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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

"Carnaval é música, é dança. A fantasia é detalhe"

Carolina Bastos e Luisa Nolasco - Do Portal

03/03/2011

Luísa Nolasco

A poucos dias para os desfiles do carnaval carioca e em meio a uma proliferação dos blocos de rua, o carnaval do Rio se renova na convergência entre a música popular e a dança. "Música e dança são a essência do carnaval. Fantasia é um detalhe", provoca o professor Julio Diniz, diretor do Departamento de Letras da PUC-Rio e coordenador do grupo de pesquisa Nelim, que estuda a relação da música popular brasileira com a literatura. Nesta entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, Julio destaca a a unicidade da festa carioca e explica por que, diferentemente de alguns críticos, considera positiva a comercialização do carnaval brasileiro.

Portal PUC-Rio Digital: Qual a importância da música para a cultura brasileira?

Julio Diniz: A música é a única coisa que atravessa todo o imaginário brasileiro. Está em tudo que é lugar: literatura, teatro, cinema, televisão, artes plásticas. Ela marca a força e a potência brasileiras. Falar de música brasileira é muito mais do que falar de samba, choro ou MPB. É falar de todos os ritmos, não há limites. O Brasil tem um ouvido musical impressionante.

Portal: Como essa variedade musical se converge no carnaval?

Julio: A música é a base do carnaval. Música e dança no Brasil estão conjugados, e são esses os dois fatores fundamentais do carnaval. Mas não é assim em todos os lugares do mundo. A tradição erudita, por exemplo, oferece concertos maravilhosos, mas ninguém pula ou dança. A música erudita é da cintura para cima, é para contemplar, ouvir, fazer um mergulho interno. Mexe com o silêncio, com a individualidade, com a solidão. A música popular brasileira é o oposto disso. Parte do meridiano para cima e da cintura para baixo. Não é a toa que Nelson Motta brinca que é “música pra pular brasileira”. E o carnaval é uma das grandes épocas do ano em que a “música pra pular brasileira” está presente. Se as escolas atingidas pelo incêndio quisessem radicalizar e entrar só com samba e dança, teria carnaval. O espírito do carnaval é o corpo em movimento e a música, a fantasia é detalhe.

 Luísa Nolasco

Portal: Então para o senhor a fantasia não é necessária?

Julio: Perfeito. Há vários casos de mulheres que só usam uma sombra, uma fita no cabelo ou um batom mais forte. Um vestido branco com colares coloridos já é o suficiente para sair dançando. Qualquer coisa é fantasia. Nós temos a maior ópera ao ar livre do mundo. Você não precisa da fantasia para aproveitar isso. Principalmente no calor do Rio de Janeiro. Quando eu e meu irmão éramos crianças, nos fantasiávamos obrigatoriamente. Mas hoje em dia, com os 40ºC, o carioca coloca uma fantasia muito “tô quase nu” na criança, ou nem coloca nada. O importante é a alegria, e ela não está na fantasia. Fantasia é só um detalhe a mais.

Portal: Qual o significado do carnaval?

Julio: O carnaval é tão fundamental quanto outras manifestações que existem dentro do Brasil, sejam elas artísticas ou não. Carnaval é tão importante quanto a eleição de quatro em quatro anos, quanto o futebol. E ele é sério. Ninguém aqui acha que o carnaval é uma zona completa, uma desordem. O espírito do carnaval é da desordem, mas hoje há ordenação do carnaval. Ele é uma inversão de valores. Aquele homem machão, casado, com filhos e netos, super tradicional, com terno e gravata indo para o escritório todo dia, se veste de mulher no carnaval. Ele pega a roupa da esposa, coloca pó de arroz e sai na rua para se divertir. Inverter as polaridades não tem nada a ver com sexualidade, e sim com alegria. O cara é durão a vida inteira e naqueles quatro dias se liberta. É semelhante com o mestre-sala e a porta-bandeira. A dupla sempre foi pobre e mora em comunidades carentes. No carnaval, viram aristocratas. Vestem-se de nobres franceses, com peruca branca, leque, vestidos enormes. Carnaval é a inversão dos valores, inversão de quem você é. É quando casa e rua se misturam.

Portal: Como o senhor avalia a relação da identidade do carnaval com a cultura brasileira?

Julio: Eu acho que o carnaval tem uma identidade em particular com a cultura do Rio de Janeiro. Que os paulistas, mineiros, gaúchos, catarinenses e brasilienses me perdoem, mas carnaval mesmo é no Rio. Existem dois outros carnavais fortes: o da Bahia e o de Pernambuco. Mas eles são diferentes. O carnaval do Rio é a organização dos desfiles e a desorganização dos blocos de rua. Só quem vive no Rio ou quem passa carnaval aqui consegue perceber essa explosão. O carnaval da Bahia é um carnaval muito certinho, muito comercial. Há uma certa noção de escravidão nele. A elite fica com seus abadás de um lado, e o povão do outro. O carnaval de Pernambuco ainda é um carnaval muito popular nas ruas, mas o do Rio ainda vence pela democracia.

