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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Comediantes defendem humor como "território livre"

Carina Bacelar - Do Portal

03/06/2011

 Luísa Nolasco

A explosão das comédias em pé, o crescimento de espaços humorísticos na TV e a multiplicação de gozações via redes sociais têm despertado reações proporcionalmente contrárias a certas gracinhas. Ancoradas no politicamente correto, indignações como as que condenaram o quadro com autistas na MTV renovam a discussão sobre fronteiras do humor. Com a febre do Twitter, polêmicas são geradas em até 140 caracteres. O comediante Danilo Gentili, do programa CQC, sentiu isso na pele ao comentar a desistência do governo paulista em construir uma estação de metrô no bairro nobre de Higienópolis. "Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz", escreveu, brincando (?) com o fato de a região concentrar uma grande comunidade judaica. Mas, mesmo diante de casos assim, é possível, ou faz sentido, estabelecer um limite para as piadas? A resposta, segundo humoristas e especialistas em dramaturgia, é não:

– O ideal é que o humor não tenha limites. Cada um diz o que quer e ouve quem quer. Se você está incomodado com algum tipo de piada, você não ouve – defende Nelito Fernandes, um das cabeças por trás do programa de humor Sensacionalista, do Multishow.

Para o escritor e jornalista, não deve haver nenhum tipo de regulamentação quando o assunto é humor. Os comediantes, diz ele, podem e devem fazer piadas sobre tudo, e cabe ao espectador decidir o que vai ouvir e do que vai gostar:

 – Ninguém é invadido nem tomado de assalto por um comediante no meio da rua. Você tem o poder de decidir o que pode ou não ouvir, assistir. Quem faz o controle é o espectador, o ouvinte, quem assiste à peça – argumenta.

Nelito ressalva que as leis, principalmente relacionadas à homofobia e à discriminação racial, não podem ser infringidas. Nesse sentido, os humoristas não teriam “passaporte diplomático” por estarem fazendo piada:

– O limite do ofensivo é só aquilo que, por lei, você não pode dizer. Existe uma lei que considera racismo crime, então se você fizer uma piada contra negros, por exemplo, você está infringindo a lei. Não é uma questão moral. Está na lei. 

Recentemente, o site Sensacionalista, do qual Nelito faz parte, foi repreendido por advogados da cantora Maria Betânia. Pediam que fosse retorada do ar uma postagem satirizando a concessão da lei de incentivo do Ministério da Cultura ao blog da artista.

– Não teve bom humor – lamenta o roteirista.

Outra prática que o incomoda são as queixas comunitárias, em que minorias se manifestam por associações para contestar alguma piada:

 – Hoje todo mundo tem associação. Ótimo! Entrem, discutam, reclamem, façam piada, riam! Agora, quando acontece com os outros, é engraçado, mas quando é conosco, não. É assim desde que o mundo é mundo – opina.

Nascido no território da web, o comediante Antônio Tabet, criador do site Kibeloko e também roteirista de Rede Globo, considera importante a ampliação do debate sobre os limites do humor. Para ele, a atitude crítica em relação ao que deve ou não ser objeto de piada sinaliza “um avanço da sociedade”. Mas afirma que o humor deva ser recebido de forma “mais benevolente”:

– Existe um certo avanço da sociedade em filtrar esse tipo de conteúdo. Por outro lado, falta ao público em geral e á pessoas que condenam esse tipo de humor um pouco de cultura para entender que trata-se apenas de humor.

Na opinião de Tabet, muito do preconceito que acaba pautando o "politicamente incorret"o parte de quem condena o humor como um "estopim de segregação social":

– Os problemas do Brasil não são originados pelo humor. Os Trapalhões, por exemplo, jamais poderiam ir ao ar hoje porque faziam piadas supostamente sexistas, racistas. Mas muitas das pessoas que defendem o politicamente correto cresceram vendo aquele tipo de humor, e ninguém virou um fascista por conta disso – pondera.

Empresas trocam críticas por apoio estratético à sátira, vista como forma de divulgação

Numa época em que a internet ainda era novidade, Tabet só recebeu notificações judiciais pedindo a retirada de piadas referentes a empresas. Hoje, ele conta que essas empresas até pedem para ser satirizadas, como uma forma de divulgação.

Já em relação a reclamações de leitores, Tabet recorda que houve apenas casos isolados – nunca de associações ou minorias. Em um deles, um portador de necessidades especiais se manifestou depois de o Kibeloco ter postado uma peça de humor negro sobre um nadados paraolímpicos sem pernas nem braços.

