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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Conto de fadas moderno põe o consumo no trono

Carina Bacelar, Carolina Bastos e Gabriela Caesar - Do Portal

29/04/2011

 Divulgação/internet

O casamento do herdeiro do trono inglês, príncipe William, que tornará princesa sua namorada desde a faculdade, Kate Middleton, é um típico conto de fadas do século XXI. A cerimônia, em vez de reservada a um reino distante, estará bem próxima de cerca de 2 bilhões de pessoas, público que deve acompanhá-la ao redor de 40 países. De suvenires a pacotes turísticos, o “sim” dos noivos deve movimentar cerca de 1,6 bilhão de euros na economia britânica. A quantia, comparável ao de grandes eventos esportivos como as Olimpíadas, dimensiona como o fascínio em torno do mito da realeza – e em especial em torno de sua mais nova integrante – tornou-se um produto. E muito rentável. Vestidos, jóias, objetos de decoração, penteados, a febre “Kate-William” influencia os mercados de moda,  casamentos e da informação, observam especialistas e comerciantes desses setores.

Especialista em mídia e consumo contemporâneos, o professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio Everardo Rocha explica que o casamento, como uma peça publicitária, envolve uma série de mitos que despertam o desejo de consumo de várias maneiras:

– Todos os âmbitos de consumo estão presentes aí, tanto o de produtos quanto o de informações.  Esse casamento acaba celebrando tudo isso, e fazendo com que isso seja alçado à categoria de fato do momento.

A própria mídia, ao transformar a cerimônia em espetáculo, gera, de acordo com Everardo, um “ciclo de demandas crescentes” sobre as informações que veicula. O casamento é uma fonte de informações de grande interesse para muita gente. Afinal, todos querem saber todos os passos de Kate rumo ao altar.

– O príncipe, ao casar com uma plebeia, dá uma sensação que reproduz uma coisa dourada, uma história da Cinderela – resume Everardo.

Para o professor, independentemente de classes sociais, “todos vão acabar comprando algum tipo de produto relacionado à cerimônia”. Seja, por exemplo, uma réplica da aliança de Kate em um comércio popular ou um jornal que traz a cobertura do enlance:

– O fenômeno é tão global que acaba de alguma maneira atravessando tudo. Bate em todas as partes – explica.

Esse caráter “espetacular” do casamento já alçou principalmente Kate ao patamar de um ícone. Em especial,

A matemática do casamento real

30 mil libras (R$ 79 mil) é o preço do anel de noivado usado pela princesa.

R$ 0,75 é o preço de uma réplica do anel no comércio popular.

U$ 625 custa o vestido da grife Issa usado por Kate quando anunciou, ao lado de Willian, o noivado.

5000: número de policiais e militares que farão a segurança da cerimônia.

Cerca de 1,5 milhão pessoas devem acompanhar o casamento no centro de Londres.

2 bilhões de telespectadores e internautas devem acompanhar o casamento ao redor do mundo.

1,6 bilhões: é quanto o casamento deve movimentar na economia local.

350 mil: número de usuários do Facebook que confirmaram presença no evento brasileiro "Casamento do Príncipe Willian".

da moda. Sempre irretocável, mesmo depois de sair de uma festa, a princesa sabe ser elegante sem abrir mão do estilo urbano e moderno. Para a professora de Tendências da Moda do Departamento de Artes da PUC-Rio Aline Mon, essas características fazem dela uma inspiração para o figurino do inverno brasileiro:

– É bem possível que essa coleção inverno venha com a cara da Kate. Nosso inverno não é muito rigoroso, dá para usar os modelos de verão e de meia-estação europeus.

Aline acredita, no entanto, que a “Katemania” – a procura pelos artigos usados pela princesa – seja passageira. É o que, em tendências da moda, é chamado de “febre”. Como “sintomas”, a procura inclui desde o anel usado no anúncio do noivado, encontrados até em camelôs, até encomendas à estilista Daniella Helayel, que desenhou o vestido usado por Kate naquela ocasião.

– Para a moda, acho pouco provável que essa tendência seja abrangente. Ela vai ficar mais por conta de complementos e da decoração. As coisas que forem usadas e divulgadas no casamento ainda serão muito mencionadas. O que sofrerá influencia direta será o mercado de vestidos de noiva. A gente vai passar pelo menos um ou dois anos ouvindo falar desse vestido e vendo ele ser copiado – avalia a especialista.

Já a jornalista especializada em moda Iesa Rodrigues, colunista do Jornal do Brasil e professora do Senai Cetiq, a influência da cerimônia desta sexta-feira no universo da moda não será dos modelos usados pela noiva ou por convidadas ilustres. Para Iesa, o casamento real resgata o romantismo.

Ela lembra que o modelo usado pela princesa Diana em 1981 não foi muito copiados pelas brasileiras, que preferem modelos menos fartos e rodados. Mas os tecidos utilizados na confecção tornaram-se referências na época:

– Os tecidos mais delicados, o cetim, o tafetá e o tule, trouxeram de volta um romantismo para a cerimônia de casamento. Todo mundo considerava cafona casar. Parece que Diana despertou de novo aquela vontade de ter uma festa tradicional. É o que eu acho que vai acontecer com a Kate Midletton também – aposta.

