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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Professor crê no Egito democrático

Daniel Cavalcanti - Do Portal

25/02/2011

Victor SerebrenickHá um mês, as revoltas no Oriente Médio têm transformado a região. Os protestos iniciados na Tunísia, que derrubaram o ditador Zine el-Abidine Ben Ali, no dia 14 de janeiro, já são considerados acontecimentos históricos por especialistas e causaram um efeito dominó, que progrediu na queda de Hosni Mubaraki no Egito e, agora, com protestos na Líbia, Iêmen, Jordânia e outros países da região e do norte da África. Na quarta-feira (23/02), em palestra no Centro Cultural Midrash, Bernardo Kocher, professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que as revoltas ocorridas no mundo árabe, desde o último mês, representam "uma nova conjuntura no Oriente Médio".

Kocher destacou o papel dos sindicatos na revolta egípcia. Segundo ele, os líderes sindicais “minaram o poder de Mubarak", ao longo dos anos. No entanto, "não derrubaram o ditador sozinhos”, a Irmandade Muçulmana, por exemplo, para o especialista, teve um papel destacado no levante. Com as revoltas, o professor acredita que "estamos caminhando para uma sociabilidade entre Oriente e Ocidente", considerando que "foi difícil para o mundo islâmico aceitar instituições ocidentais".

Kocher ressaltou que o Oriente Médio passou, ao longo da história, por diversas mudanças em sua estrutura social, inclusive com o fortalecimento Islã-político laico, de caráter mais próximo do democrático. No entanto, para o professor, os conflitos da Guerra Fria minaram a força desses movimentos. “A Guerra do Golfo acabou com o Islã-político laico”, sustentou, observando que os blocos ocidentais, como os Estados Unidos e a União Europeia, têm ajudado pouco e estão entre os responsáveis pelo sentimento antiocidental presente no povo islâmico.

– O que vivemos hoje é um efeito bumerangue do que houve na Guerra Fria – afirmou a jornalista Renata Malkes, que atuou como mediadora da palestra. Segundo ela, as revoltas atacam as estruturas estabelecidas na região durante o antigo conflito entre o capitalismo americano e o comunismo soviético.

A jornalista contou um pouco da experiência vivida na região, destacando o quão diferentes são as subdivisões do islamismo, os xiitas e os sunitas. “Tendemos a colocar todos os povos islâmicos em uma só ‘sacola’, mas existem grandes diferenças entre eles”, destacou Renata. Durante a palestra, contou que a classe média de países controlados por governos mais rígidos, como a Arábia Saudita, “também quer usar jeans, acessar a internet e tomar coca-cola”.

Apesar do debate ter sido realizado antes do anúncio do pacote social de US$ 200 bilhões pelo rei da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, o professor Kocher considerou que, sem auxílio do governo no campo social, uma revolta popular seria possível no país.

Para ilustrar o assunto, o fotojornalista francês Hughes Leglise-Battaille expôs algumas das fotos que produziu em sua cobertura da revolta no Egito. Hughes disse que avistava membros da Irmandade Muçulmana periodicamente durante a cobertura e que o clima de união entre os religiosos era muito grande durante os protestos na praça Tahrir.