamento educacional da Sociedade Beneficiente Islâmica do Rio de Janeiro (SBMRJ), outro ponto que necessita de esclarecimento é a Jihad, erroneamente traduzida como guerra santa, termo comumente ligado as ações terroristas de grupos como a Al-Qaeda e os Talibans.

  Stéphanie Saramago – É lógico que alguns desses atentados são feitos por grupos de muçulmanos, mas em nenhum momento isso tem a ver com a religião. A Jihad, em nosso livro sagrado, significa empenho, esforço. Traduzir esse termo ligado a violência foge do seu real significado – contou Isbelle, que acrescenta o valor de uma universidade católica promover um debate sobre o Islã.

 – Estar num ambiente universitário e católico apresentando a religião muçulmana possui um grande valor para nossa comunidade. É uma forma de quebrar estes estereótipos sem intermediários.

Justificar a violência com base na religião não acomete apenas o Islã, segundo o professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio Paulo José Tapajós. Para ele o que está acontecendo, desde 2001, é que “a bola da vez” são os muçulmanos. Apesar do discurso pacifista presente no catolicismo, no judaísmo e no Islã, o teólogo da PUC acredita que o monoteísmo e a onipresente figura masculina do criador, elementos comuns em todas essas crenças, geram uma tendência ao radicalismo.

 – De alguma forma essa característica impulsiona que setores da religião adotem o radicalismo. Chega-se ao ponto de elaborar leis e códigos que vão contra os princípios da própria crença – conta Tapajós.

Essa é a situação de alguns países que apesar da população de maioria muçulmana ignoram a jurisprudência islâmica. Para a advogada Jamila Hussein o caso mais recente são os protestos de mulheres sauditas, nação onde 92% da população é muçulmana, pelo direito de dirigir seus próprios carros no país.

 – Um estado que impede o direito de ir e vir não pode se denominar uma nação muçulmana. Muito menos o que não permite que as pessoas se casem com quem elas escolherem para partilhar suas vidas. Por esse e outros exemplos que afirmo: não existe um estado islâmico. O que acontece é que cada governante, e cada cultura, utiliza os conceitos islâmicos misturados com leis seculares e antigos hábitos que em muitos casos batem de frente com os ensinamentos do Alcorão – contou Jamila.

Outro exemplo dessa mistura de leis, normas e códigos de conduta está no Paquistão, país onde 96% das população é adepta do Islã. A tradição local do casamento arranjado, acertado entre os pais do noivo e da noiva, se sobrepõe aos escritos sagrados que especificam que o matrimônio deve acontecer entre duas pessoas que se escolhem, sem nenhuma interferência, para viver suas vidas juntas.

 Stéphanie Saramago As imagens da Primavera Árabe mostraram homens, mulheres e crianças marchando lado a lado, em diferentes países. Na opinião da advogada e muçulmana Jamila Hussein, o islamismo é a força motriz desse levante popular.

 – Uma das formas para se manter um governo autoritário é limitar o conhecimento da população. Inclusive o religioso, ainda mais se a crença prega a igualdade entre todos. Essa estratégia perdeu eficácia com a Internet. A Primavera Árabe é o reflexo de um acesso maior aos ensinamentos o que faz a população questionar sua condição e cobrar melhorias dos governantes – disse Jamila.

O Islã é o culto religioso que mais cresce no mundo. Números do ARDA (Associação de Banco de Dados sobre Religiões), mantido pela Universidade do Estado da Pensilvânia, nos EUA, informa que cerca de 19% da população mundial está convertida ao islamismo. Em números absolutos são mais de 1,25 bilhões de pessoas. Para o professor Tapajós, grande parte dos convertidos, adotou o Islã devido a uma mistura entre religiosidade e política. 

 – As pessoas primeiro defendem a causa política, como a criação do estado Palestino, para depois pensar no que representa ser muçulmano. O crescimento do islamismo está muito mais ligado as richas políticas entre mundo árabe, judeus e o EUA. Se posicionar politicamente contra Israel e o EUA acaba implicando em conversões ao islamismo – conta Tapajós.