Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 24 de julho de 2024


Mundo

"Os EUA precisam repensar sua política para a região"

Daniel Cavalcanti - Do Portal

23/03/2011

Reprodução/Internet

Uma nova conjectura se abriu em fevereiro, quando revoltas populares estouraram em diversos países do Oriente Médio. O mundo está assistindo a uma possível mudança na estrutura política e social do Oriente Médio. Enquanto essas revoltas ainda acontecem, grandes democracias do Ocidente tomam novas posições em relação a antigos aliados, países que foram regidos durante muito tempo por governos autoritários, como o Egito e a Líbia.

O Portal conversou com Murilo Meihy, professor do Departamento de História da PUC-Rio, que analisou as relações entre as grandes potências e os governos autoritários da região, bem como a dependência energética do Ocidente, traçando possíveis cenários pós-revoltas no mundo árabe. Segundo o professor, o governo americano deve repensar suas políticas para a região e procurar depender menos do mundo árabe para suprir suas demandas energéticas.

Portal PUC-Rio Digital: As revoluções que ocorrem no mundo árabe ganharam apoio das mesmas potências ocidentais que durante muito tempo tiveram boas relações com os regimes ditatoriais da região. Isso não pode ser percebido como uma forma de cinismo nas relações internacionais?

Murilo Meihy: Não acho que seja, necessariamente, um cinismo. É um realismo, uma opção de política externa muito pragmática, principalmente dos Estados Unidos. O primeiro contato desses regimes autoritários com os EUA, sempre se dá de maneira muito diferente do que vemos hoje. Inicialmente, essas ditaduras foram constituídas a partir dos anos 1950. O Egito em 1952 e a Líbia em 1969. Daí, começa a surgir uma série de regimes liderados pelo exército com um cunho autoritário ao longo dos anos 1950. Pela maneira como esses regimes são construídos, inicialmente tem-se uma postura anti-imperialista. Isso significava um afastamento completo com relação aos Estados Unidos. Em 1970, quando morre a principal liderança do mundo árabe naquele momento, que era o egípcio Gamal Abdel Nasser, o seu sucessor o vice-presidente do Egito, Anwar Al Sadat, teve uma postura de aproximação com os Estados Unidos. É aí que começa esse namoro entre os regimes autoritários da região e, especificamente, os Estados Unidos, a partir de uma mudança da postura egípcia e, consequentemente, de uma parte dos países árabes. Alguns desses países, ainda nessa época, se conservam mais próximos da União Soviética do que, necessariamente, dos EUA no contexto da Guerra Fria.

Portal: Hosni Mubarak foi um histórico aliado dos americanos que, inclusive, hesitaram em apoiar os levantes populares no Egito. Como o senhor analisa esse contexto de aliança e que consequências os levantes podem gerar para as relações entre Washington e o Cairo daqui para frente?

MM: Para termos uma ideia, mais ou menos, de como era e o que vai ser daqui para frente entre os Estados Unidos e os países árabes, temos que levar em consideração a raiz dessa relação. Ela começa nos anos 1970 com a estratégia americana de sustentar alguns desses regimes autoritários em troca de uma certa estabilidade, principalmente com relação ao petróleo. Em 1973, houve um confronto entre árabes e israelenses e uma dessas estratégias árabes era, justamente, boicotar a produção de petróleo para que o preço subisse, tornando a economia mundial “refém” da ação dos países produtores [de petróleo]. Essa foi a primeira grande ação da indústria de petróleo, usando-o como arma. A estratégia americana para sair desse problema é justamente se aliar à determinadas ditaduras, oferecendo estabilidade e segurança, do ponto de vista externo, em troca de um apoio com relação à política energética. Podemos destacar dois grandes aliados nesse momento: a Arábia Saudita, o maior produtor de petróleo, e o Egito que, apesar de não ser um grande produtor de petróleo, é fundamental tanto na política regional quanto para o transporte desse petróleo, por causa do Canal de Suez. O Egito encontra-se num enclave geográfico em que o petróleo do Golfo Pérsico precisa passar por lá para ser escoado para o resto da Europa. É uma posição estratégica. A partir dos anos 1970 houve essa aproximação. No caso do Egito, é muito evidente. Até o início do ano, os Estados Unidos enviavam uma ajuda [financeira] que só perde em tamanho para Israel. Isso é um fato impressionante. O grande problema dessa proximidade é que os regimes autoritários mantêm esse poder à margem dos interesses da sociedade civil árabe. O que estamos vendo agora é a sociedade civil explodindo e repudiando integralmente esses modelos.

