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Rio de Janeiro, 24 de julho de 2024


Economia

“Inconsistente, populista”, Plano Cruzado completa 25 anos

Caroline Santoro - Da sala de aula

10/02/2011

 Arte: Stéphanie Saramago

“Um dia para entrar na história do país”, disse em tom quase solene o então apresentador Cid Moreira na abertura do Jornal Nacional de 28 de fevereiro de 1986. Naquele dia, morria o Cruzeiro, moeda corrente nacional. Com três zeros a menos e valorizado, nascia o Cruzado. O clima era tão dramático que o presidente à época, o hoje senador José Sarney (PMDB-AP), anunciou as medidas em pronunciamento à nação, exibido às 9h30m, na presença de todo o ministério. "Iniciamos hoje uma guerra de vida ou morte contra a inflação. A decisão está tomada. Agora, cumpre executá-la e vencer", afirmou Sarney. Vinte e cinco anos depois, o Cruzado de fato entrou para a história, mas como peça de museu ou objeto de estudo de economistas. “O Plano Cruzado pode ser considerado um dos maiores fiascos da história da economia brasileira. Inconsistente, populista e eleitoreiro”, analisa o economista Gerson Caner, 40 anos, ex-executivo de empresas como Votorantim e Ernst & Young.

Hoje, a moeda brasileira é o forte Real e a “guerra de vida ou morte” contra a inflação é coisa de um passado já distante. Para pelo menos duas gerações de “brasileiros e brasileiras” – como costumava dizer Sarney em seus discursos – correr aos supermercados para comprar alimentos que no dia seguinte custariam muitas vezes o triplo do preço é algo impensável. No entanto, para quem atravessou a década de 1980, como empresário ou até mesmo dona de casa, os tempos foram difíceis. A inflação galopava em índices que ultrapassavam os 20% por dia. Falar de economia era tão comum quanto de futebol e as estrelas do jornalismo de TV, por exemplo, eram todos comentaristas econômicos: Joelmir Beting, Lilian Wite Fibe e Paulo Henrique Amorim.

O Plano Cruzado, como ficou conhecido o pacote de medidas econômicas lançado pelo presidente Sarney, foi um tiro de canhão: congelou preços de bens e serviços, a taxa de câmbio e salários, que passaram a ser reajustados a partir de um dispositivo chamado “gatilho salarial”. Houve ainda suspensão da correção monetária generalizada, entre outras medidas duras. Todas, é claro, de difícil e complexa compreensão e explicadas de forma exaustiva pela equipe econômica liderada pelo ex-ministro da Fazenda, Dilson Funaro. – Era grande a expectativa das famílias brasileiras pelo fim da inflação que destruía o poder de compra dos salários e reduzia o nível de investimento na economia – relembra Gerson. Essa vontade de dar a volta por cima e transformar o Brasil em uma nação mais estável economicamente mexeu com os ânimos dos brasileiros. A expectativa se transformou em adesão maciça ao plano

– Lembro da minha avó orgulhosa dizendo ser fiscal do Sarney. Ia para o supermercado fiscalizar os preços, denunciar as remarcações – diz o economista.

– De falta de apoio popular o Sarney não pode reclamar –, comenta a jornalista Andréa Machado, 42 anos, que na época com 19 anos, chegou a acompanhar a avó na cruzada contra as remarcações.

As fiscais do Sarney foram o auge da euforia causada pelo plano, que nove meses depois mostrou sinais de falência. “Passada a euforia messiânica, a economia brasileira tornou-se uma espécie de catálogos de vírus: taxas centenárias de inflação, recordes de déficit público, fúteis tentativas de congelamento e o mais robusto arrocho salarial da História”, resumiu o economista Mario Henrique Simonsen em longo artigo publicado em 1987 na revista Veja.

Simonsen, que faleceu em 1997, foi um dos primeiros intelectuais do país a se mostrar contrário ao plano, batendo em um argumento bastante corriqueiro para os brasileiros: o excesso de gastos públicos. Sarney pediu e a população atendeu. A recíproca, no entanto, ficou longe de acontecer.

– A proximidade das eleições de outubro, apenas oito meses após o lançamento do Cruzado, fez com que o governo evitasse tomar medidas impopulares para garantir a sobrevivência do Plano – resume Gerson.

– Após as eleições, nas quais os partidos governistas PMDB e PFL elegeram todos os 23 governadores em função da ainda alta popularidade do Cruzado, o governo adotou medidas impopulares sob o nome de Plano Cruzado 2 – acrescenta o economista. “Entre essas medidas estava o descongelamento de preços, que provocou uma catástrofe na economia”.

Sob o ponto de vista econômico, vinte cinco anos depois a população pode respirar um pouco mais aliviada. A recente crise econômica mundial, que aqui provocou pequenos estragos, mostrou que no quesito moeda forte o Brasil passou com louvor. Mas em termos políticos, as lições deixadas pelo Plano Cruzado parecem não ter afetado os partidos políticos brasileiros.

– Nessas eleições o que a gente viu foram candidatos querendo agradar igreja, pastores, mas sem apresentar para a gente algo concreto – diz a estudante Yana Kaufmann, de 23 anos, que se aventurou pelas Ciências Econômicas.

– Acho que o povo brasileiro não aceitaria um cenário de ter que sair correndo para comprar um pote de margarina, por exemplo, mas no que diz respeito a cobrar mais seriedade dos partidos, acho que ainda temos que evoluir muito.