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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Morte de Bin Laden vira capital político para Obama

Carina Bacelar, Carolina Bastos, Edson Ribeiro, Gabriela Caesar, Igor de Carvalho - Do Portal

02/05/2011

Pete Souza/White House

O anúncio em tom estadista feito pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, da execução do terrorista Osama Bin Laden, procurado havia mais de 10 anos, foi aplaudido de pé pela sociedade americana. Por trás da cortina de comemoração, o mundo começa a medir as implicações efetivas da morte de um dos principais, senão o principal emblema do terrorismo internacional, autor dos atentados ao World Trade Center naquele inesquecível 11 de setembro. Em alerta, autoridades americanas e alguns de seus tradicionais parceiros internacionais reforçam a segurança à espera de retaliações. Embora possa ser visto como um "avanço rumo à paz", analistas ressalvam que o fato é insuficiente para consolidar novas perspectivas contra o terrorismo. Para os especialistas em história e relações internacionais da PUC-Rio, a maior vitória não foi dos Estados Unidos propriamente dito ou da "luta contra o terror", mas de um homem: o presidente Barack Obama. A eliminação do saudita torna-se um trunfo político, para reencontrar parte da popularidade perdida ao longo do mandato e recuperar o cacife rumo à disputa da reeleição, em 2012.

Na avaliação do professor de história Murilo Meihy, os indicadores de popularidade de Obama logo subirão. Principalmente entre os setores mais conservadores da sociedade americana, artífices da derrota do partido do presidente nas eleições passadas do Legislativo.

– Agora, uma das alternativas do Partido Republicano é tentar se vincular a um combate histórico contra a Al Qaeda, atribuir suas políticas anteriores a esse "sucesso" – projeta Meihy.

Cláudio Cunca, professor de relações internacionais da PUC-Rio, acredita que a execução de Osama resgata a figura dos EUA como “guardião do mundo ocidental”:

– Num momento em que o mundo ocidental tenta fechar suas fronteiras [cita o caso da União Europeia em relação à Tunísia], os Estados Unidos recuperam esse "título". Para Obama, a derrota de um alvo simbólico como Osama é uma grande vitória.

Cunca pondera, no entanto, que uma boa parcela do eleitorado do predidente americano deu a Obama créditos por não incorporar o paroxismo “anti-terrorista” do antecessor, George W. Bush:

 – Esse tipo de nacionalismo é o mesmo do Tea Party, o que não beneficiaria tanto Obama. Ele era considerado, inclusive, “estrangeiro” por esses setores sociais.

O especialista observa que "não seria novidade" uma provável onda nacionalista decorrente do "sucesso" da operação que executou Osama Bin Laden. Para Cunca, mesmo em tempos de recuperação econômica, a sociedade americana manifesta seu nacionalismo, sua marca registrada, de outras formas:

 – É claro que haverá um entusiasmo ligado ao desejo de vingança de uma geração ferida pelos atentados – afirma, lembrando que só por duas vezes na história, em Pearl Harbor e no World Trade Center, o cidadão americano viu a “guerra chegar a seu território” – O que também deve ocorrer é uma disputa entre as agências de inteligência (CIA, Interpol, FBI) pelos méritos da operação militar no Paquistão.

Quanto ao efeitos da morte de Bin Laden para o combate ao terrorismo, Cunca e Meihy qualificam a execução do número um da Al Qaeda como uma “vitória pontual”:

– A ação dos EUA funcionou como as operações no Morro do Alemão, no Rio. As pessoas gostam, mas é um fato simbólico – compara o professor de relações internacionais – Em relação ao poder de fogo da Al Qaeda, é até significativo, mas todo lugar tem um bolsão terrorista. Acredito que o terrorismo sofre hoje mais abalos por conta da maior eficiência dos órgãos de inteligência.

Meihy reforça que a execução comemorada por cidadãos americanos como o fim do terrorismo tem uma dimensão menos pragmática do que simbólica: 

– Osama já era uma figura mais emblemática que atuante dentro da Al Qaeda. O número dois, Ayman al-Zawahri, deve assumir a liderança do grupo. Ele já era o autor das principais ações e quem comandava as forças militares.

Na visão do historiador, as insurreições contra governos ditatoriais no Oriente Médio vêm enfraquecendo o crescimento de grupos fundamentalistas na região. Mostram que é possível derrubar governos impopulares sem apelar para argumentos religiosos.

– O que os Estados Unidos podem fazer é usar esse fato como moeda de troca com grupos radicais, como no Talibã – pondera Meihy. Ele afirma que "a hora é de segurança redobrada" por parte dos Estados Unidos e seus aliados:

– Eles [integrantes da Al Qaeda] sempre respondem com uma ação emblemática, que deve acontecer nos próximos meses.

Segundo Cláudio Cunca, provavelmente haverá represálias em nome de Bin Laden. Mas não partirão, necessariamente, do grupo terrorista ao qual ele fazia parte:

– As ações da Al Qaeda vão se concentrar no Oriente. Dificilmente haverá algo no Ocidente, a menos que estivesse já previsto antes. Nesse caso, a ação seria antecipada. Ataques a aeroportos e metrôs, por exemplo, devem ficar na conta de grupos pequenos.

Para os especialistas, grandes impactos econômicos não são esperados. Meihy avalia que o preço do petróleo não deve subir por conta da execução.

– A euforia da bolsa americana vai ser passageira – projeta Meihy.

– Hoje as bolsas sobem. Isso é normal  – avalia Cláudio Cunca.

