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Rio de Janeiro, 20 de maio de 2024


Campus

Petróleo e política marcaram a PUC de Eloi Fernandéz

Carina Bacelar - Do Portal

10/12/2010

Mauro Pimentel

Ao cruzar as portas de entrada da PUC pela primeira vez, no ano de 1969, como aluno, o hoje diretor da Organização Nacional das Indústrias do Petróleo Eloi Fernández deparou-se com grandes novidades. Não se tratava, porém, de algo relativo à engenharia mecânica, o curso escolhido, até porque ele já tinha no currículo um diploma da Escola Técnica Federal (Cefet) nessa área. Na universidade, Eloi descobriu um interesse que extrapolava os cálculos e gráficos dos quais tanto gostava. O envolvimento político nos pilotis e nos diretórios arrebataram o calouro e o acompanharam por toda a vida universitária – como aluno e professor (leciona na PUC-Rio desde 1974). 

 – Naquela época, muita coisa acontecia. A PUC era uma das poucas universidades no país que mantinham os diretórios acadêmicos abertos. A estrutura de movimento estudantil, por meio desses diretórios, foi importante na resistência (à ditadura). Participei muito das manifestações – conta.

A opção pela PUC, segundo o engenheiro, foi motivada pela boa estrutura tanto física quanto do corpo docente encontrados no Departamento de Engenharia. Ele lembra que também pesou a influência de vários amigos do Cefet, que haviam ingressado na universidade, e o programa de reforma de ensino implantado em 1969, então pioneiro no Brasil.

Mesmo na engenharia, carreira de Ciências Exatas, Eloi Fernández cultivou um "grande contato" com as Ciências Humanas. As disciplinas com abordagens religiosas e humanísticas fortaleceram a formação “eclética”. Eloi acredita que o interesse por história, filosofia e sociologia era comum aos alunos, reflexo de tempos conturbados no país e no mundo:

– Havia um aspecto crítico por parte dos estudantes. A maioria daqueles com os quais eu mantive um relacionamento de amizade, mesmo que não fosse tão crítica, reconheceu a importância disso na sua formação cultural e humana.Mauro Pimentel

Por conta de tal “conturbação” na vida política brasileira, a disciplina “Cálculo I”, velho fantasma dos alunos de engenharia, não parecia mais assustadora do que a repressão intensificada pelo governo com o AI-5:

– A matemática, de maneira geral, assustava, mas não chegava a causar pânico. O terror ficava mais por conta da ditadura do que propriamente pelos cálculos e pela álgebra. 

Nas salas de aula, aspirante a engenheiro. Nos diretórios, cidadão indignado. Este é o retrato que o professor faz da vida de universitário. Um retrato refletido nos lugares que mais frequentava: a Vila dos Diretórios e os pilotis. Lá, discutia com os amigos “um pouco de tudo” – de política a atividades culturais, igualmente marcantes.

– A vida universitária era muito intensa, muitas coisas eram realizadas pelos diretórios. Havia um processo associado à formação do cinema brasileiro, de uma MPB jovem sendo criada e dos festivais da canção. Todas eram formas de manifestação política contra a ditadura – resume.

Uma das empreitadas do DCE ilustrou, segundo ele, a “fome" de democracia dos jovens: a mudança de gestão do bandejão, para os diretórios. Durante esse processo, Eloi era figurinha fácil tanto nas mesas, em almoços diários, quanto nos protestos marcados para aquele espaço.

– Era uma característica da época. Se não conseguíamos democratizar a sociedade, democratizamos ao menos o bandejão – compara, com irreverência.

Já nas aulas, os ídolos de Eloi não revolucionavam a política, mas a maneira de ensinar engenharia. Ele admirava os professores Pierre, de Física, e Mackentari, do curso de Hidráulica, que tinham uma "capacidade especial" de transmitir conhecimento e de “aglutinar” os alunos pela sua simpatia.

– Mesmo os mais fechados dão uma contribuição que só ao longo do tempo se percebe. Dos mais dinâmicos e abertos, muitas vezes se guarda um detalhe pessoal. Mas acho que o todo é o importante – avalia.

O convívio com os colegas , no dia-a-dia "engajado", revelava-se igualmente enriquecedor para o futuro engenheiro. Do Cefet, herdara alguns, na PUC fez outros e hoje mantém contato com muitos. Um deles, o professor Camilo Siqueira, do Instituto de Energia da PUC, foi, nos anos 1970, presidente dos Diretórios Acadêmicos. Foi lá, nas “casinhas da vila”, falando sobre política e planejando manifestações, que ele conheceu Eloi, prestes a se formar:

– O Eloi não fazia parte da nossa chapa, mas teve uma participação muito ativa tanto no movimento estudantil quanto um pouco depois, quando já era professor – lembra.

Camilo Siqueira conta que já conhecia Eloi, apenas de vista, do Cefet. