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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

"É preciso reforçar a função social do jornalismo"

Gabriel Picanço - Do Portal

09/05/2011

Mauro Pimentel

Lançado no último mês de abril, o livro Jornalismo e exclusão social: Análise comparativa nas coberturas sobre crianças e adolescentes, do Jornalista Vinicius Neder, conclui: trata-se de um tema desvalorizado pelo jornalismo brasileiro. Na obra, resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida na PUC-Rio, Neder apresenta números que mostram que, nos últimos anos, houve um aumento do espaço dado ao assunto, mas, segundo ele, a qualidade das matérias está abaixo da média. Os dados foram tirados dos relatórios da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), instituição que faz o levantamento e o estudo de todas as matérias com os temas da infância e da juventude veiculadas na mídia brasileira. De um lado, estão reportagens especiais aclamadas com o Prêmio Esso, de outro, matérias cotidianas que, de acordo com Neder, não atendem aos critérios mínimos de qualidade jornalística, usam termos pejorativos e ouvem um baixíssimo número de fontes.

Em entrevista ao Portal, Neder falou sobre a evolução da cobertura de exclusão social no Brasil e a sua importância para a promoção da democracia. No próximo dia 19 de maio, Neder participará da palestra “O Jornalismo e a cobertura de temas sociais", no campus da PUC-Rio. O encontro será na sala 102K, às 11h. Também estarão presentes o jornalista Eduardo Auler, chefe de reportagem da editoria Cidade do jornal Extra e ganhador do Prêmio Esso em 2006 pela série de reportagens sobre evasão escolar, e o professor Leonel Aguiar, coordenador do curso de jornalismo da PUC-Rio e orientador de mestrado de Vinicius Neder.

Portal PUC-Rio Digital: Faz sentido ainda se falar sobre a função social do jornalismo?

 Stéphanie Saramago Vinicius Neder: Sim, faz sentido falar em função social. É preciso refletir sobre uma série de pontos que impedem, dificultam ou recolocam essa função social, mas isso não quer dizer que ela não exista mais. Abro o meu livro falando que o jornalismo está em um momento de crise, que impacta o modelo de negócios das empresas jornalísticas. Mas isso não quer dizer que se coloca em cheque a função social do jornalismo. Eu coloco como pressuposto na minha pesquisa que o aprofundamento do estado democrático de direito é a melhor forma de conseguir ampliar e garantir o acesso do maior número de pessoas às condições mínimas de bem estar. Tendo isso como pressuposto, a liberdade de expressão é um ponto fundamental da democracia e do estado democrático de direito, e o jornalismo é uma ferramenta fundamental para a liberdade de expressão. Não quer dizer que seja a única, mas talvez seja a de maior impacto e abrangência.

Portal: E como funciona isso na prática?

V.N.: Na prática, há uma série de nuances e senões que impedem o jornalismo de exercer plenamente esse seu papel, como a questão da propriedade dos meios; a própria cultura jornalística, sobretudo no Brasil, baseada na autocensura; a formação do jornalista, que não é a melhor possível; a falta de pluralidade. Eu defendo que precisamos aprofundar o estado democrático de direito, logo, precisamos aprofundar a capacidade do jornalista de exercer essa função. Nesse momento de mudança de modelo, é preciso reforçar a função social do jornalismo.

Portal: De onde veio a preocupação de abordar o tema de sua pesquisa?

V.N.: Vem de uma preocupação minha com a questão social. Sobretudo porque quando eu estava terminando a minha graduação, entre 2002 e 2003, trabalhei em uma organização não governamental que lida com reinserção familiar de crianças e adolescentes em situação de risco. Outro motivo pelo qual eu escolhi esse campo da criança e do adolescente é que já no meu trabalho na ONG eu tinha tomado conhecimento da Andi e depois eu pude aprofundar ainda mais. Eles têm muito material de monitoramento de mídia sobre essa questão. Então eu escolhi esse tema por conta da quantidade de material que eu tinha disponível para pesquisar.

Portal: Quando você trabalhou em redação, chegou a trabalhar em matéria desse tipo?

V.N.: Curiosamente, por motivos diversos a minha carreira se estendeu por outro tema. Eu desenvolvi minha carreira sobretudo em economia. Depois eu passei dois anos trabalhando com política científica e política educacional. Então, diretamente com essas pautas de cunho mais social, não trabalhei durante muito tempo. Não tive uma prática mais diária, o que é uma casualidade, acho.

Portal: A quantidade de erros e exemplos de falta de precisão em informação nas matérias sobre crianças e adolescentes é maior que o normal, nas outras áreas? Quais são os exemplos mais comuns e os mais graves?

V.N.: Eu estava preocupado em verificar o quanto os jornalistas que trabalham cobrindo esse tema estavam seguindo parâmetros básicos do trabalho técnico jornalístico. Fiz essa avaliação observando principalmente dois pontos, que são o uso de termos pejorativos e a quantidade de fontes citadas por matéria, e realmente, quando a gente olha para a cobertura cotidiana, do dia a dia, relacionada à criança e ao adolescente, são índices que não são bons. As matérias sobre esses temas em geral ouvem menos fontes. A Andi tem uma análise disso. É uma média que fica entre 1,1 e 1,3 fonte por inserção ou texto, o que é um índice, a meu ver, muito baixo. Está abaixo de dois, enquanto é fundamental você ter pelo menos duas fontes para ouvir o outro lado da história, ter o contraditório. E a outra questão é esse uso dos termos pejorativos, sobretudo nas matérias relacionadas à violência. No caso especifico para fazer essa comparação empírica eu usei como exemplo só o termo pejorativo "menor", mas há outros, evidentemente. Isso é uma coisa que segue ocorrendo, muito menos hoje, mas segue ocorrendo. Além disso, você tem pouca citação a pesquisas, má citação de dados e o uso impreciso de nomenclaturas, inclusive jurídicas. É uma coisa muito evidente, que desde que foi instituído o Estatuto de Criança e do Adolescente, o Juizado de Menores passou a ser chamado de Juizado da Infância e da Juventude. Escrever em um texto jornalístico um nome que não está mais vigente, uma nomenclatura que não existe mais, é uma imprecisão em termos de informação, é como chamar um órgão do governo por outro nome.