– Quando o alvo do humor é próximo da gente, as coisas tendem a ficar mais sensíveis. Você faz uma piada sobre o terremoto do Japão e todo mundo acha graça. Se você faz a mesma piada sobre a tragédia em Teresópolis, você vira um pária – observa.

Para ele, o estereótipo do brasileiro como um povo descontraído e brincalhão esconde um moralismo de nossa sociedade. E por trás dessa característica, na visão de tabet, está um “preconceito velado”.

– Quem costuma reclamar é quem tem mais preconceito Se você comparar o entendimento do humor aqui e em outros países, estamos muito atrás. Aqui seria impossível fazer humor com determinados temas – acredita o humorista. Ele diz que falta discernimento do brasileiro para entender certas abordagens.

Para o comediante, o humor não só anestesia, mas informa – às vezes, até de forma mais eficaz do que os trilhos convencionais. Tabet acredita que a aceitação ou não da sátira depende também da  abordagem. O humor pode, assim, entrar em qualquer território, desde que seja "elaborado". Foi o caso de uma piada sobre a morte de Bin Laden feita nos Estados Unidos. A peça original dizia “Obama, o primeiro negro a ter que provar que matou alguém”. Ao replicá-la no Brasil, Tabet tomou o cuidado de colocar no enunciado “Obama, o primeiro negro americano...”

– Você conta a mesma piada, mas cria um afastamento. Não é mais uma coisa aqui do Brasil, é uma coisa lá dos Estados Unidos. As pessoas pensam: “Os americanos são fogo, né!” – explica.

Nelito também toma esse tipo de cuidado. O roteirista se permite restrições a certos temas. Não faz piadas com crianças, por exemplo. Alega que elas não têm maturidade para entender alguns conteúdos. Confessa que também não tem feito muitas piadas de gay, mas o motivo é menos ideológico que pragmático: Nelito acredita que estejam perdendo a graça. A nova “moda”, na visão dele, são as piadas de “anti-gay”, que criticam opiniões homofóbicas.

– Como eu quero ser visto, quero ser ouvido, procuro me adequar a esse tipo de coisa.  Mas não acho que os outros não devam fazer. Se você quer ficar contando piada de judeu, de negro, de gay, de gordo, ok, faça. Saiba que as pessoas vão te criticar. Às vezes vai ficar aquela coisa polêmica, você vai ganhar um programa de televisão, estar na mídia. Mas aí você não quer ser humorista, quer ser polemista. É outra coisa – compara.

Se hoje os humoristas criticam o excesso do politicamente correto, em outros tempos a tolerância com a irreverência alheia era maior. Especialista em comunicação e teatro da PUC-Rio, a professora Vera Novello lembra que os esquetes humorísticos atuais nasceram do teatro de revista: espetáculo com cenas curtas e inserções musicais, que abordava fatos de repercussão cotidiana e as personalidades neles envolvidas:

– O teatro de revista foi muito popular. Para você ter uma ideia, o próprio Getúlio Vargas, por exemplo, que várias vezes foi criticado na revista, simpatizava. Quando a pessoa vestia muito a carapuça, aí sim podia vir alguma reação. Mesmo na revista, acredito que houve momentos em que alguém fez isso. Mas, em geral, era um teatro muito bem assimilado. Era a maneira de personalidades se sentirem homenageadas pela paródia – lembra Vera.

Na opinião da professora, “o humor pode entrar em todos os territórios”:

– O humor é uma postura distanciada. O caricaturista consegue ver de longe, polir o olhar. A comédia é o que te permite uma certa leveza pra resolver situações. É uma forma de viver. Eu posso viver dentro do problema ou eu posso me afastar dele, rir do problema – avalia.

Na TV desde os anos 70, o comediante Agildo Ribeiro credita o aumento das polêmicas em torno de piadas politicamente incorretas ao próprio crescimento do espaço do humor, antes restrito às radios e ao teatro de revista. Hoje, segundo ele, a multiplicidade de programas do gênero resulta em uma quantidade maior de piadas, e na variedade delas. Vão, segundo Agildo, desde as mais pesadas às mais inocentes. Ele conta que nunca recebeu críticas de espectadores em relação às sua sátiras:

– Sei dissernir o que é engraçado e o que de mau gosto. As pessoas que me encontram na rua pedem para eu repetir minhas piadas – afirma.

Para o Agildo, não há assunto onde o humor não possa entrar:

– Quem faz piada quer descontrair, alegrar. Qualquer forma de humor está valendo. Quem reclama das piadas é que tem mau gosto – opina ele.