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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


Cultura

"O jornalista se vê como jornalista na frente de tudo"

Bruno Alfano - Do Portal

07/04/2011

Arte: Mauro Pimentel

Vida corrida, salários baixos, jornadas de trabalho sem hora para acabar e cuja a profissão, ainda assim, ganha o apelido de “cachaça”, pelo vício que causa. É dessa forma que a antropóloga Isabel Travancas retrata o jornalista no livro O mundo dos jornalistas. A quarta edição da obra será relançada hoje (07/04), no dia do jornalista, pela editora Summus, na livraria da Travessa, Shopping Leblon, às 19h.

Depois de se formar em jornalismo pela PUC-Rio, Isabel foi fazer mestrado em antropologia social na UFRJ, e, para a dissertação, fez a pesquisa, em 1993, sobre a antiga profissão. “Descobri a antropologia na PUC, mas desde pequena quis ser repórter. Na pesquisa, reuni minhas duas áreas de interesse”, afirma a autora do livro. Para a nova edição, o trabalho foi revisto, atualizado e ganhou novo prefácio do jornalista Alberto Dines.

Em entrevista ao Portal, Isabel afirma que a identidade do jornalista é extremamente marcada pela profissão, que aparece como sua “identidade primeira”. Na pesquisa, a antropóloga acompanhou a rotina de jornalistas e constatou que as dificuldades da carreira não afastam o interesse dos futuros profissionais e nem tiram o glamour atribuído à função.

Portal PUC-Rio Digital: No livro, a senhora mostra que jornalistas ganham baixos salários, têm jornadas de trabalho sem hora para acabar e trabalham em plantões nos finais de semana. Por que as pessoas ainda querem ser jornalistas?

Isabel Travancas: Eu acho que essa é uma profissão que tem muito glamour, muito apelo, muita força, tanto que existem muitos cursos de comunicação. Essa é uma profissão que desperta muito interesse, mas em cada época de um jeito. Na minha época, nos anos 1980, por causa de um contexto muito político, do final da ditadura. Hoje, pelas milhões de possibilidades de trabalho que oferece – como na internet, na televisão, no rádio, na TV a cabo. Acho que esses jovens que escolhem jornalismo, muitas vezes, não têm a noção – como eu também não tinha, mesmo fazendo uma faculdade boa – de como é a rotina do jornalista. Isso só é descoberto quando se coloca a mão na massa. Não é que não aprenda na faculdade a escrever e as funções, mas o ritmo e a intensidade, só vivendo mesmo. Enquanto isso, o jornalista que já exerce a função é encantado com a profissão, que é mesmo muito fascinante. Eu digo no livro que não quero mais ser jornalista, mas quero continuar estudando jornalismo. É uma coisa que me interessa e me apaixona. Tenho um fascínio muito grande.

Portal: Em que medida a imagem glamourizada da figura do jornalista nos cinemas e no senso comum se aproxima do profissional real? E onde se afasta?

 Stéphanie Saramago I.T.: Ela se aproxima e se afasta. Eu já fiz um artigo analisando a representação do jornalista no cinema. Há filmes como o A montanha dos sete abutres que demonizam o repórter, mostrado como alguém sem escrúpulo que tenta o furo a qualquer custo. Há outros filmes, como Todos os homens do presidente, que mostram repórteres que abrem mão da vida em nome de uma causa, de uma verdade. Acho que tem as duas coisas, porque a profissão tem esses dois lados. Tem isso de você poder interferir na realidade em alguma medida, em você saber o que está acontecendo no mundo, você achar que você tem alguma missão de informar o que as pessoas não sabem e contar o que elas não imaginam. Ao mesmo tempo, tem uma disputa acirrada pelas informações em condições muito apertadas, como pouco tempo, pouco espaço.

Portal: Por que a senhora resolveu separar no livro os jovens dos antigos jornalistas?

I.T.: Porque à medida que fui entrevistando os jornalistas, percebia uma distinção entre os jovens e os mais velhos. Não pela idade, mas pelo tempo de carreira. Esse componente dá um distanciamento, uma outra perspectiva, tanto que são poucos os mais velhos. Eu brinco que o jornalismo mata e, por isso, não há muitos jornalistas de 80 anos.

Portal: E o que há de diferente entre eles?

