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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Eduardo Jardim traça história do pensamento de Hannah Arendt

Isabela Sued - Do Portal

07/12/2010

 Isabela Sued

A obra completa da filósofa política alemã Hannah Arendt é, até hoje, origem de pesquisa e de apoio para a construção de uma perspectiva política contemporânea. Com base nos pensamentos da filósofa, o professor Eduardo Jardim, do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, terá, em 2011, seu sexto livro lançado. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o autor revelou que acompanha, na obra, a trajetória da pensadora a partir dos trabalhos publicados por ela.

A intenção de Jardim, em Hannah Arendt: Pensadora da crise e de um novo início, é apresentar o percurso da pensadora a partir de quatro momentos. O primeiro é o início da obra da filósofa: em 1951, ela publicou seu primeiro livro, Origens do totalitarismo, o qual faz uma análise da experiência totalitária. O autor tenta mostrar o que motivou Hannah Arendt a examinar de perto esta experiência e de onde surgiu a visão que ela tem do totalitarismo.

O segundo ponto do livro aborda o diagnóstico que ela faz da modernidade:

– Eu tento acompanhar o retrato que ela faz da Era Moderna, que para ela é marcada por uma série de crises e rupturas – contou Jardim.

Já no terceiro momento, o livro trata do problema da política, examinando como foi o desenvolvimento da concepção que a pensadora tem de política. Segundo o autor, “essa concepção aparece amadurecida no livro A condição humana, o livro base para se discutir o conceito de política de Hannah Arendt”.

– Ela tem uma maneira muito própria de pensar o problema da política. Eu tento reproduzir no livro esse ambiente a partir do qual ela elabora essa discussão, a sua teoria política – afirmou.

 Isabela SuedNo quarto e último ponto da obra, Eduardo Jardim aborda a discussão do livro inacabado A vida do espírito, que trata de três atividades: o pensar, o querer e o julgar.

Eduardo Jardim já publicou três livros que tratam de Hannah Arendt e seu pensamento político. Segundo o autor, a pensadora ganha importância ao elaborar uma nova concepção de política, que foi na contramão das opiniões e das visões de sua época. Ele explica que diferentemente da percepção negativa da experiência política que existe na sociedade, Hannah Arendt acreditava na dignidade da política: 

– Como a atualidade é uma certa adequação ao tempo, o pensamento dela não era propriamente atual, porque havia e ainda há uma visão muito desconfiada da política. A política está sob suspeita. E ela, numa direção muito diferente disso, sempre afirmou a dignidade da política. Para ela, a razão de ser da política é a liberdade – explica – Ela associa liberdade à política. Naquela época, porém, e possivelmente hoje ainda, esse vínculo entre política e liberdade não é aceito tão imediatamente.

A intenção da pensadora alemã, como explica Jardim, é discutir o conceito de liberdade, de forma que ela possa uni-la à política, estimulando um desencontro com a visão de política que se tem normalmente:

– Acho que trazer o pensamento dela entra muito em choque com o que se pensa de política atualmente, porque a Hannah Arendt tem uma visão de que a liberdade é a razão de ser da política, e, no entanto, existe uma posição política difundida de que liberdade e política não se encontram – afirmou o professor. 

No contexto político brasileiro, Jardim acredita que para a pensadora seria desastroso perceber que no Brasil a preocupação social prevalece em relação à preocupação política. Isso, para Hannah Arendt, segundo ele, significaria a “perda da perspectiva de liberdade em nome da satisfação das necessidades sociais”.

 Isabela SuedEduardo Jardim explica que a sua geração presenciou uma fase de muita perplexidade, falências de alguns modelos e perdas de referências. Nesse contexto, durante os anos 1970 e 1980, ele encontrou em Hannah Arendt uma forma de pensar o seu tempo, sem ilusões. 

– Por um lado, ela nos ajudou a compreender um momento que sofria de orfandade de crenças e de projetos. Por outro, ela nos fez entender que no “ocaso do futuro” podia existir um convite para o presente – explicou – Então, ao perdermos essa referência obrigatória ao futuro, ganhamos a possibilidade de intensificar o contato com o presente. Eu acho que foi isso que a Hannah Arendt me ensinou e foi isso que ficou. Talvez o meu fascínio por ela venha daí.