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Rio de Janeiro, 22 de maio de 2024


Campus

As inspirações de Maria Ribeiro para "reinventar a realidade"

Evandro Lima Rodrigues - Do Portal

10/12/2010

 Reprodução/Internet

Protagonizar uma reportagem é algo comum na vida de um artista, ainda mais quando a versatilidade lhe permite passear por teatro, TV, cinema. A atriz Maria Ribeiro não foge à regra. Indispensável nas montagens de Domingos Oliveira, estrela de novelas da Record e campeã de bilheteria com os filmes Tropa de Elite 1 e 2, Maria começou a frequentar páginas de jornais e revistas quando ainda estudava jornalismo. Quinze anos depois dessa estreia, no Jornal da PUC, ela repete a dose, agora para a série de perfis do Portal, que comemoram as sete décadas da universidade.

Se naquela época o principal desafio era conciliar as rotinas acadêmica e artística, hoje Maria Ribeiro, aos 35 anos, equilibra-se entre os papéis de mãe, atriz e jornalista (assina coluna na revista TPM). Dos tempos de estudante, conserva histórias e trabalhos marcantes, como o abraço coletivo aos pilotis e a encenação de “Dona Flor e seus dois maridos”. A proposta feita pelo professor Ronaldo Helal aos alunos era “falar sobre o jeitinho brasileiro” com base no romance de Jorge Amado. Segundo Helal, tratava-se apenas da apresentação de um seminário. No entanto, Maria fez mais.

– O que mais me marcou foi a atuação dela, fazer teatro no meio do seminário. Alguns alunos até tentavam, mas era aquela coisa meio amadora. Ela foi super bem, vestiu o personagem mesmo – elogia Helal.

Se o professor ficou satisfeito, mais ainda estava a aluna. Identificada com o tema do trabalho, a atuação acabou em segundo plano. Maria encantou-se com a possibilidade de reconhecer o Brasil a partir da obra de Jorge Amado e da leitura de “Carnaval, malandros e heróis”, do antropólogo Roberto DaMatta.

Essa identificação abriu-lhe uma perspectiva importante: o casamento entre literatura, leituras do cotidiano e ficção. O sonho de adolescente – jornalismo – começava a perder espaço para a vida artística. Apresentada ao universo ficcional de Clarisse Lispector, Ivan Lessa e Lígia Fagundes Telles, referências da disciplina Prosa Contemporânea Brasileira, chegaria à conclusão de que não queria “resumir fatos, enxugar textos, ser sucinta”, exigências de Técnicas de Redação. Ela desejava contar suas próprias histórias, “reinventar a realidade”.

Sem poder contá-las como gostaria, Maria foi dar vida a histórias de outros. Em 1995, estreou na televisão vivendo a personagem Bianca Moretti na novela História de Amor, de Manoel Carlos. O expediente como atriz impossibilitou o prosseguimento no curso de jornalismo, retomado com o fim da novela. Conjugava o vaivém acadêmico com o teatro, uma ginástica que chamou a atenção do Jornal da PUC. Ela e o colega Rodrigo Santoro, aluno de publicidade, contaram aos repórteres como venciam as dificuldades de conciliar os afazeres universitários com o mercado profissional, lembra Ana Paula Albé, fotógrafa dessa reportagem.

Dificuldades que para a professora de Metodologia Científica Angeluccia Habert, atual diretora do Departamento de Comunicação, a "aplicada aluna" Maria tirou de letra. Literalmente. Pois, entre as qualidades ressaltadas por Angeluccia, destacava-se a forma de escrever:

– Quando parei para pensar em Maria, me veio à mente a letra, a forma como escrevia – recorda.

A história entre Angeluccia e Maria tinha começado a ser escrita bem antes. Precisamente no Teatro dos 4, na Gávea. Maria estava em cartaz com a peça “Inimigos do povo”, de Domingos Oliveira, baseada no texto de Ibsen. A professora que aplaudiu a atriz não a reconheceu em sala de aula. Foram os frequentes e proveitosos questionamentos da aluna que despertaram o reconhecimento de Angeluccia.

– Ela era dos alunos que estavam ali para ajudar o professor a esclarecer. Metodologia de Pesquisa é uma disciplina difícil. A disposição em ser participativo se torna muito importante – afirma a professora.

Maria exercitaria esta habilidade também fora da sala. Participou, por exemplo, do “Pilotis de mãos dadas”, movimento no qual alunos abraçados em volta da ala Kennedy protestaram pela retomada da área livre ocupada por uma lanchonete (onde atualmente fica outra, a Fastway). Mesmo com o fracasso da manifestação, experiências como esta serviram de amadurecimento para a atriz, que acredita ter iniciado precocemente a trajetória universitária:

– Eu queria fazer (a universidade) agora. Na época, tinha ainda um ranço da escola, de (dar mais importância a) passar. Eu sempre passei, mas comecei a aproveitar a faculdade nos últimos dois anos. Lia tudo o que me recomendavam.

O melhor aproveitamento acadêmico refletiu-se na maneira de escrever e na forma mais amadurecida de encarar a já familiarizada câmera. Se a experiência da elaboração do texto jornalístico revelou-se decepcionante, numa primeira etapa, a colunista da revista TPM hoje reconhece a importância dos exercícios de clareza e objetividade jornalísticos.

– Eu aprendi a ser sucinta, a cortar palavras, ser clara. Independente daquilo que você aprende em sala de aula, a experiência da universidade, os prazos de entrega, isso tudo fica – avalia.

Dirigida na TV por profissionais como Ricardo Waddington, Maria Ribeiro recorreu às anotações das aulas de Telejornalismo com Luis Nachbin para encarar um programa no canal Futura:

– Usei tudo que aprendi com Nachbin. Mexer em câmera, revelar fotos, falar para a TV.

Para os novos projetos, a atriz – que dá expediente como jornalista e é mãe "em tempo integral" de João, 7 anos, e Bento, 10 meses – amadurece sonhos da fase acadêmica. Contratada pela TV Record, Maria encaminhou à direção da emissora propostas de roteiros. Se depender da avaliação da orientadora de monografia Angeluccia, o resultado será mais um papel à versátil Maria.

– Como trabalho de conclusão de curso, Maria optou por uma adaptação da obra Iaiá Garcia, de Machado de Assis. O que me chamou atenção foi ela ter aprofundado um conteúdo que o escritor tratou de maneira sutil, a Guerra do Paraguai. Ela realmente tem ambição de realizar projetos mais intelectualizados – observa a professora.

A sobriedade acadêmica jamais impediu a “sempre gentil Maria”, como diz Angeluccia, de disparar cumprimentos efusivos, mesmo à distância.

– Podemos estar em lados opostos da rua, ela não se importa e grita pelo meu nome, acena com beijos – conta Angeluccia – E o meu olhar de professora não a distingue como diferente, mas como aluna.