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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Aterro de Jardim Gramacho marca presença no Oscar

Evandro Lima Rodrigues e Stéphanie Saramago - Do Portal

03/03/2011

 Mauro Pimentel

De Duque de Caxias ao Oscar. O presidente da Associação de Catadores do Aterro de Jardim Gramacho, Sebastião Carlos dos Santos, um dos personagens principais do documentário "Lixo Extraordinário", acompanhou o artista plástico Vik Muniz na maior premiação do cinema mundial, que ocorreu no último domingo (27/02). O filme retrata a realidade dos catadores de materiais recicláveis e concorreu ao Oscar 2011 como melhor documentário. A coprodução de Brasil e Grã-Bretanha demorou três anos para ser gravada no aterro em Duque de Caxias, no estado do Rio.

O documentário se passa no Aterro de Jardim Gramacho, o maior da América Latina que também já foi cenário de outro filme premiado, “Estamira” (2004), de Marcos Prado. Cerca de 75% de todo o lixo produzido na capital do Rio de Janeiro e nas cidades de Duque de Caxias, Nilópolis, Queimados e São João de Meriti são depositados na região, aproximadamente 9 mil toneladas de lixo por dia. Oficialmente, a previsão é a de que o aterro seja fechado este ano, mas segundo o administrador do local, Lúcio Alves, “um lugar que recebe essa quantidade de lixo por dia levará algum tempo para encerrar de vez suas atividades. É um processo lento que deverá durar pelo menos dois anos”, afirmou.

 Stéphanie Saramago

Com uma área hoje de 1.300.000 m², Alves ressalta que o aterro sofre processo de revitalização desde 1996, uma iniciativa da Prefeitura do Rio através da Comlurb.

– Além do tratamento de chorume [líquido proveniente da decomposição da matéria orgânica], a implantação do sistema de purificação do gás metano para comercialização já está em fase de conclusão – afirma o administrador.

Segundo Alves, após a purificação inicia-se o processo da queima do biogás. O processo prevê uma diminuição do efeito estufa pelo aterro em 21 vezes e faz com que o local ganhe créditos de carbono, como estabelecido pelo Tratado de Kyoto. A comercialização desse gás garante a sustentabilidade do projeto. Os lucros serão divididos entre a Prefeitura de Caxias e do Rio. Também serão feitos investimentos na revitalização e valorização do bairro Jardim Gramacho. Além disso, uma parte desse resultado será destinada aos catadores de materiais recicláveis:

– R$ 1,4 milhão será repassado anualmente como um fundo de apoio ao catador durante os 14 anos seguintes após o fechamento do aterro – informou Alves.

 Mauro Pimentel

O aterro de Jardim Gramacho, depois de ter suas atividades encerradas, ainda deverá ser monitorado por 15 anos. Segundo Alves, o chorume deve continuar a ser tratado e a produção de gás monitorada.

Além desses projetos, há ainda o recém-lançado Programa de Inclusão Social dos Catadores, mais um fundo destinado aos trabalhadores do local. A inciativa é do Banco Mundial em parceria com o governo japonês e a Caixa Econômica, responsável pela administração dos recursos no Brasil. O acordo foi assinado, e um financiamento a fundo perdido de US$2,7 milhões beneficiará, segundo o banco, pessoas que vivem da reciclagem informal.

Consultor do Banco Mundial, Peter Cohen contou que o programa ainda não está funcionando, mas os primeiros aterros sanitários que irão receber os benefícios são o de Jardim Gramacho e Itaoca, no Rio de Janeiro. O objetivo, segundo Cohen, é intervir antes do fechamento de um "lixão", para que os catadores tenham uma alternativa:

– Este projeto não vem com soluções já fechadas, foi concebido para apoiar as associações e dessa forma desenvolver junto com os catadores uma solução adequada para eles – afirmou Cohen.

 Stéphanie Saramago Por lei, a entrada de catadores em aterros é ilegal. O trabalho não lhes oferece nenhuma segurança e os riscos são grandes, mas, segundo o coordenador do aterro de Jardim Gramacho, a permanência deles foi uma questão social:

– O aterro surgiu como lixão, a entrada deles é ilegal, mas como não há uma política de realocação dessas pessoas, elas não poderiam ser expulsas. O aterro é a fonte de renda delas – ressaltou Alves.