Iesa define o estilo da noiva como despojado e moderno, quase americanizado. Para ela, Kate deve valorizar o cabelo comprido entre as britânicas, que geralmente preferem cortes mais curtos:

– Não acho que as roupas da Kate serão copiadas por aqui, até pela diferença do clima. Mas o cabelo e a maquiagem, acho que sim. Isso só reafirma o mérito do cabelo longo, que no fundo, são as brasileiras que influenciam.

Reflexo da influência sobre as consumidoras, especialmente as noivas, a febre provocada pela mais nova princesa já invadiu os shoppings cariocas. Na loja Alberta do Shopping Leblon, o vestido utilizado por Kate Middleton no anúncio do noivado, no fim do ano passado, é o modelo mais procurado entre os cabides. O vestido azul de malha jersey foi feito pela estilista brasileira Daniella Helayel, dona da marca Issa London, que tem parceria com a loja Alberta há quase seis anos. A vendedora Alexandra Senna explica que, antes da Kate usá-lo, o vestido já estava à venda, mas o sucesso maior veio depois:

Divulgação/internet – Temos o modelo em azul- marinho, como o de Kate, e em marrom. Já conseguimos vender mais de dez vestidos, e não temos muito mais do que isso no estoque.

Outro vendedor conta que, diante da grande procura, o preço do vestido aumentou: de R$ 1.900 para R$ 2.600. Para ele, o sucesso da marca está “ganhando status por conta do vestido da realeza, e estourando na mídia". Segundo o vendedor, a loja "faturou em cima de outras celebridades, como a apresentadora de televisão Angélica":

– Ela fez um editorial em uma revista de moda. Na mesma semana houve uma grande procura pelos looks.

Em outras lojas, como Espaço Fashion, Triton e Forum, os vendedores observam uma "busca constante" por visuais semelhantes aos usados por celebridades em grandes eventos. O sub-gerente da Forum Mario Razeira observa uma procura por tendências como o veludo, notado nas festas do Grammy e do Oscar. A gerente da Triton Cissa Castro aponta a "mídia" como o principal meio de influência na moda: “Elas veem nas novelas, no tapete vermelho, em celebridades de grande impacto, e pedem looks parecidos”.

Casal faz a cabeça dos consumidores

Salões de beleza não ficam de fora. A cabeleireira e maquiadora do Walter’s Coiffeur Debora Santos também considera as novelas brasileiras uma das principais fontes de inspiração de suas clientes. “Todo dia alguém vem aqui pedir o penteado ou maquiagem de alguma atriz”. Debora lembra que os penteados e maquiagens vistos no casamento de Juliana Paes, em 2008, estão entre os que mais influenciaram os pedidos no salão:

– Muitas noivas pedem o penteado da Juliana Paes ou da Adriane Galisteu (também no dia do seu casamento, em 2010). Mas os próprios convidados desses grandes eventos também são modelos para elas.

O cabeleireiro e maquiador Marcio Sanchez, da Ophicina do Cabelo, vê uma grande influência da realeza nos visuais exigidos pelas clientes:

– Muitas pessoas vêm aqui querendo a coloração ou o corte de cabelo igual à de Kate Middleton. E não é só isso: mesmo depois de 30 anos, ainda pedem o penteado igual ao da Princesa Diana usado em seu casamento.

Divulgação/internetPara quem está perto de se casar, é quase difícil não se inspirar na cerimônia do ano. A cerimonialista Emanuelle Missura, colunista da revista Noivas Rio, aposta que os chapéus, artigo fácil na cabeça dos nobres ingleses, deve se tornar mais comum em casamentos aqui no Brasil:

– Já fiz casamentos em que as mães dos noivos usavam chapéus. Acho que agora a idea vai ficar mais popular entre as convidadas.

Para ela, não só as roupas e acessórios, mas o próprio comportamento dos noivos William e Kate devem torná-los ícones. Talvez seja esta a principal diferença deles em relação às celebridades, que não se casam rodeadas por uma atmosfera de conto de fadas.

– O bacana é a seriedade que passam. William disse que pretendia inspirar o próprio casamento no do avô dele. Isso inspira as pessoas, que muitas vezes só se casam por moda, a revalorizarem o casamento por amor – acredita Emanuelle.

Como protagonistas de uma cerimônia de tão grandes proporções, Kate e William são presença constante nas redes sociais. Ainda na época do noivado, em novembro de 2010, novidades tecnológicas em relação à monarquia britânica surgiram. Depois da página da realeza no Facebook anunciando o casamento, criaram um canal no YouTube e aplicativos para iPad e Android para a transmissão. No Brasil, o evento criado pelos irmãos Leonardo e Marcelo Amâncio foi o mais bem sucedido, reunindo cerca de 350 mil para a cerimônia à brasileira.

– O churrasco é o símbolo de confraternização brasileira. Resolvemos aliar o espaço na mídia focado na festa inglesa e brincar com um churrasco do matrimônio dando um espaço "virtuoso" para que as pessoas se sentissem importantes participando – explica um dos criadores, Leonardo Amâncio.

A criatividade é farta na rede. Por exemplo, dois modelos da blusa em homenagem ao “Wedding Prince Barbecue Day” (Churrasco do dia do casamento do príncipe, na tradução para o português) estão à venda por R$ 29,90 na loja na internet KabeDiBodi.