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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Mercosul vai sobreviver, garantem analistas

Maria Eduarda Parahyba - Do Portal

14/03/2008

A crise que envolveu Colômbia, Equador e Venezuela reacendeu a dúvida sobre o futuro do Mercado Comum do Sul. Embora alguns considerem o abalo das relações diplomáticas um tiro de misericórdia no alinhamento econômico, outros confiam na sobrevivência de relações comerciais integradas e resistentes a bombardeios verbais. O economista Luiz Roberto Cunha, decano do Centro de Ciências Sociais (CCS) da PUC-Rio, é categórico: "O Mercosul não vai acabar".

Embora reconheça as dificuldades econômicas do bloco, ele acredita que o processo de agregação vai prosseguir - ainda que em ritmo lento. A integração econômica, justifica Cunha, é necessária para dinamizar as relações comerciais.

O arranhão diplomático deflagrado com a invasão do terrítório equatoriano por soldados colombianos mostrou-se superficial, analisam especialistas. Nada além de granadas retóricas, incapazes de ameaçar interesses econômicos e de atingir os outros países do bloco. Marcelo de Paiva Abreu, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, afirma que o desentendimento político entre Colômbia, Equador e Venezuela não afetaria Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Para ele, a dinâmica entre esses países independe do desdobramento do conflito. Paiva sugere, no entanto, um tom mais eloqüente da diplomacia brasileira com a Venezuela de Hugo Chávez:

- O Brasil tem interesses comerciais com a Venezuela que poderiam ser afetados com uma crise. Do ponto de vista político, o alinhamento com Chávez tem um custo alto. Do ponto de vista econômico, também não é muito claro que a expansão das exportações brasileiras para a Venezuela dependa de uma relação simpática com a Venezuela. O Itamaraty parece disposto a agüentar desaforos de Chávez.

Paiva Abreu considera o presidente venezuelano um midiático, um performático, um "mussoliniano" (referência ao ditador italiano Benito Mussolini),  "precisa de uma provocação por semana’ para apaziguar a crise doméstica". Avaliação semelhante faz a diretora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, Monica Herz, que culpou a "conduta irresponsável" do presidente venezuelano pela amplificação do conflito. Ela identifica uma relação direta entre a forma como Hugo Chávez administra as relações internacionais da Venezuela e a situação política doméstica.

- Se o presidente Hugo Chávez perceber que está numa situação de crise interna, ele tende a gerar mais conflitos externos. 

 

Entenda a crise

No dia 29 de fevereiro, a Força Militar colombiana bombardeou um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em território equatoriano, e matou Raul Reyes, o segundo comandante na hierarquia do grupo guerrilheiro. O presidente do Equador, Rafael Correa, mandou o Exército para a fronteira, rompeu relações diplomáticas com o governo colombiano e exigiu um pedido oficial de desculpas. Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, ao pedir desculpas pela violação da soberania equatoriana, fez acusações aos governos do Equador e Venezuela sobre envolvimento com as Farc.

Alguns documentos encontrados no local do bombardeio provariam que esses governos financiavam o movimento revolucionário. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, apoiou Correa e também rompeu as relações com a Colômbia. Era o mais favorável a um conflito armado. Em reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), os governos não chegaram, no princípio, a um acordo. O Equador queria a condenação da Colômbia, um pedido de desculpas claro e a retratação pelas acusações feitas. Álvaro Uribe pediu desculpas, mas continuou acusando Correa e Chávez de patrocinarem a guerrilha. O clima permaneceu tenso até a sexta-feira passada, quando os presidentes envolvidos selaram a paz com um aperto de mão, na XX Cúpula do Grupo do Rio, em Santo Domingo, na República Dominicana. O conflito limitou-se à guerra de palavras.