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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Relatório mostra decadência do jornalismo impresso americano

Isabela Sued e Gabriel Picanço - Do Portal

16/05/2011

Mauro Pimentel

O principal relatório anual sobre a mídia de notícias nos Estados Unidos, divulgado em março deste ano, apresenta números que consolidam a situação de crise que vivem as redações dos jornais impressos americanos. A 8ª edição do "State of News Media" ("Estado da Mídia de Notícias"), divulgada pelo Pew Research’s Center Project for Excellence in Journalism (PEJ), mostra o encolhimento tanto das tiragens quanto do número de profissionais que atuam nesse mercado específico.

Segundo o texto, as redações dos jornais impressos americanos diminuíram, em média, 30% em relação ao que eram no ano 2000. Além disso, as tiragens, no espaço de um ano, foram reduzidas em 10,6%. “Na contagem final, a estimativa é que mais ou menos 1500 empregos deixarão de existir até o fim do ano”, afirma o relatório assinado pelo diretor do projeto, Tom Rosenstiel, e pela vice-diretora, Amy Mitchell.

De acordo com a pesquisa, pela primeira vez nos Estados Unidos, a internet superou os jornais impressos e a televisão, tanto na audiência quanto em arrecadação publicitária. Os americanos recorrem cada vez mais ao mundo virtual em busca de informação. Segundo Tom Rosenstiel, em entrevista ao Portal, “a migração para a Web está se acelerando”.

 – Isso está acontecendo porque as pessoas estão se acostumando a usar a tecnologia digital, já que o uso da internet sem fio é muito mais conveniente e a tecnologia geralmente dá mais controle ao consumidor – lembrou o jornalista.

Apesar do crescimento, o modelo de negócios de jornalismo na internet ainda enfrenta dúvidas e dificuldades. Para Rosenstiel, a produção jornalística, em geral, vive hoje uma crise de financiamento.

 Reprodução/Internet – O público de notícias está crescendo, mas a estrutura financeira que sustenta o jornalismo está entrando em colapso porque, no momento, a publicidade online não é suficiente para financiar a produção das notícias e não há uma estrutura ou um sistema que cobre pelo conteúdo – afirmou.

Em uma tentativa de solucionar o problema, o portal do jornal The New York Times, o site de notícias mais acessado do mundo, começou a cobrar no fim do mês de março pelo seu conteúdo. No entanto, os primeiros números mostram que a experiência não foi bem sucedida. A queda no acesso foi de 24,4% em relação ao mês anterior. Já o aplicativo para iPad da News Corp, o The Daily, fez a companhia perder US$10 milhões no primeiro semestre deste ano.

No Brasil, as pesquisas mostram uma situação ainda inversa à dos Estados Unidos. Dados da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) mostram que, em 2001, o Brasil tinha cerca de 1980 jornais. Em 2009, 3.466. Desses, 1126 estão em São Paulo, 572, em Minas Gerais, e 271, no Rio de Janeiro. Da mesma forma, segundo o Ministério do Trabalho, havia, em 2004, 11.198 jornalistas atuando em veículos impressos de notícias. Em 2009, esse número era de 18.720.

Para Rosenstiel, a situação da mídia tradicional é pior nos países desenvolvidos.

– Em países onde a população é menos conectada, as taxas de alfabetização ainda não alcançam 100% e há mais espaço para desenvolvimento econômico, a produção do jornal impresso é maior – afirmou. – Mas com o tempo, conforme o público migra para a web, os mesmos problemas vão ser encontrados nas outras indústrias da mídia do mundo inteiro.

 Mauro PimentelO coordenador do curso de Jornalismo da PUC-Rio, professor Leonel Aguiar, ressalta que a população no Brasil passou a ter acesso a bens de consumo culturais, tanto os jornais sensacionalistas e os jornais populares de qualidade, fora os jornais de referência, da grande imprensa.

– Houve um crescimento na tiragem dos jornais em termos gerais. Isso se dá graças à melhoria econômica, principalmente nos países como Brasil, África do Sul, Índia, China, Rússia e Indonésia – disse o professor Aguiar.

Segundo ele, o desempenho de iniciativas como a do New York Times e a do aplicativo The Daily comprovam a resistência à cobrança pelo acesso de notícias via internet:

– Esse modelo de negócio de cobrar na internet ainda é uma incógnita, uma experiência que está sendo feita – afirmou.

Para o jornalista e professor Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa, o jornalismo, como negócio rentável, ainda precisa achar uma forma de sobreviver na internet. Segundo ele, antes, o formato físico permitia que as notícias fossem vendidas e, junto com a publicidade, gerassem a arrecadação dos jornais:

– Na época do jornal impresso, a informação não era o mais importante para a rentabilidade, mas sim o veículo. Agora, na internet, o veículo se tornou quase de custo zero. Por isso que a informação ficou grátis. Para um jornal, a produção de informação passou a ser uma coisa que quase dá prejuízo. Porque ele não pode cobrar, quando chega no computador já está de graça – disse Castilho.

 Divulgação/InternetAlém da questão da sobrevivência, a internet coloca outro desafio para a produção jornalística: o controle sobre o conteúdo. "Pode ser que no reino digital a indústria de notícias não esteja mais no controle de seu próprio futuro”, afirma o relatório "State of News Media" de 2011. Segundo os autores, a migração para a internet obriga os jornais a dependerem de outras empresas para a circulação do que produzem, como de gigantes do software e do hardware, fabricantes de aparelhos celulares e tablets, agregadores de notícia (como o Google) e redes sociais (como o Facebook) que compartilham conteúdo e atraem a maior parte dos leitores. Tudo isso acrescenta “uma nova camada de complexidade e um novo conjunto de jogadores na conexão desse conteúdo com os consumidores e anunciantes”, revela o estudo.

– As empresas tinham o controle total, desde a hora que recebiam a bobina do papel até a hora de colocar na banca de jornal. No caso da internet, passam a ser apenas um elo da cadeia. É o caso da Apple com a News Corp. Na hora em que os jornais quiserem disponibilizar o seu conteúdo no iPad, eles têm que ficar subordinados às regras do iPad – destacou Castilho.

Se, no caso do jornalismo impresso, a tendência é de redução das tiragens e diminuição das redações, a migração, mesmo que problemática, para a internet é irreversível? Para Tom Rosenstiel, a resposta vai depender inteiramente da possibilidade de se encontrar uma maneira de rentabilizar a produção das notícias online.

– Se a receita online for para aqueles que agregam ou que detêm a posse dos dispositivos, em vez de ir para aqueles que produzem conteúdo, então as consequências do ponto de vista cívico serão substanciais – afirmou. – O potencial do jornalismo online é enorme, superior ao do papel. Mas se você não consegue gerar receitas, esse potencial não vale tanto assim.