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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

"Não devemos temer a mudança"

Daniel Cavalcanti - Do Portal

26/05/2011

Luísa Nolasco

Em discurso proferido ontem (25/05), no Westminster Hall, em Londres, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama foi contra a tese de que os países que compõem o grupo denominado Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e, agora, África do Sul – seriam as novas lideranças mundias.

– Há quem diga que essas nações são o futuro e nós [os Estados Unidos e a Grã Bretanha], o passado, mas isso está errado. O tempo para nossa liderança é agora – afirmou Obama.

Na PUC-Rio, o tema foi debatido no I Seminário Internacional do Brics Policy Center, realizado entre 16 e 20 de maio e que ganhou o título de "Os Brics e a reforma da governança econômica global". Promovido pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e pelo Insituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio, o seminário contou com a participação de pesquisadores brasileiros, indianos, chineses, russos e sul-africanos, que discutiram o atual papel político e econômico da parceria e o futuro da estrutura política internacional. 

Em entrevista ao Portal, um dos convidados, o pesquisador indiano Mohan Guruswamy, diretor do Centre Policy Alternatives, analisou os objetivos da parceria entre os países que compõem os Brics, pregou a necessidade de se articular politicamente na atual estrutura de governança global e criticou a falta de um projeto nesse sentido. Ao contrário do presidente americano, o pesquisador acredita que o tempo das velhas potências já passou. Segundo ele, uma mudança de poder deve ocorrer nos próximos anos e os Brics assumirão a liderança da governança global.

Portal PUC-Rio Digital: Qual a contribuição que os Brics podem dar para a estrutura contemporânea internacional?

Mohan Guruswamy: No mundo, temos países que controlam a economia mundial, o G7, os que estão no sistema político mundial – o G5 e os Estados Unidos – e os países emergentes, como a Índia e o Brasil. Há os que querem ingressar nessa estrutura política mundial e não são bem-vindos – pois não tem nada em comum com os países ricos. O Brasil, no caso, tem uma renda mediana, com uma indústria mediana e muitos recursos naturais. A Índia e a China são, literalmente, países pobres com uma população grande e muito potencial. A Rússia tem muito espaço e pouca gente para ocupá-lo – até 2050 os russos devem ter um déficit populacional de 20 milhões. Então, não existe um denominador comum entre essas nações. A Índia e o Brasil são democracias, a Rússia é mais-ou-menos uma democracia, mas a China não, é um Estado autoritário. São países muito diferentes, mas uma coisa os une: eles representam as quatro próximas grandes economias. Veja bem, em 2020 a ordem das maiores economias vai mudar: a China e o Brasil estarão entre as primeiras cinco ou seis. Esses países se uniram para demandar uma mudança no sistema político mundial. O nome Brics, de fato, é uma sigla criada por um economista da Goldman Sachs, Jim O’Neill, que disse que os investidores deveriam colocar o dinheiro nesses mercados, pois estão em crescimento. Agora decidimos fazer outra coisa. Os Brics inovam no âmbito da política global, para garantir o direito desses países de expressão política internacional.

Portal: Quais os principais problemas dessa união?

MG: Não há muitos problemas. China e Índia têm uma relação um pouco tensa, por conta de limites geográficos. O Brasil está bem longe dos outros. Rússia, China e Índia estão bem próximas e, por isso, têm outros tipos de problema, que vêm da relação de vizinhança. É como o Brasil e a Argentina, são rivais pois são vizinhos. Se a Argentina fosse na América do Norte, não haveria problemas entre os dois, pois não haveria uma competição entre eles.

Portal: O nacionalismo é um componente forte em todos esses países emergentes ou pelo menos em três deles - Brasil, China e Rússia. A emergência de nações onde há forte predominância da ideologia nacionalista não pode trazer problemas para o futuro do sistema político internacional?

MG: Haverá problemas. Mas, de certa forma, eu vejo como positiva a expansão econômica da China e da Índia, que é tremenda. O peso da economia mundial está se mudando para a Ásia. Mas a Ásia não é representada de fato, exceto a China. A Ásia não é representada no G7, fora o Japão. A escolha do G5 e do G7 foi feita por países ocidentais. São as potências de ontem e não são mais relevantes.

