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Rio de Janeiro, 19 de maio de 2024


Campus

Ao meio-dia, um banquete de persistência e carinho

Gabriel Picanço - Do Portal

16/12/2010

Mauro Pimentel

Na terça-feira passada, os alunos do Núcleo de Educação de Adultos da PUC-Rio (NEAd) arrematavam os preparativos para a festa de fim de ano. A decoração, inspirada na folia de reis das cidades do interior, era reforçada de criações dos próprios estudantes. Luiz Claudio chegara antes da aula para cuidar da colagem em uma árvore de Natal na parede. Na mesa, um presépio feito por outro aluno esperava as peças doadas pelos demais. Ao lado, ficava a bandeira de folia decorada pela professora Maria Luiza e por Paulina da Conceição, ou dona Paulina, como é chamada pelos colegas de turma. Todos estavam ansiosos com a celebração do dia seguinte, na qual a classe receberia convidados com uma ceia.

– O que eu vou trazer (para a ceia) é surpresa. Tem que vir amanhã para descobrir – brincou dona Paulina.

A classe do meio-dia reúne 14 alunos, entre funcionários e moradores dos bairros no entorno da PUC. Eles  aproveitam o horário de almoço para acompanhar aulas correspondentes ao primeiro segmento do Ensino Fundamental. Têm ainda aulas de informática, que ajudam o aprezidado para ler e escrever e facilitam outro tipo de alfabetização: a digital. 

A maioria dos alunos veio de cidades do interior, onde não tiveram a oportunidade do estudo, para trabalhar no Rio de Janeiro. Dona Paulina saiu de Santana do Deserto, interior de Minas, em 1955. Trabalha na PUC há 27 anos. Como não volta à cidade natal desde 1991, conta que tem muita vontade de saber o que mudou por lá:

 Mauro Pimentel

– Onde eu nasci, a gente criava galinha, capinava, plantava milho. Não tinha a noção de ter que estudar. Quando eu vim para o Rio, eu via todo mundo lendo jornal. Achava tão bacana.

Valentim Satiro Pareira, outra da turma, está entre os funcionários mais antigos da PUC, com 32 anos de serviço. Também veio do interior de Minas, municipio de Mantenas. Diante do mural com fotos da folia de reis baseado nas memórias de infância dos alunos, Valentim lembrou-se dos três reis, do mestre e de um verso cantado pelo palhaço na festa de sua cidade:

– O palhaço Pipi / Do morro da samambaia / Estou com enxada grande / E nada me atrapalha.

A professora Maria Luiza Tavares Benício transformou as lembranças em palavras escritas no quadro. Depois eram lidas em coro. desde a década de 1960 Maria Luiza ensina a ler. Também treina e orienta professores para a função. Em 1991, começou a trabalhar com jovens e adultos, e passou a formar educadores da rede municipal de ensino. Quando o NEAd surgiu, em 1996, inicialmente para atender funcionários da PUC-Rio, Maria Luiza (foto) foi chamada para cuidar do acompanhamento pedagógico. Começou a dar aula no projeto só neste ano, quando a professora titular, Rita Sorrentino, graduanda da PUC no curso de sociologia, foi fazer estágio no exterior. Ela conta que a diferença na alfabetização de adultos e crianças passa pela diversidade de histórias nas turmas:

– São pessoas diferentes, com características diversas, em etapas diferentes.

 Mauro Pimentel

Segundo a professora, a grande dificuldade é o cotidiano dessas pessoas. Em geral, têm de sair cedo e chegar tarde em casa, executam trabalhos cansativos, sofrem com a falta de incentivo do empregador e cuidam da família. 

– Hoje eu saí às quatro da manhã. E tive que fazer uma grande caminhada para chegar ao ponto de ônibus. Chega essa hora (por volta das 13h), já estou cansado – disse Valentim, morador de Mesquita.

Como não sobra tempo para frequentar um curso Educação de Jovens e Adultos (antigo supletivo) em alguma escola, a pausa do almoço torna-se estratégica para Paulina, Valentim e seus colegas. Outros, no entanto, não conseguem fazê-lo, embora o tempo para estudo seja um direito garantido por lei.

– A gente vê que eles querem participar, mas o horário apertado ou o trabalho não possibilitam. Estamos buscando um entendimento com a empresa terceirizada responsável pelos funcionários da PUC para que eles possam estudar dentro do tempo de trabalho. Esse direito tem que prevalecer – argumenta Maria Luiza.

Outra dificuldade observada pela professora é o constrangimento de alguns alunos, que se sentem "diminuídos" por não terem estudado. Assim, o NEAd "não é apenas uma aula de alfabetização, é um espaço de socialização e de desenvolvimento humano que busca dar aos alunos outra visão de si mesmo", observa Maria Luiza. Ela refere-se à consciência de que oa alunos não são "culpados por estarem aprendendo agora", aos 30, 70, 80 anos. Para cumpri este desafio, a professora conta que é importante "não anular a fala do aluno e incluir no processo de aprendizagem os conhecimentos trazidos por cada um deles".

– É um movimento constante de ensinar e aprender. E não se aprende apenas na escola. São pessoas que viveram toda uma vida trabalhando e aprendendo, educaram seus filhos, e participam ativamente da vida em sociedade. Seu Valentim, por exemplo, ajudou a construir a PUC, como auxiliar de pedreiro. Não se pode dizer que uma pessoa dessas não é capaz. Algumas pessoas que não estudaram numa escola possuem uma sabedoria e uma capacidade de empreender e transformar a realidade que muitos de nós, que estudamos, não desenvolvemos. Isso é inegável, ainda que em nossa sociedade sejamos valorizados muito pelo salário que ganhamos ou pela  quantidade de títulos que  temos – observa Maria Luiza.

 Mauro Pimentel

Fora as dificuldades da vida de cada aluno, na sala de aula o estranhamento da língua escrita também representa um obstáculo. Dificulta a alfabetização plena: o entendimento do que está e o que não está escrito.

– A escrita não fez parte da vida dessas pessoas. A nossa gramática não corresponde ao falar. Isso é uma grande dificuldade para os alunos adultos, que viveram a vida inteira com a língua falada. Conversar com os alunos sobre isso faz parte do processo. A escrita é uma coisa e a fala é outra – lembra a professora.

Maria Luiza e seus alunos definem o NEAd como um lugar "onde aprendem, recebem carinho, atenção e respostas para as suas perguntas". Mas onde também "ensinam muito", compartilham memórias e experiências. Eles valorizam muito as pequenas mudanças que o estudo começa a proporcionar, apesar das dificuldades enfrentadas:

– Eu vou chegar lá de qualquer jeito, eu vou chegar lá. Agora já clareou bastante. Quando eu entrei aqui estava tudo escuro, não via nada. Agora eu já leio sozinha, só me falta escrever de uma forma mais correta – diz Paulina.

Quem tem interesse em participar do projeto ou conhece alguém que queira estudar pode entrar em contato com o NEAd pela internet (nead@puc-rio.br) ou pelo telefone (21) 3527-1568.