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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

O diálogo espiritual de Xavier Beauvois com John Ford

Igor Andrade - Do Portal

03/06/2011

 Divulgação

Em 1966, John Ford dirigiu aquele que viria a ser seu último filme, 7 Women – Sete Mulheres, fechando sua obra com a mais melancólica e pessimista de suas realizações. O filme trata de seis mulheres e um homem, que vivem em um pequeno vilarejo cristão na China, um refúgio nos arredores. A relativa paz reinante no ambiente é perturbada por dois acontecimentos, a chegada da sétima mulher, médica, atéia, moderna e vivamente sexual e, de forma mais drástica, de um grupo de conhecidos bárbaros, que havia tempo aterroriza a região.

Nesse contexto, as mulheres precisam decidir entre abandonar o povoado e aqueles que ali convivem ou permanecerem, enfrentando a situação, o medo da morte e da violação sexual e a própria estabilidade da fé ou a falta desta. A chegada dos bárbaros traz à tona aquilo que cada um dos oitos membros do monastério, incluindo a médica (o anti-herói fordiano), esconde de si mesmo, renega de si mesmo, teme em si mesmo.

A lembrança de John Ford retorna ao se assistir Homens e Deuses, filme dirigido pelo francês Xavier Beauvois, vencedor do Prêmio Ecumênico e indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2010. Estão ali presentes as oito figuras, isoladas em uma outra cultura, em um pequeno vilarejo distante, do qual são a base de sustentação espiritual. O tempo no vilarejo, assim como em Sete Mulheres, é outro, um tempo divino, o tempo do templo, da oração, da fé. Com a chegada de conhecido grupo de terroristas fundamentalistas, os oito monges precisam tomar a decisão: ficar ou partir. Na medida em que deliberam e oram, seus anseios, seus medos, suas dúvidas, vêm à tona. Suas fragilidades são expostas e a fé de cada um dos indivíduos precisa ser reformulada, reforçada, até a decisão de ficar e encarar a morte – decisão esta tomada à mesa, enquanto se compartilha a comida, a mesma mesa tanta vezes compartilhada na obra fordiana, na renovação do ato de partilha que o próprio Cristo viveu ao longo de seus anos de pregação, junto aos seus.

Tanto em Homens e Deuses quanto em Sete Mulheres, o destino dos cristãos será o sacrifício, o martírio, a sustentação da fé. Ainda que no filme de Ford as mulheres do convento partam, elas partem renovadas, com uma nova fé, ainda que aterradora. A morte da carne não mais é um obstáculo e o medo da morte não mais é um modo de dominação, a partir do momento em que esta morte significa libertação, seja como ato de desprendimento rumo ao encontro da divindade, seja, como em Sete Mulheres, no caso da morte da médica, o único ato possível frente ao horror do mundo contemporâneo. 

Beauvois opta por longos planos de câmera estática, planos reflexivos, de oração. O tempo do plano é o tempo de duração das canções entoadas pelos monges a cada dificuldade, pedido de auxílio e fonte de renovação espiritual. O espaço é suprimido, é o monastério, à semelhança do filme de Ford. A ameaça vem de fora e traz à tona os perigos escondidos “de dentro”.

Em Ford, porém, a relação entre as mulheres e os guerreiros de Tunga Khan em momento algum é pacífica ou afável, como no caso da relação entre Christian e o primeiro extremista que tenta invadir o monastério, na noite de Natal. Em Sete Mulheres a única relação entre as mulheres e os guerreiros se dá pelo sexo forçado e, ainda assim, a relação sexual é entre a mulher de fora e o guerreiro, também de fora. Esta talvez seja a maior das relações entre os dois universos do filme: ambos, a doutora Cartwright e o bárbaro Tunga Khan são seres vindos de fora, que não-pertencem, apesar da vocação de líderes, que os leva à morte. Se, em Homens e Deuses, há ainda sinal de respeito entre os dois pólos opostos (monges – extremistas islâmicos), no filme de Ford esta troca não se dá entre as mulheres da missão e os bárbaros mongóis (mas sim entre as mulheres da missão e a mulher do mundo, o que não deixa de ser um processo de humanização; experiência que estabelece igualdade e respeito). 

Este não-pertencimento também é sentido em Homens e Deuses. Os monges estão longe de casa, de suas famílias, em missão num país em conflito. A beleza e a feiúra estão em constante atrito nas paisagens do filme: em uma cena, Christian e seus companheiros apreciam as belas paisagens da Argélia, em panorâmicas lentas, contemplativas; em outro momento, a câmera na mão revela assassinatos brutais de uma guerra sem fim e sentido.

A vocação à liderança em Homens e Deuses é motivo de vergonha ou um alerta, afinal, na comunidade dos monges não deve haver líder algum, apesar da força da figura de Christian. Assim como em Ford, a coragem, ou a determinação em seguir os caminhos de Cristo (após a cena de reconhecimento-glorificação-aceitação da morte, aquela cena à mesa na qual um a um nos são revelados, em profunda comoção, ao som de Tchaikovsky – em Sete Mulheres a trilha é de Leonard Bernstein), levam o líder, Christian, e seu grupo à morte.

No Rio, Homens e Deuses ainda pode ser visto nas seguintes salas:

Estação Sesc Botafogo
Rua Voluntários da Pátria, 88, Botafogo
Sala 2 - 21:40

Estação Sesc Laura Alvim
Av. Vieira Souto, 176, Ipanema
Sala 3 - 15:30 | 19:40