O número de catadores já chegou a 5 mil pessoas. Hoje se reduz a cerca de 1300. A Associação de Catadores do Aterro, da qual Sebastião Carlos dos Santos é presidente, tem 1480 catadores associados. Segundo Sebastião, a associação é formada por uma diretoria, um presidente e um conselho fiscal. Além deles, outras quatro cooperativas funcionam da mesma forma.

O trabalho desenvolvido nas associações é basicamente o de separar os materiais recicláveis, para depois serem vendidos às empresas e então reciclados. O catador Richard da Silva, de 19 anos, é associado e trabalha há apenas seis meses no aterro. Mesmo sem ter concluído o ensino médio, o catador considera bom seu trabalho, tem uma renda semanal de cerca de R$500,00, comprou uma moto e pode definir seus horários.

 Stéphanie Saramago

No aterro, diariamente e 24 horas por dia, os catadores trabalham em diferentes turnos separando material reciclável do lixo. O que será coletado é decidido pelos catadores, que se baseiam no valor do material – como garrafa pet, papelão e sucata. Como Richard, outros trabalhadores cadastrados contam com um caminhão que leva a coleta do aterro até a associação, onde será separada de acordo com a qualidade e a densidade do material. Os não-associados vendem o material reciclável para depósitos.

Professora da PUC-Rio, Valéria Pereira Bastos trabalha há 15 anos no local, desde que era apenas um "lixão". Hoje atua como consultora da empresa operadora do aterro, a Nova Gramacho. Ao longo desse anos, vem realizando um trabalho de conscientização com os catadores, ressaltando a ideia da organização deles em cooperativas, o que segundo ela é uma garantia de trabalho e renda:

– É fundamental fazer com que o catador tenha clareza que o trabalho dele é importante, mas a forma que grande parte ainda executa não é a ideal. O ideal é que eles possam se reunir, se organizar em cooperativas, mas trabalhando com a coleta seletiva de forma mais salubre, com equipamentos de proteção individual – ressaltou Valéria.

 Mauro Pimentel

O presidente da Associação dos Catadores lembra que não existe política de coleta seletiva na maioria dos municípios. De todo o material reciclável que chega à associação, apenas 15% é da coleta seletiva. Segundo Sebastião, o documentário rodado no local ressalta a questão social brasileira:

– "Lixo Extraordinário" mostra as pessoas que vivem disso, que a reciclagem no Brasil não se deu por causa de educação ambiental, como nos países da Europa. A reciclagem no Brasil se deu pela exclusão social e pela pobreza – afirmou.

O catador é uma figura fundamental na cadeia da reciclagem. Não à toa, o encerramento do aterro é a principal questão discutida no momento pelas cooperativas e pela administração do local e foi tema do documentário idealizado pelo artista Vik Muniz, com a participação do presidente da Associação de Catadores do Aterro de Jardim Gramacho:

– Eu sou mais um que tive a sorte de ter a história contada, que se identifica com muitas daqui. Minha participação no filme também se dá na questão de levantar os questionamentos, o próprio fechamento do aterro e a inclusão social dos catadores. O filme mostra a necessidade de se refletir sobre o consumo – afirmou Sebastião.

Para ele, é preciso discutir uma política de coleta seletiva. Sebastião lembra que o que chega à associação não é lixo, mas material reciclável.

O ideal, segundo Lúcio Alves, coordenador do aterro, seria buscar alternativas de trabalho para os catadores, como, por exemplo, uma gestão na reciclagem, para que eles possam estar neste mercado.

– Se o catador pensar em ficar só no aterro de lixo e o aterro fechar, ele não pode mais catar, não tem mais renda. Eles têm de partir para algum caminho que lhes dê um futuro melhor. E não depender de um aterro.

Trabalho árduo

Os fotógrafos Mauro Pimentel e Stéphanie Saramago retrataram as condições de trabalho que homens e mulheres enfrentam diariamente, debaixo de sol forte, para catar lixo no aterro sanitário de Jardim Gramacho. Acesse aqui.