 Mauro Pimentel Portal: O senhor acha que depois dessas revoluções, independentemente do governo que for adotado, os Estados Unidos terão que postura?

MM: É difícil fazer uma previsão segura, pois a revolução ainda está acontecendo. O Egito ainda não tem um destino definido. E outras ditaduras começam a ter problemas, como é o caso da Arábia Saudita, do Iêmen, do Bahrein e outros países mais próximos do Golfo. Podemos ter certeza de que os EUA precisam repensar sua política para a região. Isso será definido, nesse momento, não apenas em função das intenções americanas, mas também de como esses países, em especial o Egito, irão conduzir sua política interna. O que podemos, mais ou menos, calcular? Os EUA vão tentar substituir sua dependência energética do mundo árabe com outros aliados no mundo, que também têm potencial energético. O Brasil é um deles, não é à toa a visita de Obama, negociando parte da compra do pré-sal. Os Estados Unidos pretendem diminuir a dependência em relação à estabilidade interna dos países árabes, que é um grande problema. O orçamento americano se compromete muito com a manutenção desses regimes e deve tentar buscar outras formas de suprir sua demanda.

Portal: Da mesma forma, Muammar Kadafi é um aliado tradicional do governo italiano, tendo inclusive negócios no país e é próximo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Da mesma forma, como o senhor analisa essas relações e de que forma esse passado pode influenciar as relações entre Trípoli e a União Europeia daqui para frente?

MM: Acho que existem dois pontos que devem ser levados em consideração. Primeiro que, por mais que pareça próxima – ou até mesmo histórica – a relação entre Itália e Líbia, ela é recente. Há uma aproximação entre esses dois países principalmente nos últimos cinco anos. [O presidente da Líbia Muammar] Kadafi teve uma política externa muito agressiva até meados dos anos 1980. Depois ele muda um pouco, por problemas internos como o aumento da oposição interna na região. Daí ele tenta transformar a situação, para o caminho da aproximação. Só que principalmente a União Europeia olhou com muita reserva essa aproximação. Só em 2000 que ela foi, de fato, consolidada depois de 10 anos de uma posição moderada. Ainda havia o problema do atentado em Lockerbie em que, supostamente, o governo líbio teria participado. Essa foi uma longa discussão que demorou para ser resolvida. Então, a UE tinha muita reserva contra a Líbia mas, de qualquer maneira, sabia que seria dependente dos produtos energéticos vindos, não só da Líbia, mas de toda a África. O gás da Argélia, o petróleo Líbio e vários outros. Em segundo lugar, com essa crise do governo Kadafi, podemos perceber que a União Europeia continou com muitas reservas, ainda que fechando projetos com a Líbia. Isso fica muito evidente na postura com que as principais lideranças da UE tomaram nesses últimos dias. O [presidente da França Nicolas] Sarkozy, de maneira unilateral, decide reconhecer o governo rebelde da Líbia como governo oficial, esperar isso da França é uma surpresa, uma vez que a França sempre criticou o governo George W. Bush por sua posição unilateral com relação à Guerra do Iraque e, de repente, se adianta à UE e, diplomaticamente, assume essa postura de apoio. Também temos o fato de que a Itália pôs à disposição dos exércitos que criaram a zona de exclusão na Líbia, suas bases militares próximas à Líbia. Isso muda o panorama. É preferível isolar Kadafi agora do que esperar que uma boa relação de um governo futuro, com a presença dele ou não. Ou seja, é mais fácil garantir uma boa relação agora e isolar Kadafi.

Portal: O senhor acredita que é possível que os levantes democráticos na região possam apresentar cunho antiamericano, antieuropeu e antiocidental?

