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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Mostra do Filme Livre confirma salto da produção independente

Carina Bacelar - Do Portal

23/03/2011

 Arte: Mauro Pimentel

Ir a uma sessão de cinema gratuita, munido de apito e disposto a, logo após a exibição do longa, debatê-lo com atores de teatro não é certamente a forma mais tradicional de assistir a filmes no Brasil. Mas romper paradigmas e apresentar inovações na linguagem audiovisial é justamente o propósitoda Mostra do Filme Livre. A iniciativa, que completa 10 anos em 2011 e ficará em cartaz até o dia 31 deste mês, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) reúne 333 filmes selecionados pelo curador Guilherme Whitaker e um time de cineastas. A longevidade da mostra e o crescimento do  número de produções a cada ano representam, para o professor de cinema da PUC-Rio Marcelo Taranto, a visibilidade maior que as “caras novas” têm conseguido no mercado e a relativa facilidade que existe hoje em produzir conteúdo de qualidade para o cinema.

Taranto destaca que a necessidade de produtos audiovisuais com um perfil brasileiro tem estimulado os cursos de cinema e aumentado o número de alunos inscritos. Essa transformação, observa o cineasta, faz produtoras e canais fechados “incorporarem” autores de produções independentes – em especial, os jovens:

– Esse tipo de produto acaba se encaixando bem, não só pelo fato de o orçamento ser pequeno, mas também porque fala para um público jovem que interessa a esses canais – avalia.

Taranto acredita também que iniciativas semelhantes à Mostra do Filme Livre forneçam um "bom retorno do público" aos autores de produções independentes. Com isso, eles conseguem "mostrar mais suas obras" e abrem portas em grandes empresas de comunicação. Estimulados pela maior visibilidade de pequenas produções, atores consagrados tem aceitado de participar delas como “exercício de interpretação”. A atriz Débora Secco, por exemplo, atuou no curta-metragem de um dos alunos de Taranto no último período.

– A ideia de fazer cinema é sempre muito atrativa. Evidentemente, pelo fato de ser uma produção universitária, o ator já sabe dee antemão que não há recurso – afirma.

O curador Guilherme Whitaker cconcorda com Taranto sobre o crescimento do cinema independente, apesar da falta de pesquisas quantitativas. Ele confirma que o público da mostra cresceu ao longo dos dez anos. O grande desafio, diz Whitaker, é agradar "a esse público tão eclético" com sessões que misturem diversos gêneros em um mesmo dia.

– Se o público não gosta de um (filme), no seguinte ele pode gostar, e no outro ele pode dormir – observa, lembrando também o êxito das sessões temáticas, como a de filmes infantis.

Whitaker ressalta que, apesar de o esteriótipo de produções independentes e experimentais recair sobre os mais jovens, cineastas de qualquer idade podem inscrever suas obras. Também filmes feitos há muito tempo, como há 20 ou 30 anos atrás, são aceitos, desde que se adéqüem com a proposta alternativa do evento.

Mas as inovações não se restringem ao conteúdo dos filmes. Este ano, a mostra terá apitaços, sessões em que o público apita quando deseja mudar de filme e exibições seguidas de debates com grupos de atores de teatro para discutirem as aproximações e divergências entre as duas manifestações artísticas.  Apesar de negar a intenção de interatividade desse tipo de sessão, o que há é a interação com o público.

– Não é nada muito sério. É uma forma de a mostra extrapolar um pouco a questão de ficar só sentado vendo filme e depois sair e ir embora, uma exibição fora do comum para um público que gosta de participar da própria programação. – explica.

Outra novidade são oficinas que ensinam a fazer filmes com celulares e câmeras digitais. Para o professor de cinema Marcelo Taranto, a qualidade dessas produções pode não ser superior em termos formais, mas o conteúdo delas pode ser tão bom quanto a de filmes filmados em câmeras potentes.

– Seja uma câmera maravilhosa ou pequenininha, o importante é o respeito em relação ao trabalho feito. Se você tem uma câmera de celular, mas tem uma ideia genial ou um roteiro muito inteligente, por que isso não pode ter um valor? – questiona.

É justamente por isso (a não-necessidade de grandes aparatos tecnológicos) que Guilherme Whitaker avalia que cada vez mais pessoas estão fazendo produções baratas e por conta própria, sem precisar nem mesmo de incentivos do governo.

– Hoje em dia, com poucos amigos se consegue fazer um filme. Se o roteiro não necessitar de maiores questões, de dinheiro ou equipamentos, não tem problema para nós. Nos últimos 3 anos, 90% dos filmes foram feitos  sem nenhum tipo de apoio governamental. Isso é produção independente. – destaca.

Apesar da facilidade das produções próprias – e do grande número de estudantes de cinema que as fazem – Marcelo Taranto ainda observa que a maioria dos seus alunos prefere a estabilidade de ser empregados em grandes produtoras que em arriscar em projetos independentes de sua autoria.

– Isso não quer dizer que inexistam iniciativas de alunos de montarem pequenas produtoras e fazerem produtos independentes, porque certas pessoas têm uma característica de empreendedores e não de assalariados – relativiza.

Apesar desse “receio” de alguns alunos, Taranto espera, em breve, uma incorporação de linguagens e propostas novas ao cinema brasieleiro. No entanto, ressalva:

 – Tudo isso é um trabalho lento.