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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Nova-iorquinos descrevem o terror do 11 de Setembro

Luiza de Andrade - Da sala de aula

16/03/2011

Getty Images

O início da manhã daquela terça-feira não indicava nada de diferente na rotina da Stuyvesant High School. Porém, não foi um dia qualquer. Afinal, era 11 de setembro de 2001. Uma distância de apenas 800 metros separava o alvo dos terroristas da Al-Qaeda dessa escola pública localizada na Chambers Street, número 345, na ilha de Manhattan.

Às 8h46m, quando a Torre Norte do World Trade Center foi atingida pelo voo 11 da American Airlines, o cotidiano do colégio começou a mudar. A preocupação aumentou assim que o segundo edifício foi atacado pelo avião 175 da United Airlines às 9h03m. “O barulho dessa explosão pareceu ainda mais alto. Eu me senti como num terremoto”, relembra em entrevista por Skype o hoje jornalista Marlon Bishop, que na época tinha quinze anos.

O diretor da escola, Stanley Teitel, estava em seu escritório quando tudo aconteceu. De imediato, resolveu manter todos nas salas de aula. “Minha maior preocupação era deixar todo mundo em um lugar seguro. Eu não sabia como estavam as ruas e ainda precisava me certificar dos riscos de as torres caírem”, conta Teitel por Skype. Pouco antes das 10h, a Torre Sul caiu e ele decidiu retirar os alunos do prédio. A Prefeitura também havia ordenado a evacuação da área.

Apesar do medo, a saída do colégio foi calma. Marlon dá crédito aos professores por isso. No entanto, ao chegar à rua, a tranquilidade sumiu. Logo em seguida, a Torre Norte desabou. “Eu segurei na mão de um amigo e nós corremos o mais rápido possível por vinte blocos. Atrás de nós, havia uma grande nuvem de poeira”, recorda o jornalista.

Pais sempre pensam que seus filhos estarão a salvo na escola. Entretanto, é fácil imaginar o desespero dos responsáveis pelos adolescentes da Stuyvesant High School quando souberam dos ataques. Com o pai de Marlon, o roteirista Matthew Bishop, não foi diferente. Naquele dia, ele iria para o Canadá onde o filme The Zookeeper, para o qual assinara o roteiro, estrearia no Festival de Cinema de Toronto em 13 de setembro.

Matthew, que hoje mora no Rio de Janeiro, estava no carro com seu amigo, o produtor de cinema Juliusz Kossakowski, quando ouviu as primeiras informações sobre o atentado.  “Algum palhaço bateu nas Torres”, lhe disse um guarda de trânsito na Triborough Bridge, ponte que faz a ligação entre Manhattan e os bairros do Bronx e do Queens. O primeiro edifício acabara de ser atingido, mas a forma displicente com que falou o policial não dava conta da dimensão do que acabara de acontecer.

Depois da segunda colisão, Matthew e Juliusz ouviram pelo rádio que poderia se tratar de uma ação terrorista. Foi aí que os planos dos dois começaram a mudar. No Bronx, eles pararam para checar as informações com policiais e foram informados de que em breve Manhattan deveria ser esvaziada.

Ao invés de seguir a ordem das autoridades, Matthew resolveu retornar à ilha. Como o trânsito estava bloqueado, teve que fazer todo o percurso a pé. “Eu me senti em um pesadelo, andando na direção contrária das pessoas. Todo mundo estava assustado e eu não conseguia entrar em contato com a minha família”, relata. Só a vontade de ver os parentes foi capaz de superar o cansaço e o medo. O alívio só veio no início da tarde quando conseguiu falar com Marlon.

A normalidade demorou um tempo para voltar à Stuyvesant High School. O local foi usado por três meses como hospital de emergência pelas equipes de resgate. Os alunos passaram a ter aulas, então, na Brooklyn Technical High School. Para Stanley Teitel, foi importante para a comunidade falar sobre o episódio. “Os adolescentes precisavam superar o trauma e cada um teve uma forma diferente de lidar com o problema”, explica o diretor.

Em outubro, foi feita uma edição especial do The Spectator, o jornal produzido no colégio. A publicação, que ganhou até destaque no New York Times, trouxe as impressões dos estudantes sobre o drama que presenciaram tão de perto. O então estudante Ethan Moses contribuiu tirando fotografias do entorno do colégio. Ele diz que sentiu a necessidade de registrar aquilo. Enquanto isso, em sua casa, seu pai mal conseguia sair do quarto.

Quase dez anos depois dos ataques, Marlon é um dos muitos nova-iorquinos que lamentam os rumos da política antiterrorista de seu país. Na esfera política, ele reconhece a importância do ex-prefeito Rudolph Giuliani por ter acalmado a população, mas não o exalta como um herói. Para Marlon, foram os moradores de Nova York os principais responsáveis para que a vida seguisse adiante. A única ferida que ainda vê em relação ao 11 de setembro é o ground zero e isso precisa ser superado. “É lógico que devemos lamentar as mortes das pessoas, mas a cidade é muito grande e dinâmica para remoer a perda dos prédios”.