Portal: A origem desse problema está relacionada com o modo pelo qual o jornalismo se desenvolveu no Brasil ou com as características sociais do país?

V.N.: É uma via de mão dupla, um ciclo. A cultura jornalística alimenta a sociedade como um todo e vice e versa. Ela não existe em Marte, existe no Brasil. Então é claro que a falta de atenção que se dá a essas temáticas no jornal reflete a falta de atenção da sociedade como um todo. Inclusive, é algo que chamo atenção em meu livro.

Portal: Então não é uma coisa desenvolvida pelo jornalismo?

V.N.: O jornalismo ajuda a difundir essa agenda, mas é uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que ajuda, é ajudado.

Portal: A função social do jornalismo não o obriga a estar um passo à frente nesse sentido?

Stéphanie Saramago V.N.: Talvez fosse importante que ele estivesse. Mas é difícil estabelecer quem deve estar à frente. Nesse caso específico, acho que essa agenda se impôs na cultura jornalística porque ela ganhou relevância na sociedade. Quando falo na função social da imprensa, implica sim em ela estar mais à frente nessa questão. Mas é importante notar que não é só estar à frente, porque a grande conclusão, até mesmo da Andi, é que se houve um aumento de abrangência, a qualidade não melhorou tanto assim. Na verdade, o aprofundamento dessa função social tem que se dar também com uma qualificação da cobertura, não só com a inclusão do tema na agenda. A abrangência é grande, agora o assunto tem que ser qualificado, passar por um processo de aumento na pluralidade das idéias.

Portal: Como o senhor vê o tema em relação às universidades, à formação dos jornalistas?

V.N.: A minha impressão é que essas temáticas são menos debatidas, mas seria leviano afirmar isso porque, na verdade, a gente teria que fazer outra pesquisa, ou pelo menos um levantamento sobre o que se tem pesquisado. A universidade, me parece, está mais à frente, mais preocupada em pesquisar a questão social do que a sociedade como um todo e, por conseguinte, está mais preocupada do que a mídia com isso. Especificamente nos meus estudos, não vi muitas pesquisas sobre a prática das coberturas sobre exclusão social. Mas também não há muita coisa sobre a prática jornalística em si. Há mais sobre os efeitos do jornalismo e do discurso jornalístico na sociedade.

Portal: A sua pesquisa não mostra qualquer avanço no tratamento do tema?

V.N.: Os estudos da Andi apontam avanço na qualidade sim, mas é muito lento. Uma das formas de ver isso, na minha pesquisa, é observando as reportagens especiais que analisei. São reportagens de 1997 a 2007. As reportagens de 2007, 2006 estão em um nível de qualidade acima das de 1997.

Portal: Qual é a importância de se ouvir as fontes como conselhos tutelares e conselhos de direitos, pais de crianças e adolescentes nas matérias? Por que essas fontes são deixadas de lado?

V.N.: São duas questões. Primeiro porque um dos males da prática jornalística no Brasil é o oficialismo. O jornalismo é muito dependente das informações oficiais, do governo e da justiça. Mas isso não é uma especificidade do jornalismo brasileiro. Na mídia americana isso também acontece. Isso está relacionado com o próprio poder do governo. Aqui no Brasil, o governo, sobretudo o federal, tem uma máquina tanto de comunicação quanto de dinheiro muito forte. Outro problema talvez seja por conta de esse ser um tema considerado marginal, que não é nobre nas redações. É como se na cobertura de temas ligados à exclusão social, a gente não precisasse rebater as informações oficiais com informações de outros campos, como a sociedade civil, os movimentos sociais.

Portal: Qual é a solução para esse problema? O tema social pode ganhar mais importância na mídia brasileira?

V.N.: A melhor forma de se conseguir isso continua sendo tentar mudar o sistema por dentro. É preciso que os jornalistas atentem para isso, que se preocupem em qualificar as coberturas e que haja uma melhoria geral da formação e da qualidade dos jornalistas que trabalham na grande imprensa. Agora, isso não é uma questão trivial. Você tem uma série de nuances que dificultam isso. Como o fato de se ter, sobretudo aqui no Brasil, uma proximidade entre os patrões, os donos das empresas jornalísticas e as redações, de se ter pouca tradição de independência mesmo dos patrões da empresas em relação a governos. O Mino Carta, que hoje é diretor da revista Carta Capital, chama a atenção para o fato de que no Brasil é muito comum os chefes em redação de revistas, jornais, de órgão de imprensa em geral, pensarem com a cabeça do patrão. E isso talvez ocorra muito cedo nas redações no Brasil, no que diz respeito ao nível hierárquico. O primeiro subeditor já pensa com a cabeça do patrão. E isso é algo que dificulta a mudança por dentro. A outra coisa é o poderia econômico. No final das contas é a empresa que paga o salário, tem o poder de demitir, então ela exerce essa força de coerção em cima do jornalista individualmente. O jornalista para fazer essa mudança tem que estar disposto a participar de uma disputa política. Mesmo com as dificuldades, no cenário atual este é o melhor caminho. O jornalista individualmente, através de uma melhora na qualificação e na formação, participar mais ativamente da disputa política por qualificar tecnicamente a cobertura e os temas inseridos no jornal.