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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

“Não podemos abrir mão da energia nuclear”

Carolina Bastos - Do Portal

18/03/2011

 Arte: Carolina Bastos

A tragédia japonesa reacende a discussão sobre o uso da energia nuclear. O fantasma da contaminação radioativa ressucitado pelas explosões nos reatores da usina de Fukushima leva países a reverem planos e preucauções. Embora a Eletronuclear garanta que o projeto de expansão do parque nuclear brasleiro será mantido (além de Angra 3, estão programadas mais quatro usinas), especialistas apontam a necessidade de ajustes. A tecnologista sênior da Comissão Nacional de Energia Nuclear Claudia Mauricio, formada em física pela PUC-Rio, afirma que “esta tragédia irá interromper a expansão prevista da energia nuclear no Brasil”. Outros ressalvam, contudo, que a aplicação da energia nuclear é indispensável, quando acompanhada dos métodos de segurança adequados.

O raio de evacuação do entorno da usina nuclear de Fukushima, determinado pelas autoridades japonesas, é de 20 quilômetros, mas milhares de moradores de Tóquio – a 240 quilômetros de Fukushima – estão deixando suas casas com medo de a radioatividade assumir um alcance superior ao previsto inicialmente. O professor de engenharia química da PUC-Rio José Marcos Godoy acredita que o perigo maior recai sobre os trabalhadores que tentam solucionar os problemas causados pelo impacto do tsunami na região da usina. Já o professor de engenharia mecânica da PUC-Rio Washington Braga, diretor de admissão e registro da universidade, avalia que a capital japonesa também corre perigo, pois os elementos radioativos podem ser absorvidos mesmo com a nuvem dissipada.

– A nuvem já chegou a Tóquio e vai continuar se espalhando, afetando mais gente a cada instante. Ninguém ainda sabe a extensão real do problema, mas o governo japonês está distribuindo pastilhas de iodo, para saturar a tireoide. Para quem for sair de casa, eles recomendam que vista duas roupas: a externa é jogada fora depois – explica.

Enquanto o Japão corre para amenizar os danos e os riscos do desastre, países retomam debates sobre a segurança da energia nuclear. Braga considera “magnífico" que se repense o uso deste tipo de energia, mas adverte: é necessário cuidado para evitar precipitações e distorções que possam subverter os avanços conquistados.

– A crise foi desencadeada com o tsunami. Então, só é preciso tomar medidas de segurança adequadas, e não abdicar do uso da energia nuclear – ressalta.

O professor de física da PUC-Rio Enio Silveira pondera que “qualquer acidente na cadeia de produção do combustível nuclear ou em usinas nucleares fornece argumentos que apoiam a tese da extinção da sua produção”. Para Silveira, o mais importante é transformar a tragédia em lições e ações de segurança:

– Em acidentes do gênero, as causas são estudadas em detalhe e as usinas, em funcionamento e futuras, passam a ser equipadas com dispositivos para evitar o mesmo problema – acredita o professor.

Grande parte dos especialistas considera igualmente importantes os investimentos em energias alternativas. Braga lembra que todos os tipos de energia têm vantagens e desvantagens. Ele avalia a energia solar, por exemplo, como extraordinária, mas pondera que "nem toda ela chega à Terra":

– É um projeto que fica sempre no futuro: colocar usinas de captação de energia solar em órbita, onde é mais abundante do que aqui. Se puséssemos placas de energia solar cobrindo todo o lago de Itaipu, por exemplo, geraríamos três vezes mais energia do que a hidrelétrica, mas a um custo 10 vezes maior. E ainda teríamos o custo ainda dos painéis, pois não há o suficiente.

Na opinião de Washington Braga, as energias alternativas são importantes, porém insuficientes para suprir as demandas crescentes:

– Não podemos abrir mão da energia nuclear – diz ele, categoricamente – A solução não é essa, aquela ou a outra, e sim todas juntas.

Para o professor de engenharia nuclear da Universidade Federal do ABC Pedro Carajilescov, a diversificação da matriz energética, reforçada das energias alternativas, é "estratégica" no século XXI. Ele afirma quem "nesta lógica, cada país deve encontrar o modelo ideal específico":

– Nenhum país adota uma única fonte de energia elétrica como matriz. Durante muito tempo, o Canadá e o Brasil tinham a energia hidroelétrica como sua principal fonte, com participação acima de 90%. Cada país deve avaliar suas condições e decidir o que lhe é mais conveniente e estratégico. A questão do aquecimento global, com emissão de gases do efeito estufa, tem feito muitos países considerarem a energia nuclear como melhor opção, assim como o efeito de ocupação do solo com outras formas de geração (hidroelétrica, etanol etc.). A composição da matriz energética de um país depende de decisões técnicas e políticas – lembra o especialista.

A crise nuclear no Japão

O terremoto e a tsunami que atingiram o Japão na semana passada – e deixaram cerca de 4.000 mortos oficiais e mais de 6.000 desabrigados até agora – danificaram as funções de refrigeração da usina nuclear de Fukushima, causando o derretimento de três dos seis reatores existentes.

Segundo Godoy, o primeiro reator – unidade 1 – de Fukushima foi construído há 40 anos, e seria desligado este ano. Godoy acredita que a análise de risco não seguia os padrões atuais e, por isso, foi permitida a construção de um reator nuclear à beira-mar em um país sujeito a terremoto e consequentes tsunamis.

– Hoje é possível perceber que foi uma insanidade. Quando a análise de risco é mal feita, alguém irá pagar por isto, mais cedo ou mais tarde. Neste sentido, podemos fazer um paralelo com o ocorrido na nossa Região Serrana este ano – critica o engenheiro.

A população japonesa sofre agora um racionamento de energia, e corre o risco de perder parte da sua produção de energia nuclear, responsável por cerca de um quarto do abastecimento energético do país. Godoy afirma que “a opção do Japão pela energia nuclear foi de natureza estratégica, visando diminuir sua dependência externa num cenário internacional”. Já Claudia Mauricio acredita no potencial tecnológico do país:

– Eles têm muita tecnologia e pouco espaço físico. Por isso, a energia nuclear é vital para eles, já que ocupa pouco espaço e só precisa de investimento na área tecnológica – explica.

 

Professores de engenharia e de física da PUC-Rio destacam as principais vantagens e desvantagens do uso da energia nuclear:

Vantagens:

- Não contribui para o efeito de estufa.
- Não polui o ar com gases como enxofre e nitrogênio.
- Não utiliza grandes áreas de terreno.
- Independe da sazonalidade climática.
- É a fonte mais concentrada de geração de energia.
- A quantidade de resíduos radioativos gerados é pequena e compacta;

Desvantagens.

- Necessidade de armazenamento do resíduo nuclear em locais isolados e protegidos.
- Necessidade de isolamento da central após o seu término.
- É mais cara quando comparada às demais fontes de energia.
- Os resíduos produzidos emitem radiatividade durante muitos anos.
- Risco de acidente na central nuclear.