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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Favorecimentos norteiam escolha dos sambas-enredo

Gabriel Picanço e Gustavo Rocha - Do Portal

03/03/2011

Arte: Isabela Sued

O processo de escolha do samba-enredo das escolas do carnaval carioca é marcado por politicagens e favorecimentos, além de altos investimentos exigidos aos compositores. Segundo especialistas, originalidade, beleza da melodia e lirismo da letra não são critérios que norteiam a decisão dos presidentes e diretores das agremiações. Na realidade, vencem os sambistas que mais têm a oferecer financeiramente à escola.

Uma alta quantia de dinheiro, por exemplo, deve ser investida por quem quer participar da disputa. É preciso contratar músicos para gravar o samba em um estúdio e para tocá-lo na quadra a cada final de semana durante os meses em que ocorre o concurso. Se a composição é classificada para a próxima fase, é necessário pagá-los mais uma vez para uma nova apresentação no fim de semana seguinte. Sem contar a própria taxa de inscrição na competição.

 Arquivo pessoal – Ainda tenho que pagar a cerveja e o táxi dos músicos que contrato e de quem vai à quadra torcer para mim – conta Lula Branco Martins, professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, que já participou de eliminatórias na Unidos da Tijuca e Império da Tijuca. – Eu e meu parceiro já gastamos, em uma só edição, cerca de cinco mil reais.  

Para Marco Maciel, colunista de um site especializado em Carnaval, os diretores da escola geralmente preferem compositores que mais mobilizam e trazem recursos para a agremiação, que atraem "mais gente para tomar cerveja na porta da quadra".  

– Se alguém tenta fazer um samba diferenciado, acaba caindo na graça do público, mas não ganha, já que os patrões não querem arriscar – explica Maciel.

Junior Escafura, diretor de harmonia da Portela, defende os critérios de escolha e afirma que a qualidade musical ainda define a escolha do samba-enredo. No entanto, ele confirma o alto investimento feito pelos compositores:

- Não vai ganhar o samba com maior torcida, mas os compositores correm atrás para aumentá-la. Fazem churrascos, confeccionam bandeiras. Querem o maior número de pessoas possível cantando na quadra. É assim desde os últimos 20 ou 30 anos - pondera.

Segundo especialistas, a preferência à parceria de sambistas que mobiliza mais torcedores nos dias da disputa empobrece o nível técnico da competição. A qualidade musical fica relegada a segundo plano por diretores e presidentes, os sambas-enredo se tornam repetitivos. Assim, as parcerias que ganham são quase sempre as mesmas, com sambas acelerados e de estrutura lírica semelhantes entre si.

– A Vila Isabel ainda faz um samba mais cadenciado, a Beija-Flor faz um mais diferenciado – ressalva o professor Lula Branco Martins. – Mas os sambas aceitos são sempre os “marcheados”, os animados.

André Diniz, historiador e autor do livro Almanaque do Samba, considera, no entanto, impossível conter as mudanças no samba-enredo com o passar do tempo.

 Juliana Lins – Geralmente, quem compara o presente com o passado tem um ar de nostalgia, uma necessidade de perpetuar no agora algo que já faz parte da história – diz. – O mundo muda, nem sempre para melhor.

O processo de escolha do samba-enredo é o mesmo em todas as escolas, com poucas diferenças entre si. Começa dias após o desfile na Sapucaí, quando presidente e diretores se reúnem para eleger o enredo do ano seguinte. Após uma extensa pesquisa sobre o assunto, o carnavalesco cria os carros alegóricos e escreve a sinopse, texto no qual devem se basear os compositores. A disputa tem como palco a própria quadra da agremiação, entre os meses de julho e agosto. Ali, músicos são contratados pelas parcerias para apresentar os sambas. Presidente, diretores e carnavalesco decidem quais sambas passam para as fases seguintes e elegem a composição vencedora, em outubro.

Não é um concurso de samba. É um concurso de "se eu freqüento a escola", "se eu consigo levar gente pra lá", e eu não consigo. Já cantei samba para duas pessoas: meu amigo e minha namorada. Também é um concurso muito visado agora, muito profissional. Querem ganhar o carnaval com um samba que dê certo na avenida, e eu não consigo pensar muito nisso, eu penso mais na beleza da melodia, na beleza do verso – diz o professor de jornalismo da PUC-Rio, Lula Branco Martins.