Portal: Por que o senhor acha que a identidade do carnaval do Rio é tão singular?

Julio: O carioca é o carioca. Eu sou apaixonado pelo Rio. O Rio consegue ser esse lugar da descontração, esse lugar iluminado, esse lugar solar, essa promessa de felicidade. Isso, claro, ao lado de violência, crise social, barra pesada... A gente sabe disso. O Rio não é esse paraíso. Mas, por outro lado, é muito cosmopolita. Você está no Rio e está no mundo ao mesmo tempo. O Rio é uma cidade em que você tem tudo pertinho, com uma geografia maravilhosa. Mesmo maltratada em sua arquitetura, ela ainda é demais na natureza. Ela está expremida entre o mar e a montanha. E eu acho que o carnaval tem tudo a ver com essa cidade, historicamente falando. Não só com a geografia dessa cidade, tem a ver com o espírito. O espírito do carioca, que, com toda a violência e transformação, permanece, e acho que cada vez mais para cima.

Portal: Qual a importância econômica do carnaval?

Julio: O carnaval sempre foi um divisor de águas, em termos econômicos e de produção cultural. Carnaval é uma máquina econômica, de ganhar dinheiro. E eu não vejo nenhum problema nisso, porque as pessoas precisam ganhar dinheiro, precisam sobreviver. Eu quero que todo mundo fique rico, quero luxo para todos. Eu quero que todo mundo tenha muita grana para fazer um super desfile. Como dizia Nelson Rodrigues, "neguinho tem complexo de vira-lata”. As pessoas acham que no Brasil as coisas têm que ser para baixo. Eu acho que o carnaval tem que ser o oposto.

Portal: Como o senhor avalia a influência do carnaval na MPB?

Julio: Antigamente, existiam dois tipos de samba: o samba para o carnaval – que só tocava no próprio feriado – e o samba de meio de ano, que tocava o ano inteiro. O samba de carnaval é basicamente o samba-enredo ou a marchinha, mas Dorival Caymmi, por exemplo, fez um samba de meio de ano chamado “Eu vou para Maracalha”, que explodiu no carnaval. Então, a música de carnaval tem status dentro da MPB. Qualquer grande compositor e intérprete da MPB obrigatoriamente tem que saber música de carnaval, marchinha e samba, mesmo que não cante. Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan e todas as cantoras desde Maria Betânia, Maysa, Maria Rita até Maria Gadu: todos passam pelas músicas de carnaval. Caetano Veloso gravou o samba da União da Ilha “É hoje” e explodiu, mesmo quando não foi carnaval. Fernanda Abreu fez uma gravação “funkeada” de “Aquarela do Brasil”, de Silas de Oliveira, em outro ritmo, maravilhoso. Ela pegou esse samba do carnaval de 1964 e fez uma música que ficou nesse limite da periferia que eu acho muito legal. Então a música de carnaval pertence à história da música popular brasileira. Não é uma relação de dependência, e sim de diálogo.

 Luísa Nolasco

Portal: O que o senhor acha dessa nova geração da música brasileira?

Julio: É incrível, ela aprendeu com as tradições. Ninguém disse que tinha que romper. Eles não precisam manter a “tradição tão tradicional”. Ao mesmo tempo, tem todo um perfil de um pessoal que construiu uma relação com o hip hop e a música eletrônica, criando uma democracia na música brasileira. Não suporto essa discussão em que as pessoas usam critério de gosto ou de classificação. Ninguém é obrigado a gostar de rap ou de samba. Mas tem que entender que é tudo parte da cultura musical brasileira. Quando eu danço, não me importo com qual música está tocando, eu só quero dançar.

Portal: Em outra entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o senhor mencionou a definição de mulato como um “lugar sem definição fechada, um lugar da invenção”. Existe alguma ligação do carnaval com esse termo?

Julio: Cada vez mais. Por uma razão: o carnaval não é uma festa de negro nem de branco. O carnaval é cada vez mais mulato, mais misturado. Mas não é misturado no sentido racial do termo, e sim cultural. Nos desfiles, nas festas, blocos e bailes, há gringo e carioca. Tem turista misturado com gente da comunidade, todas as etnias contempladas. É isso que eu chamo de uma “cultura mulata”. Mulato é o grande salto como categoria para entender o Brasil. É um espírito do Brasil. Caetano Veloso tem essa “mulatice”, esse lugar intermediário, esse lugar mulato que é o próprio destino do Brasil, e do Rio também. O Rio de Janeiro está entre a montanha e o mar: esse é o lugar da cultura carioca, no meio de tudo.