O professor Arthur Bernardes, do Departamento de Relações Internacionais da PUC, aposta na segurança como uma das prioridades do governo americano no momento:

– Temos um cenário de extrema preocupação e insegurança nos Estados Unidos e na Europa. Embora Osama Bin Laden tenha morrido, a Al Qaeda não morre com ele.

Bernardes compreende a reação de euforia da sociedade americana diante do que "factualmente, é um assassinato". Para ele, o fato guarda um "aspecto antiético":

– É uma manifestação eticamente problematizada, pois está se comemorando um assassinato. Mas é compreensivo para o contexto norte-americano e europeu, as principais vítimas de atentados. Seria mais legítimo se Bin Laden fosse julgado no tribunal.

Mais dez anos de perseguição ao "inimigo público número 1"

O ataque ao World Trade Center, em Nova York, e outros atentados nos Estados Unidos naquele fatídico 11 de setembro de 2001 produziram consequências mais profundas do que a morte de cerca de 3 mil pessoas. Marcaram o início de um novo capítulo da história americana – sobretudo em relação à "guerra ao terror" – e mundial. Considerado o mentor da investida, o líder da rede terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, passaria a ser o inimigo público número um dos Estados Unidos. 

Manobradas por interesses políticos, econômicos e eleitorais, a resposta "à altura" da Casa Branca e persegição a Bin Laden ganharam a retórica de caçada mundial. A “guerra ao terror”, invocada pelo presidente George W. Bush, pavimentaria os enfrentamentos no Afeganistão e no Iraque do ex-aliado Saddam Hussein. O ditador iraquiano foi preso e morto. Bin Laden continuaria livre, a despeito dos cercos militares como os na montanha de Tora Bora, no Afeganistão. A guerra do Iraque, como qualquer guerra, impôs faturas expressivas. Desde os mais de 100 mil mortos, entre militares e civis, até as contas políticas e econômicas agravadas pela crise cujas sequelas seguiriam atormentando a Casa Branca já sob o comando de Obama. 

Dez anos após o 11 de Setembro, Osama Bin Laden acabou morto longe dos locais considerados mais prováveis para abrigar o "terrorista número 1". Refugiava-se numa casa-fortaleza, na cidade de Abbotabad, próximo a Islamabad, capital paquistanesa, até ser "surpreendido" por uma operação do Exército americano no fim da noite deste domingo, 1° de maio.   

Merkel: "A paz conseguiu uma vitória, mas não significa que o terrorismo foi derrotado"

Cercada de simbolismo, a morte de Bin Laden logo ganhou destaque na comunidade internacional. Virou manchete nas agências de notícias, telejornais, sites de jornais impressos, redes sociais. Foi comentada com veemência pelos principais líderes mundiais. O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, disse que a morte de Bin Laden “trará grande alívio para pessoas em todo o mundo, saber que não será mais capaz de exercer sua campanha de terror global”. O premier italiano, Silvio Berlusconi, qualificou o fato como “um grande resultado na luta contra o terrorismo, um grande resultado para os Estados Unidos e para todas as democracias”. 

Na mesma linha, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, considerou “um triunfo retumbante para a justiça, a liberdade e os valores compartilhados por todas as nações democráticas que lutam com determinação contra o terrorismo". O presidente da França, Nicolas Sarkozy, cumprimentou a “tenacidade” dos Estados Unidos, “ele era promotor de uma ideologia do ódio e de uma organização terrorista que causou milhares de vítimas”. A chanceler alemã, Angela Merkel, reconheceu que "as forças de paz conseguiram uma vitória", mas alertou que “isto não significa que o terrorismo internacional foi derrotado. Devemos nos manter vigilantes”.

A imprensa internacional, especialmente a americana, repercutiu a morte de Osama Bin Laden como um grande êxito dos Estados Unidos. A manchete da versão online do The Washington Post, por exemplo, usou como manchete uma frase do ex-presidente George W. Bush: “Justice have been done” ("A justiça foi feita"). Já o principal jornal francês, Le Monde, levanta a dúvida: qual seria a próxima ameaça terrorista após a morte do líder da Al-Qaeda?  O inglês The Times destacou o pedido de Barack Obama pela morte do líder terrorista.

Recorde nas mídias sociais

A repercussão da morte de Osama Bin Laden se multiplicou também nas redes sociais. O precursor da notícia no Twitter foi um assessor em informática paquistanês Sohaib Athar. Ele postou no microblog comentários sobre o ataque e da morte dos supostos terroristas, mas ainda sem saber que se tratava de Bin Laden. A palavra “Osama” alcançou rapidamente o topo do Trending Topics (assuntos mais comentados no Twitter) mundo afora.

Os humoristas Oscar Filho e Rafael Cortez fizeram piadas. Oscar escreveu, “em nome da AlQaeda”:  “Vai ter volta!”. Cortez brincou com o Brasil: “Lá se foi o Bin Laden. Ele chegou a dizer que vinha fazer uma visita ao Brasil. Mas quando falou de pegar um avião, bateu aquele cagaço na gente!”. O apresentador Marcelo Tas “retwitou” publicações de outras pessoas que estavam em Nova York no momento da morte de Osama, destacando a presença de jovens em frente ao Ground Zero, onde ficava o World Trade Center.

No Facebook, mais de 100 páginas foram criadas com diversos títulos referentes à morte do terrorista. Entre elas, está “I Was Alive The Day Osama Bin Laden Died” (em português, “eu estava vivo no dia em que Osama Bin Laden morreu”), que já conseguiu mais de três mil cliques de “curti”. A página é ilustrada pela montagem da estátua da liberdade segurando a cabeça decepada de Osama Bin Laden. Centenas de “eventos” foram criados no Facebook, mais de dez relativos ao funeral do terrorista.