Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


Cultura

"A literatura brasileira é praticamente invisível"

Daniel Cavalcanti - Do Portal

19/04/2011

Stéphanie Saramago

O escritor Cristovão Tezza, ganhador do prêmio Jabuti de 2010 com a obra O filho eterno, esteve na PUC no último dia 13 para promover o lançamento de seu livro mais recente: Um erro emocional. O novo romance trata de uma paixão entre um escritor e sua leitora e foi lançado pela editora Record. O convite veio da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio e é o primeiro de uma série de encontros chamados De lá para cátedra.

Durante a mesa redonda mediada pela professora Rosana Kohl Bines, do Departamento de Letras, o escritor falou sobre a formação de sua personalidade como escritor e seus medos e anseios da juventude na década de 1960, quando sua rebeldia o fez escrever histórias de cunho político. Além disso, comentou um dos seus primeiros trabalhos dos quais se orgulha: Sopa de Legumes, uma sátira que envolve amigos próximos como personagens.

– Nesse texto, estava exercitando meu olhar sobre o mundo, algo que eu não estava fazendo nos anteriores – revelou o autor.

Tezza aproveitou para ler um trecho do seu novo livro e esclareceu dúvidas sobre seu processo de escrita.

– Eu sou um escritor meio funcionário público. Escrevo de segunda à sexta-feira, toda a manhã, em geral entre 8h e 11h30. O meu segredo é escrever regularmente, mas não muito mais do que duas horas por dia, pois fica cansativo – respondeu, com bom humor, a pergunta do público.

O Portal conversou com o autor, que falou sobre o sucesso de O filho eterno e seu impacto – ou a falta dele – em sua nova obra. O autor lamentou que a produção literária brasileira não produza bestsellers e considera que nossa literatura no exterior é vista como exótica, sem visibilidade no mercado internacional.

 Stéphanie Saramago Portal PUC-Rio Digital: Depois dos prêmios por O filho eterno, o senhor sentiu a necessidade de se superar em Um erro emocional?

Cristovão Tezza: Isso não me afetou. Não estava preocupado com isso, embora eu tenha percebido que todos falavam insistentemente sobre a sombra de O filho eterno. Mas, realmente, se você for ler Um erro emocional, vai ver que ele tomou outro rumo, outra história. De certa forma, retomei uma linha literária que estava desenvolvendo em O fotógrafo, mas não foi nada que me traumatizasse. Até porque eu já tinha uma obra anterior bastante sólida, embora nunca [tivesse obtido] o sucesso de O filho eterno.

Portal: Existem diversos jovens escritores que estão em evidência no mundo editorial brasileiro, inclusive Eduardo Spohr, do blog Jovem Nerd. Você vê caminho para as novas gerações de escritores?

C.T: Eu acho que ampliou-se muito o número de leitores e a produção literária em função da internet. O tempo vai fazer um filtro, mas é altamente positivo ter essa quantidade grande de gente produzindo. Os blogs literários, hoje, aparecem em grande número. O tempo vai dizer o que significa esse texto, se serão verdadeiros autores que vão continuar o exercício, ou pelo menos uma fase do exercício [da escrita]. Mas, de qualquer forma, a literatura sai ganhando. Esse é um momento muito bom para a literatura brasileira, pela quantidade de gente produzindo trabalhos.

Portal: Como o senhor vê o espaço ocupado pela literatura brasileira hoje?

C.T: Sou da geração dos anos 1960 e de lá para cá houve uma mudança completa de perfil. A indústria do livro hoje, no Brasil, é muito poderosa. Houve, também, uma profissionalização dos autores e da produção literária, coisa que não existia. Você vê que a produção literária até os anos de 1960 e 70 era praticamente amadora. Ninguém ganhava direito autoral, era uma coisa muito primária no Brasil. Hoje você tem uma base de leitores imensa que está crescendo, como as classes C e D que estão entrando na escola e começando a circular. Daí você tem uma demanda de todos os gêneros, inclusive dos bestsellers.

 Stéphanie Saramago Portal: Mas os bestsellers não são em geral estrangeiros?

C.T: Sim, se você olhar a lista dos bestsellers, são todos de autores estrangeiros. O Brasil ainda não produz autores de bestsellers, isso não existe aqui. Nossa produção é, fundamentalmente, literária: trata-se de literatura séria. Mas eu sou otimista, pois você acaba aparelhando as próprias editoras a publicar literatura.

Portal: Existem autores, como a Clarice Lispector, que às vezes parecem fazer mais sucesso fora do Brasil do que dentro. Como é, para o senhor, a visão que os estrangeiros têm de nossa produção literária?

C.T: Para ser bem sincero, a literatura brasileira não existe no exterior. Ela é praticamente invisível. Você tem alguns nomes, como a Clarice, mas são nomes que aparecem lá fora em nichos de mercado, em geral ligado a universidades. Ainda somos uma literatura exótica, isolada e de pouca permeabilidade, não há uma troca. Isso eu descobri muito de perto com as traduções de O filho eterno, convivendo com as feiras internacionais, deu para perceber claramente que estamos em um beco. O Brasil absorve muito mais a cultura do mundo, do que o mundo absorve a nossa literatura. Essa é uma questão muito difícil. Tem quem fale do isolamento da língua portuguesa, mas acho que isso não é bem uma explicação. Existem outras razões, como a própria expectativa que o mundo exterior tem do que seria a produção brasileira. Temos o estereótipo de exotismo, uma moderna literatura brasileira que não corresponde a esse estereótipo, mais urbana e classicamente ocidental, acaba passando desapercebida.

Portal: E as novas formas de expressão literária menos convencionais, como do autor Luiz Ruffato de Eles eram muitos cavalos. Esse é um caminho que pode ser mais reconhecido?

C.T: O Ruffato é um autor que faz uma ponte para a literatura brasileira. Acho que a questão da saída, da literatura brasileira conseguir ser considerada de peso no exterior, ter uma presença – como no caso da literatura inglesa e francesa – depende de fatores extra-literários. É uma questão que envolve a importância do Brasil como país, ter uma população alfabetizada, um mercado interno que realmente consuma o grande volume de publicações nacionais, ou uma lista de bestsellers que comece a colocar autores brasileiros. Existe uma série de fatores que podem chamar a atenção do exterior. Em um certo sentido, até mesmo a política brasileira [é um problema]. Não temos algo semelhante ao Instituto Camões, por exemplo, que promova nossa língua e nossa cultura no exterior. Claro, isso é uma medida complementar. A questão é: se os brasileiros não nos leem, por que os estrangeiros se dariam ao trabalho?