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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Especialistas apontam os desfiles históricos na Sapucaí

Mauro Pimentel - Do Portal

03/03/2011

Liesa/Divulgação

O que faz um desfile de carnaval inesquecível? Este ano, a superação é a palavra de ordem das escolas atingidas pelo incêndio na Cidade do Samba, no início de fevereiro. No passado, criatividade, união e até um temporal fizeram que alguns desfiles permanecessem na memória dos foliões. Segundo especialistas consultados pelo Portal PUC-Rio Digital, Mangueira, Beija-Flor e Vila Isabel protagonizaram os três maiores desfiles da história da Sapucaí.

“Um dos melhores desfiles, talvez o melhor, de uma escola de samba em todos os tempos”. É como o jornalista Sérgio Cabral, entusiasmado, lembra da Vila Isabel de 1988, que fez da falta de dinheiro o seu trunfo no carnaval.

– Se você pensar nos quesitos técnicos, muitos desfiles se equivalem. Mas se você procurar pela emoção, o Kizomba se destaca.

O diretor cultural da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Hiram Araújo, lembra que o tema da escola de Noel Rosa, “Kizomba, festa da raça”, gerou forte mobilização, especialmente entre os negros.

– Nações africanas vieram de todos os cantos para participar do desfile. Foi a exaltação da cultura negra.

Para o professor de antropologia da UFF Nílton Santos, autor do livro A arte do efêmero, o desfile da Vila Isabel se destacou pela simplicidade das alegorias, feitas com palha, isopor e fibras de folha de palmeira.

 Liesa/Divulgação Outra apresentação que entrou para a história dos grandes carnavais foi a da Mangueira, em 1984, na inauguração do Sambódromo. A escola desfilou em ambos os sentidos da passarela. Os integrantes se juntaram ao público na Praça da Apoteose e seguiram no sentido contrário. Para o professor Nílton Santos, essa foi a única vez que a Apoteose foi utilizada de acordo com a ideia de seu idealizador, o arquiteto Oscar Niemeyer.

– Ele desenhou a Apoteose para que fosse um lugar de evolução da escola. A população assistia aos desfiles de perto e na empolgação de ver a escola foi natural o povo entrar na Sapucaí. As regras eram menores. A invasão do povo não penalizava a escola. Hoje isso é impossível de acontecer.

Por várias décadas o jornalista Sérgio Cabral trabalhou na cobertura do carnaval e confessa que durante o desfile de 1984 da Mangueira ficou tentado a trocar de lugar.

– Confesso que deu uma vontade de ir para a passarela.

 Liesa/Divulgação Em 1989, o carnavalesco Joãozinho Trinta abdicou do seu estilo luxuoso e trouxe o lixo para o carnaval. Com o tema “Ratos e Urubus”, na Beija-Flor, mendigos, personagens muitas vezes ignorados na rotina de uma grande cidade, foram alçados ao posto de integrantes da comissão de frente da escola.

– A ala de abertura do desfile foi uma das coisa mais lindas que já vi numa escola de samba – diz Sérgio Cabral.

Para completar, o Cristo coberto por um saco de lixo, lembra Nílton Santos: “Foi uma grande sacada, gerou um grande impacto”. O professor recorda que a cidade esperava que o título fosse para a agremiação de Nilópolis, o que não aconteceu. A vencedora daquele foi a Imperatriz Leopoldinense.

Um pódio, três posições, é pouco para contar tantas histórias carnavalescas. Hiram Araújo, diretor cultural da Liesa, citou a coragem do tema político da Grande Rio de 1998, sobre Luís Carlos Prestes, "o cavaleiro da esperança", e a Beija-Flor de 1986, que contou a história do futebol, apresentada com água pelos joelhos.