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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

"Segurança será principal desafio"

Isabela Sued - Do Portal

15/03/2011

Tim McKulka/UN Photo

A Comissão do Referendo sobre o Sul do Sudão anunciou no início de fevereiro o resultado da votação que decidiu pela separação do país em dois. A criação do Sudão do Sul foi aprovada por quase 99% dos votos de sudaneses naturais da região. Em 9 de janeiro, urnas foram colocadas no Sul e no Norte do Sudão e espalhadas por mais oito países. O pleito foi resultado do acordo de paz entre o Norte e o Sul estabelecido em 2005, que deu fim a uma guerra civil de mais de 20 anos.

No dia da votação, lá estava o estudante queniano Suleiman Abdullahi, de 21 anos, enviado especial de um programa da United Press International (UPI) de treinamento de futuros jornalistas. O projeto, o Upiu, dá oportunidade a estudantes de jornalismo do mundo todo de publicarem e divulgarem suas matérias. O Portal PUC-Rio Digital conversou com Suleiman Abdullahi sobre o referendo e o programa de treinamento. Segundo ele, a UPI inova ao mandar estudantes de jornalismo para cobrir "momentos históricos, como o referendo do Sudão".

Portal PUC-Rio Digital: Como estava o Sul do Sudão quando você chegou lá?

Suleiman Abdullahi: Eu viajei para Juba, a capital do Sul do Sudão, enviado por um programa de treinamento da United Press International. As pessoas em Juba estavam animadas. Na verdade, “animadas” não seria a palavra certa para descrevê-las, elas estavam extasiadas. Acredito que estavam otimistas e esperavam ansiosamente pela nova nação.  Os hotéis na cidade estavam lotados. Falta serviço e acomodação na capital, o que torna um desafio conseguir um lugar decente para dormir ou comer. Acabei ficando com um amigo egípcio que trabalha com a missão das Nações Unidas no Sudão.

Portal: Você teve problemas para entrar no país?

SA: Foi relativamente fácil de passar pela alfândega quando eu estava indo para Juba. Eu tinha um visto do governo sudanês, pelo qual você tem que pagar cerca de 50 dólares. No entanto, eu fiquei perplexo quando me cobraram mais 45 dólares, referente a uma taxa imposta às pessoas que estão indo pela primeira vez ao país. Fora isso, não foi muito complicado entrar no país.

Portal: De que forma você analisaria a separação do Sudão? Você acredita que vai trazer melhorias para o país e para o continente africano?

SA: A respeito da separação, eu acredito que foi algo inevitável. As pessoas no Sul tinham o direito de auto-determinação, e isso certamente vai trazer mudanças. As pessoas vão se sentir orgulhosas de terem o seu próprio país, livre do abuso que sofriam do regime. Não posso afirmar com certeza que os impactos serão positivos. Não quero ser pessimista, mas sinto que o novo país vai enfrentar muitos desafios e vai precisar trabalhar bastante para conseguir algo de concreto. Ainda há muita corrupção, um exército que ainda age como um grupo rebelde, muita pobreza, falta de infraestrutura e resta aquela sensação de que o povo está esperando resultados. É preciso muita paciência para melhorar as coisas.

Portal: Na sua opinião, quais eram as principais razões que fizeram com o que Sudão se separasse? A questão pode ser resumida em religião e petróleo?

SA: Várias razões levaram o Sudão à separação. A maioria das pessoas diz que o motivo foi a religião, mas eu não concordo. Há um número considerável de moradores do Sul que também são mulçumanos. Então a questão não é a religião. Você poderia dizer que o petróleo é o motivo, em certo ponto. Havia uma necessidade do povo do Sul de ter uma parte do dinheiro do petróleo já que eles têm esse direito. Mas eu acredito que há outras questões fundamentais, tais como a maneira pela qual o governo do Norte tratava o povo do Sul e as diferenças culturais. O governo do Norte nunca teve os mesmos interesses que os sulistas.

Portal: Você acredita no apoio internacional prometido, por exemplo, pelos Estados Unidos logo após a votação?

SA: Em relação a outros países apoiarem a nova nação, eu posso lhe dizer duas coisas. Primeiro, a comunidade internacional tem sido prestativa em estabelecer um referendo pacífico e também respeitou a decisão da separação. Alguns países já estão ajudando o Sul do Sudão através de programas humanitários e apoio financeiro. O que não podemos ter certeza é se essa ajuda vai continuar no futuro. O país precisa de todo apoio que puder.

Portal: Qual região terá mais dificuldade em se restabelecer, na sua opinião?

SA: Tanto o Norte quanto o Sul enfrentarão desafios. O Norte vai ter que se acostumar com a realidade de que seu país agora é menor, os campos de petróleo e a renda diminuíram e eles não comandam mais o Sul. Para os sulistas, o desafio será melhorar as instituições, o governo, as estruturas sociais, os serviços e a infra-estrutura. No entanto, o principal desafio será o de contemplar expectativas do povo.

Portal: O que mais chamou a sua atenção ao entrar no país?

SA: O que mais me chamou a atenção? A pobreza! E a desigualdade entre os ricos e os pobres. Não há classe média. Uma parte pequena da população é extremamente rica enquanto o resto é extremamente pobre.

Portal: Qual deve ser a principal preocupação dos dois governos agora que o país foi dividido?

SA: A de assegurar que haja paz e estabilidade nas regiões. Alguns fatos poderão trazer receios de uma nova guerra. Você pode ter novos conflitos de fronteira. A segurança será o principal desafio.

Portal: Você acredita que os governos do Sul e do Norte vão conseguir trabalhar juntos?

SA: Os dois governos concordaram em trabalhar juntos e só podemos esperar que isso aconteça. Há negociações sendo feitas em relação aos problemas ainda existentes, como as questões relativas a Abyei [cidade ainda disputada pelas duas regiões] e as áreas de fronteira. Há um receio de que o Norte possa provocar uma guerra, mas não acho que isso acontecerá, porque o governo do Norte agora quer impressionar o mundo através de uma atitude cooperativa e pacífica.

Portal: No fim da viagem, você foi preso. Por quê? Como você fez para sair da prisão?

SA: Nós, eu e meu amigo egípcio, fomos presos por causa do forte esquema de segurança na noite anterior ao referendo. A razão da nossa prisão foi que nós ainda estávamos na cidade depois da meia-noite. Havia um toque de recolher até esse horário, estabelecido para estrangeiros. Nós ficamos detidos por apenas duas horas, mas não fomos levados para uma unidade de polícia. Fomos mantidos no carro por duas horas e depois fomos liberados.

Portal: Qual a sua opinião sobre as últimas atitudes do presidente sudanês Al Bashir?

SA: Eu acredito que Al Bashir está em uma situação muito difícil. Há um mandato de prisão do Tribunal Penal Internacional e também uma crescente oposição a ele. Bashir está tentando evitar mais secessões porque Darfur e o leste do Sudão podem acabar tomando o mesmo rumo do Sul.

Portal: Como você acredita que o projeto da UPI pode ajudar alunos de jornalismo do mundo todo?

SA: A iniciativa da UPI é um ótimo projeto para ajudar os futuros jornalistas. A maioria dos veículos de comunicação não dá oportunidades a estudantes, mas a UPI está quebrando esta tradição mandando estudantes de jornalismo para cobrir momentos históricos, como o referendo do Sudão. O Upiu proporciona um ótimo treinamento, orientando estudantes, oferecendo-lhes ajuda e aconselhamento com editores que trabalham no mercado. O Upiu está construindo o futuro do jornalismo.