I.T.: O jornalista jovem ainda está muito encantado. Muito apaixonado, envolvido, tem muita expectativa pela carreira. E o mais velho já está num outro lugar. A maioria já não é repórter, está em outra função, fazendo coluna, editorial, já não está naquele ritmo. Tem uma visão mais critica da profissão num certo sentido e, ao mesmo tempo, já tem uma vida em torno dessa profissão. Enquanto os jovens ainda estão em dúvida. Alguns afirmam que não sabem ainda se vão continuar na profissão, outros a apelidam de “cachaça”, só falam e pensam em jornalismo. Não é que a reportagem canse, ela exaure. Até chegar ao ponto do profissional pensar em largar. Tanto que eu, relendo o livro, 17 anos depois do lançamento da primeira edição, penso que a reportagem tem uma coisa que para mim não estava tão evidente, pela pouca idade que eu tinha quando escrevi o livro. Fazer reportagem é para pessoas mais jovens. Não dá para ser repórter com 50 anos. Dá para ser correspondente internacional, dá para ser um outro tipo de repórter, um repórter especial. Agora, aquele repórter que de manhã está em Bangu, numa delegacia; que, às duas da tarde, está indo cobrir um secretário de trânsito que vai falar de um bueiro que explodiu e de noite em outro lugar não dá. Exige uma possibilidade física de aguentar esse rojão. Jornalista não tem sábado, domingo, nem feriado, trabalha em regime de escala. Tem uma carga horária menor, mas ninguém cumpre o horário fixo.

Portal: O que mudo de 1993, ano da primeira edição do livro, até agora?

 Stéphanie Saramago I.T.: Muita coisa, mas as questões fundamentais são o computador e a internet, claro. Quando eu comecei a trabalhar com jornalismo havia máquinas de escrever e aparelhos de telex nas redações. A gente reclamava muito que as máquinas de escrever eram péssimas, sujavam a mão e outros inconvenientes. Quando fui fazer a pesquisa, em 1989, os computadores estavam começando a surgir. Estava começando aquela coisa de aprender como lidar com a novidade. Não havia internet, era só o computador. E a pauta já estava no computador, mandada pelo editor, o que era uma novidade. Agora é outro momento completamente diferente. Com novas plataformas, como iPhone e iPad, as redes sociais etc. Isso mudou muito a comunicação. De uma lado, para melhor. De outro, para pior. Se por um lado, deu mais agilidade à informação, porque essa tecnologia é muito fascinante. Por outro, o profissional está cada vez mais envolvido com a profissão. O jornalista chega em casa, vê e-mail, você vê o que saiu em todas as mídias, a solicitação é muito maior e o jornalista tem menos tempo livre.

Portal: A senhora destaca a identificação do jornalista com a sua profissão de uma maneira diferente das que outros profissionais têm com suas profissões. Como o jornalismo influencia na maneira com que o profissional da área se vê?

I.T.: A sensação que tive entrevistando esses profissionais é que o jornalista se vê como jornalista na frente de tudo. É a identidade primeira. Se perguntar rapidamente para outro profissional: “O que você é?”, não sei o que ele vai me dizer. Pode ser que diga que é homem, carioca, flamenguista. Não sei. O jornalista, quando você pergunta, vai sempre dar a resposta: “Eu sou jornalista”. Então, a carreira tem um papel muito forte nessa identidade de como ele se vê e vê o mundo. Isso não existe em todas as profissões. Isso é exigido dele. Se o jornalista não estiver muito envolvido, não consegue seguir na profissão. Não porque vão demiti-lo, mas ele mesmo vai querer sair. Eu me lembro de quando acompanhava os jornalistas para a pesquisa, chegava em casa muito pilhada. Chegava ligada e aos poucos ia voltando para a minha vida normal.

Portal: No livro, a senhora escreve que muitos profissionais se orgulham da função transformadora da profissão. De que maneira a classe percebe que pode contribuir com a sociedade?

I.T.: Está aí uma representação do jornalista: aquele que pode transformar. Isso fica mais evidente nas situações dramáticas, como na Líbia e no Egito, em que a imprensa está sempre na linha de frente. Jornalistas são perseguidos, presos, banidos, a censura baixa. Isso ajuda a imagem de que o jornalista tem um papel. Uma missão de informar e lutar pela liberdade de expressão. Tem a missão de dar voz e contar os acontecimentos. Eles se veem assim mesmo. E em parte, é real, o jornalista cumpre esse papel.

Portal: Esse desejo do jornalista em transformação está em crise?

I.T.: Eu não refiz a pesquisa, mas, pelo contato que tenho com a área, percebo que o ritmo do jornalismo não mudou. Na verdade, piorou. É mais conexão, mais celular, mais tudo. A dedicação dos jornalistas também permanece a mesma. A diferença é que jovens jornalistas têm menos envolvimento político do que a minha geração, que nasceu na ditadura. O que acontece hoje são eventos em que as pessoas se mobilizam, mas as questões políticas estão mobilizando menos os jovens repórteres.