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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2022


Cultura

Noite de jazz leva estrangeiros a favela no Rio

Isabela Sued - Do Portal

04/04/2011

Isabela Sued

“Começamos com um público de 12 pessoas”, conta o inglês Bob Nadkarni, dono da pousada The Maze Inn, dentro da favela Tavares Bastos. “O número, no entanto, pulou de 12 para 40 e de 40 para 400 pessoas”, comemora, sobre o sucesso da noite de jazz que promove no local, toda primeira sexta-feira do mês.

Voltando às origens do gênero jazz, que teve seu início nos subúrbios de Nova Orleans, nos EUA, o evento é realizado bem no alto da favela, com uma vista privilegiada para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar e a banda toca músicas de Gerswhin, Cole Porter, Billie Holliday e outros artistas. Iniciado em 2006, um ano depois da inauguração da pousada, a Jazz Night é comandada por Bob, como é chamado por todos o morador e dono da The Maze Inn. A Tavares Bastos fica no Catete e é sede do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio (Bope).

– Cheguei ao Brasil em 1979 e ainda trabalhei algum tempo como correspondente da BBC de Londres. Quando meu terceiro filho, Erick, nasceu, e eu percebi que tinha um filho 60 anos mais novo que eu, decidi que tinha que fazer algo maior para sustentar a minha família – revelou.

 Isabela Sued O inglês, que também é artista plástico, se mudou para a Tavares Bastos em 1982 e achou o lugar adequado para instalar seu ateliê de pinturas.

– Eu queria me distanciar da vida no asfalto, me separar um pouco do mundo, portanto decidi subir o morro. Essa acabou virando a minha casa – contou.

Em 1997, abriu sua primeira galeria de artes na sua casa e, em 2006, deu início à Jazz Night no hotel. A revista National Geographic divulgou agora em março uma lista com o ranking dos 19 hotéis mais autênticos e únicos no Brasil. Dentre eles, o The Maze Inn aparece como um refúgio inspirador para escritores, além de ser palco para músicos e atores.

– O evento atrai tanto brasileiros quanto estrangeiros. Os únicos moradores da favela que vêm aqui são aqueles que eu convido. Eles não têm dinheiro para frequentar o local [a entrada custa R$ 30]. Em cada Jazz Night, você vai ver cerca de 20 ou 30 pessoas daqui. Mas eu só convido aqueles que são bons para a comunidade. Se chegarem bêbados aqui, por exemplo, não vão poder entrar. Não só eles, mas qualquer um que chegue assim – afirmou.

A sueca Tania Carlson, de 26 anos, esteve pela segunda vez na The Maze Inn, para ouvir o jazz. Para ela, esse tipo de encontro desperta o interesse dos estrangeiros por ser diferente. Mas, segundo ela, “infelizmente, as pessoas que vão ao encontro voltam para os seus países dizendo 'eu estive em uma favela', sem ter a menor ideia de como é na verdade”.

Isabela Sued– É um pouco triste de analisar, porque eu esperava que fosse um lugar para as pessoas tanto do asfalto quanto da favela, não apenas para os turistas. Me sinto numa espécie de zoológico. Parece que estamos aqui para olhar para as pessoas da favela e gastar o nosso dinheiro – disse Tania. – Eu acho que seria muito melhor se eles usassem o espaço para as pessoas se conhecerem e aprenderem umas com as outras. Uma boa ideia seria, por exemplo, a de abaixar o preço do evento em algumas noites.

Tania afirma, no entanto, que a iniciativa de realizar esse tipo de evento numa favela é uma boa ideia. “A vista é maravilhosa e o lugar também”, afirmou.

Segundo Bob (foto acima), o fato do evento ocorrer na favela onde fica a sede do Bope tranquiliza, até certo ponto, as pessoas. Ainda assim, ele afirma que há sempre algumas pessoas que não se importam muito com isso.

– Nós somos obrigados a ter segurança aqui. Certa noite, acredite se quiser, coloquei meus filhos para dormir no meu quarto e, mais tarde, encontrei um casal transando na minha cama, ao lado deles. Eu achei que fosse impossível que qualquer ser humano pudesse fazer uma coisa dessas. E esse tipo de situação inconveniente nunca envolve alguém da comunidade. É sempre gente rica, "filhinho de papai". Portanto, é necessário que haja segurança – afirmou o inglês.

Isabela SuedA estudante universitária Vitória Ramos, de 19 anos, presente pela primeira vez na Jazz Night da The Maze Inn, acredita que seja importante esse tipo de iniciativa para “atrair diferentes pessoas para a favela e, a partir disso, mudar perspectivas errôneas que muitos têm sobre ela, mostrando um lado cultural e pacífico, que muitos imaginam não existir”.

– Gostaria que tivesse um limite menor de pessoas para entrar e que os preços fossem mais acessíveis. Por ser numa favela, isso atrai muitos estrangeiros que procuram coisas mais exóticas no Rio, e por ser organizada por um estrangeiro, faz com que pareça seguro e familiar. Acho que o evento é mais para os turistas pois o preço é muito alto – afirmou a estudante. – Mas há um benefício para a comunidade, pois gera alguns empregos e um aumento do comércio.

O estudante David Campanelle (foto à direita), de 23 anos, concorda. Ele já esteve no evento mais de cinco vezes, mas acredita que é mais destinado aos turistas. “Com o valor que é cobrado, ele perde o motivo principal da construção do local e a maioria da clientela acaba virando turistas”, afirmou.

Isabela Sued– Mas talvez os moradores da favela nem queiram ir. Provavelmente alguns gostariam de ir e, infelizmente, não podem, principalmente por conta do valor. Mas, de qualquer forma, os moradores também se beneficiam – lembrou. – Por exemplo, o transporte para chegar ao local é feito por moradores.

Além disso, David acredita que o evento é uma ótima iniciativa para a cidade do Rio, como incentivo à cultura. Segundo ele, não há muitos encontros deste tipo na cidade. "No caso desse lugar, a iniciativa é ótima, pois não é alguém que queira se mostrar alternativo. O dono criou o espaço para mostrar o outro lado do Rio de Janeiro, mostrar o que muitos cariocas não conhecem", disse.

A suiça Nina Casanova, de 21 anos, também esteve no local, mas acredita que o evento deveria ser uma maneira de promover o encontro entre pessoas da favela e do asfalto. “Eu faria com um valor muito menor, para que os moradores também pudessem participar do evento que acontece no seu próprio bairro”, afirma.

– Com o preço tão alto, fica impossível para os moradores frequentarem o evento. Assim, fica difícil que eles tenham acesso à cultura que está tão perto e ao mesmo tempo tão longe deles – afirmou.

 Isabela Sued O anfitrião do local acredita que essa iniciativa contribui totalmente para a cultura da comunidade. “Tem gente aqui que nunca ouviu esse tipo de música”, afirma Bob. A banda é composta por cinco integrantes: Bob no trompete e na voz, Marcelo na guitarra, Joel no saxofone, Leandro no teclado, Fernando na bateria e, o único que é da comunidade, Áureo, no baixo.  Áureo aprendeu a tocar o instrumento por meio de um dos programas sociais oferecidos para a comunidade, que investem nas áreas de esporte e cultura.

– O Áureo nunca tinha ouvido nada deste tipo e agora está aprendendo até a improvisar no palco – contou o inglês.