Portal: Qual o peso do resgate contemporâneo das marchinhas para essa mistura?

Julio: Acho maravilhoso. É realmente mais um resgate do que a recriação delas. Temos até concurso de marchinhas. Mas acredito que seja necessária a criação de novas marchinhas, porque essa cultura é incrível. É só analisar o sucesso do musical “Sassaricando”, de Sérgio Cabral e Rosa Magalhães, para perceber o diferencial da marchinha: ela é sacana e irônica, e não pode ter nenhum tipo de policiamento, porque isso é um saco. É carnaval! Uma coisa é você exercitar o preconceito, outra é você brincar e desconstruí-lo. Marchinha tem que criticar, brincar, satirizar todos os tipos sociais. Agora, marchinha é feita para o baile, com serpentina e confete. Nos blocos, acho que o samba é mais apropriado.

Portal: E a nova proliferação dos blocos de rua?

Julio: Maravilhoso. Mas temos de pensar nas pessoas que moram nas ruas onde os blocos passam. São necessários muitos banheiros e segurança, porque a quantidade de gente que vai aos blocos é enorme. Porém, não acho que a prefeitura deve proibir alguns blocos ou coisa assim. Acho a disciplina importante, mas sem perder a popularização. Seja no subúrbio, seja na Zona Sul, os blocos são todos maravilhosos. Então eu defendo a proliferação dos blocos, por ser democrática, entra quem quiser. Por fim, defendo também os carnavais de praça da Penha, Santa Cruz e de Campo Grande. Com a instalação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), acredito que esses lugares se tornarão uma festa maravilhosa. O Morro do Alemão também vai arrebentar, porque o povo de lá – antes oprimido – quer isso há muito tempo, e agora pode ter, com segurança.

Portal: Como o senhor relaciona as mudanças do carnaval com as mudanças da sociedade brasileira?

Julio: Elas estão extremamente interligadas. O carnaval, como rito de passagem, como festa, como manifestação cultural, muda apenas algumas expressões, se atualizando e se customizando. Mas o desfile da escola de samba é igual desde que foi criado, desde que surgiu como uma resposta à ordem, desorganizar a ordem para poder reorganizá-la de outra forma. Se a sociedade muda, o carnaval muda também. O carnaval antigamente eram bailes glamorosos aonde os homens iam de smoking e as mulheres elegantes, até as atrizes americanas vinham para cá. O carnaval era lugar para cigarros, charme, bocas, uísque e gente se pegando (risos). Acho que recentemente tivemos uma incorporação do espírito gay no carnaval, no sentido da alegria. O carnaval está cada vez mais democrático. A sociedade mudou seus valores e começou a se aproveitar das manifestações culturais para ganhar dinheiro. E é assim que se faz um bom carnaval.

Portal: O senhor acha que possa ainda existir uma exclusão social no carnaval carioca?

Julio: Eu acho o samba democrático. Eu já desfilei do lado do meu porteiro. E o Brasil é assim: rico, milionário, comunidade, classe média, tudo misturado. Em relação às arquibancadas da Sapucaí, eu acho que as pessoas enlouquecem. Acho que as pessoas gostam de assistir ao samba, fazem o diabo ali dentro. Mas, se fomos parar para ver os camarotes, perceberemos o carnaval dos grandes patrocinadores. A arquibancada é do público, do povão, os camarotes não. E é por isso que ele ganha o perfil comercial, e não há problema em ser assim, enquanto o resultado for bom. O carnaval se profissionalizou, e muito. E eu vou dizer a vocês: as três escolas que sofreram com o incêndio entrarão super quentes na avenida, com todas as dificuldades. Não acho que a escola de samba seja uma coisa isolada do povo, ainda que antigamente não existisse toda a profissionalização que existe hoje.

Portal: Quais são os impactos que a mídia traz para o carnaval?

Julio: A televisão determina o ritmo do carnaval para pior, porque ela tem seu timing, sua estrutura. É claro que ela colabora financeiramente para que o carnaval melhore e tudo ocorra corretamente, mas ela tem seu ritmo e seus próprios interesses. E não há maneira que possa segurar o telespectador a ver o desfile inteiro, então a TV inventa. Os apresentadores estão lá só para valorizar as celebridades e as marcas. Isso é um saco.

Portal: O que é o carnaval na era da internet?

Julio: O melhor do carnaval é o presencial. É essencial estar naquela multidão, todo mundo junto, sambando, compartilhando, suando junto. O som tem que ser ao vivo, tem que ter alguém tocando, tem que ter uma bandinha. Nesse sentido, o carnaval é século XIX. A internet é veículo, não é essência. Ela serve para ampliar a rede, pode-se ate usá-la como lugar de criação, divulgação de bloco, de integração. Mas o carnaval é música e dança ao vivo, ponto.