Portal: China e Índia são consideradas, historicamente, rivais na Ásia. Como essa parceria pode transformar esse contexto?

MG: É difícil. A China e a Rússia fazem parte do G5 e não querem uma expansão desse bloco. Isso é algo que o Brasil e a Índia querem. Já o G20 é muito grande, então esse é o nosso dilema. A Índia e a China têm conflitos: nós temos, agora, tropas nos dois lados de nossas fronteiras, se encarando. Essa parceria é necessária, mas se todos se tornarem membros do G7 ou do G5, haverá necessidade dos Brics? É uma pergunta que devemos fazer a nós mesmos. Devemos pensar, por exemplo, na África do Sul. Ela não se qualifica para nenhum desses blocos.

 Luísa Nolasco Portal: Por causa dessa falta de qualificação, o senhor acha que ela não deveria fazer parte dessa parceria?

MG: Os Brics devem se reunir e determinar uma agenda política. Do mesmo jeito que o G5 e as Nações Unidas. O Paraguai é próximo ao Brasil. Ele é mais de cem vezes menor em território e população. Quantas cadeiras na ONU o Paraguai tem? Uma. Quantas o Brasil tem? Uma. Está claro que o Brasil não é bem representado. Nós não estamos discutindo esse tipo de reforma e nós temos que discutir isso.

Portal: Que componentes novos os BRICS podem trazer para a prática da política internacional, marcada por guerras e conflitos violentos entre nações?

MG: Uma das coisas que os Brics podem fazer é insistir que as Nações Unidas sejam reformadas. Para começar, na diretoria: por que um brasileiro não pode ser diretor? Por que o diretor precisa ser da França, por exemplo? Isso é algo que os Brics devem questionar. Devemos também determinar um exército permanente das Nações Unidas. Pense no que aconteceu na Líbia, a Otan foi até lá, assim como no Kosovo. Os Brics podem ser a base desse tipo de ação.

Portal: Que outras nações poderiam fazer parte da parceria? Há interesse de expansão da aliança?

MG: Não há muitos países com tamanho e momentum para entrar nessa parceria. Mas, certamente, quando reformas nas Nações Unidas ocorrerem, teremos que colocar países da África, países islâmicos e outros povos no bloco. Todas as culturas deveriam ter representantes.

 Luísa Nolasco Portal: O jogo de alianças não é algo antigo e perigoso da política internacional? As guerras mundiais não nos ensinaram isso?

MG: Sim, mas estamos em outro contexto. Na Primeira Guerra, os países lutavam por colônias. Hoje, não é preciso controlar um país para exportar seus produtos. A superioridade tecnológica e competitiva lhe dá a dianteira no mercado. Você não compra produtos brasileiros porque o Brasil manda, mas por que é mais barato e melhor.

Portal: Mas os Brics não são uma representação de um desejo de controle da governância global? Não seria apenas uma expressão da velha política de poder?

MG: Você tem que mudar o sistema poítico global. Não podemos deixar tudo nas mãos da Europa Ocidental e da América do Norte.

Portal: Isso não é perigoso?

MG: Por quê? As velhas potências têm criado problemas e se metido em confrontos o tempo todo. Quem mandou as velhas potências irem ao Iraque? Quem mandou irem para a Iugoslávia? Quem os mandou à Líbia? Não devemos ter medo da mudança. Não devemos ter medo da democratização do mundo, do globo como um todo. Não quer dizer que poderemos agir como bem entendermos. O Brasil não tem o direito de aumentar suas tarifas de importação além de um certo limite. Isso acontece pois entregamos, voluntariamente, nossa soberania para sermos cidadãos do mundo. Quando isso acontece, você tem que ser mais e mais democrático. Nós já temos democracias dentro dos países, agora precisamos de uma democracia entre eles.

 Luísa Nolasco Portal: Nações emergentes não deveriam ou poderiam trazer algo realmente novo para a política internacional contemporânea?

MG: Acho que os Brics são um início. Esse é um processo que pode levar 15, 20 anos, mas já temos um começo. E nós devemos declarar nossas intenções. O problema é que os Brics não têm uma agenda política ainda. A parceria se tornou um clube do cafezinho. Ficamos sentados, batendo papo, quando deveríamos estar discutindo essas intenções.