MM: Acho que são três coisas distintas. Os Estados Unidos têm a sua imagem no mundo árabe muito vinculado à Israel e isso, claro, é um problema para a sociedade civil árabe, em especial nesses países mais próximos da crise palestina, como no caso do Líbano, Síria e do próprio Egito. Com relação ao antiamericanismo, ele é evidente. Também pela presença americana no Iraque, e várias outras discussões geopolíticas. Antieuropeia já é mais complicado, visto que muitos desses países têm uma população de imigrantes muito grande nos países europeus. Isso precisa ser levado em consideração, uma vez que eles fazem parte do jogo político, ainda que fora do território egípcio, sírio ou líbio. Mas, de qualquer maneira, as relações com a UE são mais delicadas, tem uma dependência estratégica e regional que precisa ser melhor pensada. Acho uma posição antieuropa mais difícil. Antiocidental também é complicado pois uma das coisas que essas rebeliões tornaram evidente foi o fato de que setores, antes tradicionalmente antiocidentais, não tomaram à frente dos movimentos. Então, não se trata de um movimento anticivilizatório, ou qualquer coisa dessa natureza. Pelo contrário, está muito mais voltado para dentro do que necessariamente para conflitos e relações externas nesse momento. Acho que ele é, sim, antiamericano por uma questão regional. No entanto, antieuropeu e antiocidental acho bem difícil.

Portal: De que forma o passado de relações entre esses regimes autoritários e as potências ocidentais influenciam a formação desses novos governos?

MM: Cada caso é um caso, pois não podemos levar todo o contexto desses países em consideração. A Tunísia é um caso muito evidente, com a vantagem de ter sido o primeiro grande movimento – e eficiente com a derrubada do [ex-presidente] Ben Ali – mas não é um aliado estratégico das potências ocidentais, então não há muita intervenção dessas potências nem uma relação histórica com a Tunísia. A França, claro, pelo fato da Tunísia ter sido colônia, tem uma presença cultural no país, mas isso não é muito forte. O que devemos ter maior atenção é o caso egípcio, sem dúvida, pela importância que o país tem dentro desse jogo. Acho muito difícil que as relações entre Egito e Estados Unidos mudem radicalmente. Essas relações sofrerão uma nova leitura, mas, que haja uma postura de política exterior egípcia antiamericana eu acho muito improvável. 

Portal: Como fica dentro desse contexto a posição da Arábia Saudita em função das tradicionais relações da família real com Washington?

MM: Altera muito pouco. Essas relações são tão importantes para os Estados Unidos quanto para a família saudita que não é uma unanimidade na região. A Arábia Saudita é uma das potências regionais, não há dúvida, tanto que, agora, com os problemas no Bahrein, a Arábia Saudita assume uma postura de líder regional, enviando tropas ao Bahrein. Mas acho que o problema interno da Arábia Saudita é muito menos social do que o do Egito. Pois, por exemplo, o que move as manifestações anti-governo na Arábia Saudita é muito mais étnica, de minorias étnicas que passam a reivindicar uma melhoria na sua atuação política interna, do que uma questão social por conta de problemas econômicos, como é o caso do Egito. No caso da Arábia Saudita, as relações com os EUA não serão, muito provavelmente, alteradas. A não ser, é claro, que haja uma mudança muito forte do ponto de vista econômico.

Portal: O senhor acha que a relação entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita será a mesma após o envio, dos sauditas, de tropas para conter os protestos no Bahrein?

MM: Acho que não vai mudar, pois esses pequenos desacordos sempre existiram. Principalmente com relação à política regional da Arábia Saudita. Os interesses de sauditas e americanos pela manutenção dessa aliança são infinitamente maiores em relação ao problema de enviar tropas ou não para o Bahrein. Não acredito que haja uma mudança muito profunda agora. Principalmente com o governo dos EUA procurando não depender apenas desses aliados e descartá-los por completo. Assim como a Arábia Saudita também sabe que, do ponto de vista externo, está muito vinculada aos Estados Unidos, e não pode simplesmente substituir Washington por outro aliado.