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Rio de Janeiro, 21 de junho de 2024


Economia

Economistas apontam riscos da crise no Oriente Médio

Caio Lima - Do Portal

25/02/2011

Arte: Luisa Nolasco

A economia mundial está em alerta. A recuperação ensaiada pelos mercados americano e europeu desde a turbulência financeira de 2008 esbarra na incerteza decorrente dos conflitos políticos no Oriente Médio e Norte da África. Incerteza, aliás, é o único consenso entre os analistas sobre a extensão do baque econômico resultante dos confrontos e das novas arquiteturas de poder naquela região. A consequência imediata, observam especialistas, é o aumento da especulação, que fez disparar o preço do petróleo. Com a notícia de que estaria suspensa metade da produção de petróleo da Líbia – atual centro do furacão político e nona reserva mundial –, a cotação do barril chegou a preocupantes US$ 117 nesta quinta-feira.

Relatório da Agência Internacional de Energia alerta para a possibilidade de uma “zona de perigo”: o salto do preço do petróleo impulsionaria a inflação, que já não é baixa, e poderia desencadear um efeito dominó nocivo. Embora reconheçam que esse risco seja plausível, analistas ainda consideram prematuros prognósticos econômicos. Só ganharão nitidez quando o novo tabuleiro político estiver configurado. 

– É difícil saber para onde vai caminhar essa crise. Uma coisa é certa. As ditaduras existiram e caíram. O problema é que a sociedade árabe é diferente da ocidental, então é complicado dizer o que vai surgir dessas mudanças de poder. O que é inegável é a questão do petróleo. A demanda é grande, as fontes alternativas são caras e esses países, hoje, estão estruturados de tal forma que ainda têm produção. Se os países ficarem sem liderança, podem criar um caos econômico até que se organizem essas sociedades, gerando impactos fortes sobre preços internacionais – analisa a professora do Departamento de Economia da PUC-Rio Eliane Gottlieb.

Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professora na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls, concorda que ainda é cedo para projetar o impacto econômico dos conflitos. Mesmo assim, ela arrisca dois cenários:

– O mais pessimista é imaginar que a tensão no mundo árabe tende a se espalhar, criando um quadro similar ao da grande crise do petróleo em 1973 (na qual o preço do barril subiu até 400% em cinco meses), o que acarretaria em mais uma grande recessão mundial. O cenário menos pessimista é ver a situação, com toda essa questão da Líbia e do aumento no valor do petróleo, apenas como um primeiro momento de especulações de curto prazo. Isso se acomodaria mais à frente e o choque seria apenas momentâneo. É muito cedo para imaginar o pior cenário.

Já o professor de estratégia da FGV Ricardo Teixeira avalia que "o problema vai além da elevação de custo do petróleo. Ele teme um "efeito cascata":

– O aumento da cotação, aliado à importância que o petróleo tem na matriz energética mundial, cria um efeito cascata. Pois o óleo negro mexe com toda a cadeia produtiva e, principalmente, na área de transporte.

O economista considera improvável, no entanto, uma grande recessão:

– Do ponto de vista do fornecimento, a normalidade deve ser estabelecida em breve, pois a Líbia não pode simplesmente deixar de lado a renda oriunda do petróleo. Além disso, hoje é diferente de outros tempos. Não acredito que essa crise no mundo árabe vá se estender, por conta da transparência com que os fatos estão ocorrendo. O mundo está de olho através das mídias sociais – ressalta.

O momento de recuparação da economia mundial atenua, de certa forma, o impacto inflacionário. Eliane explica que a demanda inferior à das fases de maior crescimento econômico alivia a pressão para o aumento dos preços.

– É uma simples equação de oferta e demanda. Se os países estivessem em pleno crescimento, a demanda por petróleo seria maior e os estoques estariam muito mais baixos, ou seja, o impacto seria mais doloroso – pondera a professora.

Em relação aos possíveis problemas para economia brasileira, Lia e Teixeira enxergam um efeito duplo da elevação no custo do petróleo. “Por um lado é bom, pois o Brasil também é exportador. Mas, como o Brasil também importa, ficamos no meio termo”, opina a economista.

– Em princípio, essa crise abre espaço para os que estavam apostando nas nossas reservas do pré-sal. Isso é positivo, pois o Brasil pode avançar na produção. Porém, em relação aos custos, o Brasil vai sofrer como todos os países, mas nada grave – acredita Teixeira.