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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Estudiosos do mundo árabe analisam a crise atual

Caio Lima - Do Portal

03/03/2011

Enquanto reflexos econômicos dos confrontos no Oriente Médio e Norte da África ganham as manchetes, como o aumento da cotação do petróleo, prognósticos sociais e políticos são cuidadosamente discutidos por especialistas. A antropóloga da Universidade Federal Fluminense (UFF) Huda Bakur alerta, por exemplo, para a possibilidade de imigração desses povos, principalmente entre os jovens, para a Europa. O êxodo geraria "uma nova onda de xenofobia no continente”. Outra reflexão eloquente entre os analistas é a de que os Estados Unidos precisam repensar uma nova política externa referente ao Oriente Médio, como ressalta o professor do Departamento de História da PUC-Rio Murilo Meihy. Huda e Meihy explicaram tais visões no debate Primavera dos povos árabes: Egito, Líbia e Marrocos, terça-feira passada, na universidade. A mesa redonda contou também com o historiador e professor Mauricio Parada, também da PUC-Rio.

O ponto de partida de uma análise do atual cenário daquela região é a Tunísia. Foi o primeiro país a se rebelar contra um regime autoritário, entre os vizinhos de tradição islâmica.

– Dentro da Tunísia há um curioso modelo republicano com um conjunto de partidos de oposição que, nos últimos tempos, não havia participado das eleições. Após a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali, assumiu seu aliado Mohamed Ganuchi. O problema é que os opositores voltaram ao país sem esperança de melhora no cenário político, e criaram um novo caos. Nesse sentido, a transição que se abriu ficou bastante complicada, até porque, como o exército não tomou a mesma posição do governo, este ficou sem sustentação e acabou derrubado. Acredito que os próximos capítulos da crise tunisiana serão turbulentos – prevê Parada.

Especialista em Egito, Huda esteve no país em 2010 para desenvolver. Ela destaca que a sensação dos egípcios não era de revolta, e sim de frustração com a ditadura de Hosni Mubarak. Por isso, afirma que nunca imaginou uma onda de protestos no país.

A antropóloga esclarece que no Egito os conflitos não são étnicos, e sim religiosos. Com a crise econômica se intensificando – altos índices de desemprego e pobreza – a rivalidade religiosa voltou à tona e criou uma onda de ataques. Mas a especialista diz que só percebeu um “ar de mudança” no dia 31 de dezembro, 25 dias antes da população ir às ruas.

– Nesse dia, uma explosão numa igreja cristã de Alexandria comoveu toda a população. Para quem via de fora, essa comoção foi o primeiro momento em que os egípcios puderam se chamar de egípcios, independentemente da religião. O protesto iniciado em 25 de janeiro foi a primeira vez que ambas as comunidades religiosas estavam presentes nas ruas solicitando as velhas mudanças, de forma comum – destaca.

O Egito é um país extremamente estatatizado e as hierarquias são bem visíveis. O Exército, assim como na Tunísia, teve um papel de “árbitro”. Após a queda de Mubarak, as reivindicações por reformas democráticas abrandaram, mas não cessaram. Por conta da oposição fragmentada e de brigas internas, a antropóloga espera que os egípcios encontrem dificuldades em eleger o melhor rumo político para o país. “Mas parece que algo, de fato, mudou. É preciso esperar para saber até que ponto vai mudar para melhor ”, pondera Huda.

Já a Líbia apresenta outras peculiaridades, ressalta Meihy. Ele lembra que, além de ser o Estado africano há mais tempo com o mesmo líder (Muammar Kadafi, há 42 anos no poder), o país não tem imposto de renda, pois a riqueza nacional é proveniente do petróleo. Também as decisões políticas são totalmente atreladas à atividade petroleira. Para o historiador, as constantes mudanças do rumo político de Kadafi confundiram a própria população líbia:

– A Líbia era uma monarquia. Quando assumiu o poder, Kadafi tentou construir uma imagem revolucionária frente ao Ocidente. Aliado a isso, criou uma nova forma política de democracia chamada jamairia – "o poder das massas", numa tradução para o português. Esse novo modelo não incluía eleições e qualquer forma de partidarismo era considerada ditadura.

Quando, em 1973, a crise mundial do petróleo veio à tona, a Líbia, assim como outros países árabes produtores, aumentou de forma substancial seu orçamento e investiu na guarda militar. Na avaliação de Meihy, a conseqüência imediata foi a política de radicalização, confronto e isolamento com o Ocidente. Quando o preço do petróleo se estabilizou, em meados da década de 1980, Kadafi mudou o discurso. Na década seguinte, já sinalizava para novos conceitos, como nação e segurança.

Meihy acredita ser importante levar em consideração o fator petróleo, “uma vez que dentro desse cenário de revoltas árabes, a Líbia é o único grande exportador de petróleo que sofre diretamente o impacto das revoltas populares”:

– Isso tem conseqüências imediatas para a economia mundial de 2012. Calcula-se que a cada cinco dólares de aumento no barril de petróleo, há um recuo de 0,1% no PIB mundial. 

O caso do Marrocos é diferente dos países que estão no centro das revoltas. Lá o cenário é mais calmo, pois não aponta para a substituição do governo. A mudança nesse país, explica o professor Maurício Parada, é mais reformista do que revolucionária:

– A população marroquina passa por um momento de luta contra a polícia corrupta, subornos em cargos públicos, violência e por melhores condições de vida. Por isso não se trata de uma revolução, e sim de uma reforma. Diferentemente do que muitos possam imaginar, a situação ali é muito complexa, assim como nos países vizinhos.