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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Especialistas ressaltam o valor da pornochanchada

Stéphanie Saramago - Do Portal

20/05/2011

 Divulgação

A Caixa Cultural promove até o dia 22 de maio a mostra “20x Pornochanchada”. Com a exibição de 33 cartazes e 20 filmes da época, a mostra aborda o gênero cinematográfico tipicamente nacional que marcou os anos 1960 e 1970 no Brasil com uma mistura de chanchada e erotismo. A pornochanchada levou milhões de espectadores às salas de exibição, mas hoje, segundo especialistas, está excluída das discussões sobre o cinema brasileiro.

Segundo o documentarista e curador Alfeu França, “20x Pornochanchada” partiu da ideia de que a história do cinema não pode ser compreendida apenas através de referências consideradas positivas:

– Talvez seja hora de nos despirmos de antigos preconceitos e realizar uma revisão crítica desses filmes – afirmou o curador.

Professor de cinema do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Hernani Heffner ressaltou que a versão carioca da pornochanchada foi caracterizada pela crônica dos costumes urbanos. Para o professor, o gênero foi percebido com o sucesso de filmes como “Os Paqueras (1969)” de Reginaldo Farias, e “Adultério à brasileira (1969)”, produzido por Pedro Carlos Rovai.

– A pornochanchada foi responsável pelo conhecimento de um novo modo de vida, marcado pela liberalização dos costumes e da sexualidade – disse Heffner.

Stéphanie SaramagoSegundo Heffner, a pornochanchada atendia à dinâmica de um mercado em decadência e com perfil agora eminentemente popular, de classes C, D e E. Nos filmes, pornografia e erotismo estão separados por uma linha tênue. No entanto, para Heffner, a diferença está mais presente no trato cultural do que conceitual:

– Considera-se erotismo algo de mais bom gosto e pornografia algo mais grosseiro, direto, explícito. Mas os termos não passam no fundo de eufemismos e o grau de abordagem não eliminará o tema central: libido e sexo – pontuou o professor.

Na década de 1970, quando o gênero fazia sucesso, o governo militar comandava o Brasil. Também professor de cinema do Departamento de comunicação Social da PUC-Rio, Pedro Camargo lembra que a pornochanchada não foi muito censurada pela ditadura militar:

– A censura atuava nos cartazes, partes íntimas eram escondidas, a censura não agiu tanto em filmes do gênero – disse Camargo.

Para França, curador do evento, os filmes da pornochanchada que não extrapolavam o conteúdo sexual eram encarados pelos militares como diversão de massa:

– A baixa censura associada a uma latente curiosidade erótica do cidadão brasileiro de então, pode ter sido a mistura para o estrondoso sucesso do gênero – disse Alceu França.

 Mauro Pimentel Segundo Camargo, a queda da ditadura militar e o avanço tecnológico resultaram na decadência do gênero.

– Com o fim da censura e invenção do VHS, o erotismo do gênero perdeu espaço para a pornografia – afirmou o professor.

Dois pólos de produção foram os principais responsáveis pelas produções da pornochanchada, um em São Paulo, a Boca do Lixo, e outro o chamado Beco da Fome, no centro do Rio de Janeiro.

Para o professor Heffner, o gênero constituiu uma referência pública para um tema considerado até então tabu absoluto. Segundo ele, está aí a importância do gênero para o país:

– A pornochanchada demonstrou a possibilidade de um altíssimo desempenho no mercado a partir de um uso criativo das tradições eróticas brasileiras – afirmou o professor.

O curador da mostra concorda. Para Alceu França, não se trata apenas de analisar o valor do gênero dentro do cinema nacional. Os filmes atraíam milhões para dentro das salas de exibição.

– Os filmes do gênero deveriam ser vistos como um rico registro do comportamento e dos valores do cidadão brasileiro da época – afirmou França.