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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

"Espero ter achado um modo de informar e promover o debate"

Mauro Pimentel - Do Portal

06/05/2011

Adam Elder/Scottish Parliament

Os eleitores foram às urnas na última quinta-feira, 05/05, nas eleições parlamentares escocesas com uma ajuda a mais para decidir. Durante a campanha, tiveram à disposição um site que reúne informações sobre o posicionamento dos cinco partidos nacionais nos mais diferentes temas, como educação, saúde, meio ambiente etc. O CompareTheParties é uma iniciativa do jornalista canadense Tristan Stewart-Robertson, que mora há nove anos na Escócia.

Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o criador do site falou sobre as possibilidades que a internet oferece de informar os eleitores e aprimorar as democracias.

Portal PUC-Rio Digital: O que o levou a tomar esta iniciativa?

Tristan Stewart-Robertson: A ideia surgiu com sites de comparação de produtos, muito populareas no Reino Unido. Essas empresas tentam ajudar os consumidores a navegar pela incrível quantidade de informações da Internet. Pensei que poderia haver um lugar para a comparação política. Há tanta informação – declarações, tweets, comunicados de imprensa, debates, análises etc. – na política que a sobrecarga pode prejudicar a democracia e afastar as pessoas. Agrupar as informações em um lugar só pode ajudar.

Portal: Como o CompareTheParties contribuiu para o processo eleitoral escocês?

TSR: Muitos eleitores vão dizer: "Por que eu deveria me preocupar? Todos os políticos são iguais". Particularmente, nas eleições escocesas, o posicionamento dos partidos em questões importantes como o ensino universitário e impostos locais são praticamente iguais. Colocar as informações em um só lugar ajuda os eleitores a comparar mais de perto a abordagem dos partidos sobre os temas nos quais as posições diferem e como os posicionamentos mudam com o tempo.

Portal: Qual foi a reação de políticos e da população escocesa ao site?

TSR: Infelizmente, acredito que a reação foi pequena. É difícil mensurar se as pessoas estão se educando ou apenas mais propensas a votar em consequência do site [na Escócia, o voto é facultativo]. A página registra cerca de 100 visitas diárias. Nas últimas semanas de abril, quando a campanha eleitoral se aproximava do fim, os acessos aumentaram. É uma contribuição saudável, mas é "branda", pois não reflete uma determinada posição política. Estar no meio de um debate, apresentando todos os lados da questão, não é vendável hoje em dia. Eu não sei que forma o meu site vai tomar após a eleição. Espero ter achado um modo de informar e promover o debate, ter atingido os cidadãos interessados na política escocesa.

 Divulgação Portal: Como você vê o potencial da internet para a promoção da cidadania e da democracia?

TSR: Acho que há duas direções diferentes para a internet e a democracia. A primeira é o que está acontecendo no Ocidente, particularmente na América do Norte e Europa Ocidental. A apatia e o desinteresse político dos cidadãos é tão grande que o número de eleitores está em torno de 50% até, no máximo, 60%. Numa eleição em Glasgow [Escócia], em 2007, esse número chegou aos 33%. Quase todas as pessoas que seguem o CompareTheParties no Twitter são políticos ou membros da mídia. O público não está realmente engajado. O projeto é relativamente novo. É possível que não seja conhecido o suficiente. Por outro lado, olhe para as revoluções no Oriente Médio e até mesmo a atividade política em nações em desenvolvimento. Nesses lugares as taxas de alfabetização e acesso à internet cresceram, o que eleva o interesse na política. Esse conhecimento alimenta o desejo de liberdade. Países em desenvolvimento têm mais sobre o que lutar e debater. A pobreza é maior, a corrupção profunda e as posições políticas, dos partidos, são contrastantes. Isso alimenta as multidões nas ruas. A internet permite que todos expressem suas opiniões e possam reagir aos problemas.

Portal: Por que são tão raras iniciativas civis que apresentem propostas de candidatos e partidos?

TSR: O dinheiro é a maior barreira para desafiar e confrontar políticos e candidatos. Custa dinheiro investigar, acompanhar e confrontar a hipocrisia e a corrupção. Esse é um problema que impossibilita projetos políticos e jornalísticos: como pagar as contas com algo que busca beneficiar a sociedade? A não ser que o projeto tenha um apoio financeiro que possibilite expandir o serviço ele não atingirá um grande público.

Portal: Como fica o jornalismo nesse novo contexto?

TSR: Isso nunca descartará a presença do jornalismo, mas quem faz as perguntas também precisa ser questionado. Quando temos o máximo de informações e somos honestos, estamos abertos a novas perguntas. A sociedade civil pode debater verdadeiramente e mediar soluções para as comunidades locais, regiões ou países. Acredito firmemente que há respostas a serem dadas sobre grandes questões e que o debate entre pessoas de diferentes áreas pode encontrar pontos em comum. Cada vez que isso não acontece no Ocidente ou nos países desenvolvidos, é devido a política que vigora de que não dialoga com seus opositores. Além disso, partidos políticos e candidatos podem usar a internet para controlar sua mensagem, sem depender de jornais, rádio ou televisão. Da mesma forma, podem utilizar a rede para falar diretamente, sem a mediação do jornalismo, aos eleitores e cidadãos. 

 Arte: Mauro Pimentel Portal: E como o senhor analisa esse contato direto entre candidatos e eleitores? 

TSR: É uma coisa boa. É preciso existir comunicação entre políticos e eleitores. Mas não se pode deixar de lado o questionamento e monitoramento por jornalistas, por organizações civis e pelos próprios eleitores, individualmente. O poder das novas mídias é a possibilidade de que todos possam questionar afirmações e o desempenho dos políticos. No Canadá, por exemplo, uma página criada por comediantes, o shitharperdid.com, recebe milhões de visitantes. O site acompanha e questiona as decisões do primeiro-ministro canadense Stephen Harper. É uma combinação de humor e oposição unificada, onde a oposição real, dos partidos políticos, está dividida.