Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Nacionalista é favorito no primeiro turno peruano

Livia Saraiva - Da sala de aula

08/04/2011

Divulgação

No último domingo (10/04), os peruanos foram às urnas escolher um novo presidente. Após uma campanha marcada por reviravoltas, a sucessão segue indefinida. Segundo as pesquisas, a única garantia é de que haverá segundo turno. No pleito, também serão escolhidos os representantes peruanos no Congresso Nacional (unicameral) e do país no Parlamento Andino, órgão deliberativo da Comunidade Andina em Bogotá, Colômbia. Apontado como favorito para vencer o primeiro turno nas últimas projeções de voto, divulgadas no domingo anterior (03/04), Ollanta Humala, candidato pela Aliança Gana Peru, está no centro das discussões que agitam o cenário político do país – e da América Latina como um todo.

Fundador do Partido Nacionalista Peruano, Humala adotou na campanha um discurso diferente do de 2006, quando foi derrotado no segundo turno das eleições pelo atual presidente Alan García. O candidato nacionalista, que na época foi apoiado por Hugo Chávez, busca agora desassociar sua imagem do presidente venezuelano. Para tanto, contratou os assessores brasileiros Luis Frave e Valdemar Garreta, que já trabalharam com Lula. A estratégia, no entanto, acarretou uma série de ataques da imprensa local.

Humala foi acusado de esconder suas reais intenções políticas e utilizar a mesma estratégia do ex-presidente brasileiro para conquistar a confiança dos empresários peruanos. O Partido Nacionalista tradicionalmente apoia a dissolução de certos acordos internacionais, os quais a legenda considerada prejudiciais ao Peru. No entanto, Humala se comprometeu a não mexer na Constituição e não promover mudanças radicais, respeitando os acordos anteriormente firmados. Segundo Beatriz Thomaz Carvalho, pesquisadora do Observatório Político Sul Americano (Opsa), ainda não é possível dizer se a mudança de postura do candidato representa uma transformação no conceito de nacionalismo da política peruana ou se é apenas uma estratégia de campanha. Entretanto, segundo a especialista, Humala teria força política para realizar mudanças.

– Como os preços das commodities metálicas estão em alta e a economia peruana crescendo aceleradamente, o governo teria condições de arcar com altos gastos sociais e subsidiar produções, o que baratearia o custo de alguns produtos como a gasolina. Isso poderia angariar o apoio da população peruana para qualquer mudança política ou constitucional proposta por Humala – afirma Beatriz.

Além de Humala, estão na disputa Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, o ex-presidente Alejandro Toledo, o ex-prefeito de Lima Luis Castañeda e o ex-ministro da economia Pedro Paulo Kuczysnski. Nesse contexto, o resultado do pleito tende a ser importante não somente para os peruanos. De acordo com Miriam Saraiva, professora de relações internacionais da UERJ, a vitória do candidato nacionalista pode acarretar mudanças na relação entre os países andinos.

– Humala poderá se aproximar dos membros da Alba (Aliança Bolivariana dos Povos das Américas), ficando mais próximo da Venezuela, Equador e Bolívia.

Nesse contexto, as relações do Peru com os vizinhos no Pacífico (Chile e Colômbia) podem piorar. Segundo Miriam, uma incógnita nesse cenário diz respeito a uma tentativa de acordo comercial entre Colômbia, Peru e Chile e uma proposta de unificar as bolsas de valores dos três países.

– Os países adotam políticas mais liberais e têm acordo de comércio com os Estados Unidos. A eleição de Humala poderá romper esta "aliança do Pacífico", mas em termos gerais, não deve haver problemas com os outros países da região.

Com chances de chegar ao segundo turno, Keiko Fujimori, de 35 anos, é a mais jovem candidata à Presidência do Peru. Ela é filha do ex-ditador Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos durante seu governo, entre 1990 e 2000. A candidata tem votos dos eleitores mais pobres, que agradecem a seu pai por ter estabilizado a economia do país e desestruturado o Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro que atuava na selva e nas montanhas do Peru. Deputada em 2006, Keiko Fujimori priorizou projetos na área da justiça, como o aumento de penas para criminosos, e projetos sociais. A candidata nega a acusação de que se eleita daria o perdão a Fujimori.

Na disputa também está o ex-presidente Alejandro Toledo, que governou o Peru entre 2001 e 2006. Toledo foi o primeiro presidente de descendência indígena eleito no país. Seu governo foi marcado por políticas macroeconômicas liberais, pelo investimento em saúde e educação e também por denúncias de corrupção.

O ex-prefeito de Lima Luis Castañeda e o ex-ministro da economia Pedro Paulo Kuczynski (PPK) também estão no páreo. Castañeda, fundador do Partido Solidariedad Nacional, teve um dos mais altos índices de aprovação popular enquanto prefeito da capital peruana. Seu mandato foi marcado pelos investimentos em infra-estrutura e pelo projeto do metrô da cidade. O candidato, no entanto, foi também muitas vezes acusado de usar dinheiro público para promover sua candidatura. Já PPK exalta o desenvolvimento econômico vivido pelo país durante o governo de Alejandro Toledo, quando era ministro da Economia.

Cerca de 1,8 milhão de peruanos foram às urnas escolher seu presidente entre cinco candidatos que já são conhecidos da cena política do país. A pesquisadora Beatriz Thomaz Carvalho atribui essa falta de renovação à descrença do povo em relação à política e aos governantes.

– O Peru sofre de um alto descrédito das instituições políticas por parte da população. Segundo o Informe Latinobarómetro de 2010, apenas 13% dos peruanos confiam nos partidos políticos, 14% da população confiam no governo e 63% creem que este age somente em benefício de poucos. A população, que sente dificuldades para fazer valer suas reivindicações por meios institucionais, acaba por não reconhecer como legítimas as autoridades e normas legais, o que aumenta o repúdio pelo Estado – explicou a pesquisadora.

De acordo com ela, os partidos reforçam o descrédito da população:  

– Vários partidos já foram acusados de cobrar quantias enormes por uma vaga dentro da chapa para concorrer ao Congresso. Ou seja, os partidos nacionais estão estruturados de tal forma que favorecem os indivíduos que detêm o poder econômico e/ou o poder político – afirmou.