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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Rebeldes com causa: há 35 anos nascia o punk

Felipe Abramovitch - Da sala de aula

04/02/2011

Divulgação

O casamento do príncipe William com Kate Middleton será uma festança na Inglaterra no dia 29 de abril. O país acompanha a vida da família real com atenção e respeito, porém o movimento punk, que completa 35 anos, ousou ao provocar a monarquia e a sociedade inglesa com um discurso de protesto. A banda Sex Pistols, durante a comemoração do jubileu da rainha Elizabeth II, alugou um barco e em frente ao Palácio de Buckingham cantou versos como “God save the queen. She ain’t no human being. There’s no future in England’s dreaming” (Deus salve a rainha. Ela não é um ser humano. Não há futuro no sonho inglês). A incerteza de um futuro para os jovens refletiu atitudes de rebeldia como esta que começaram a ganhar força no verão de 1976 com o surgimento do punk. O movimento mexeu com o comportamento, com a música e tem influência até hoje.

No documentário Punk: Attitude (2005), de Don Letts, o primeiro baixista dos Sex Pistols, Glen Matlock, conta que na época se falava em jogar mortos nos rios, pois os coveiros estavam em greve. As paralisações eram constantes e o índice de desemprego da juventude era alto. Com esse clima de poucas oportunidades, as primeiras bandas punks, como os próprios Sex Pistols, The Clash e The Damned, surgiram com um discurso de revolta e uma sonoridade barulhenta.

O jornalista Jamari França lembra que seu primeiro contato com a música punk foi ao ouvir o Sex Pistols. De acordo com França, eles recuperavam a essência do rock, “básica, barulhenta e feita para incomodar”. O jornalista concorda que o punk gerou medo em uma sociedade de conservadorismo arraigado como a britânica.

– O medo era de tudo que vá contra a moral ou a ideologia dominante nas artes. Estamos no século XXI e isso ainda choca. Os primeiros momentos do punk foram de extravasamento de toda uma geração – diz França.

No documentário dirigido por Matthew Longfellow, Sex Pistols: Classic Albums – Never Mind The Bollocks (2002), Paul Kook, baterista da banda, lembra que as apresentações deste período eram de caos total e os primeiros shows uma loucura do início ao fim. A expressão no título do disco era usada pela classe trabalhadora e significava algo como “deixa pra lá, saco”. Os integrantes das bandas que usavam as letras de música como forma de expressar a insatisfação social e se encontravam na King’s Road com uma nova estética eram filhos destes obreiros.

Como descreve o livro Rock and Rol: uma história social, de Paul Friedlander, estes jovens em cima do palco incitavam o público, que respondia de forma violenta com copos e latas voando e cuspindo. O livro também narra a construção da música punk como “conduzida por um ritmo frenético, com palavras vomitadas por vocalistas sem noções prévias de tons ou melodias”.

Os conjuntos musicais, principalmente depois que os Sex Pistols protagonizaram um episódio marcante no programa Today, com o entrevistador Bill Grundy, foram proibidos de tocar em diversos lugares. O guitarrista Steve Jones, embriagado na entrevista, disse pela primeira vez diante das câmeras a expressão “fuck you” ao ser provocado a falar algo terrível. O caso é contado pelo documentário The Filth and The Fury (2000), de Julien Temple, que relata que a partir desta conduta começou uma campanha da mídia contra o punk.

Entretanto, as atitudes punks podem ter perdido o significado nos dias de hoje. Para o jornalista Luiz Felipe Carneiro, bandas que se dizem punk, como um Green Day, por exemplo, são as mais antipunks possíveis, com o seu estilo de “butique pasteurizado”, que até virou musical da Broadway. Por outro lado, o jornalista acredita que Caetano Veloso ao cantar o funk Um Tapinha Não Dói na turnê Noites Cariocas remete a um valor punk. Carneiro acredita que o legado do movimento hoje ficou restrito à sonoridade e a um estilo.

– A música segue uma evolução histórica tão coerente que é impossível um movimento forte como o punk não deixar um rastro. E, até hoje, essa linha evolutiva segue firme, na figura de bandas como o The Drums, por exemplo, absolutamente influenciada pelo pós-punk, que, por sua vez foi influenciada pelo punk, diz Carneiro.

Para o jornalista e apresentador do programa de rádio Ronca Ronca, Maurício Valladares, a compreensão do punk só chegou ao Brasil “uns dois, três anos depois da explosão na Inglaterra”. O punk ganhou força em São Paulo com Ratos de Porão, Cólera e Inocentes. Em Brasília, a Legião Urbana surgiu do Aborto Elétrico, uma das dezenas de bandas punk da “turma da Colina”. Já no Rio, o movimento não foi tão representativo, porém houve uma geração com Coquetel Molotov e Black Future. Valladares diz que foi importante para a disseminação punk uma mensagem objetiva.

– O punk era direto, sem rococó, não tinha o peso da teoria. E ficou como referência na forma de se expressar, na contestação do poder. Isso vai resistir e sempre mostrar novos caminhos – diz o jornalista.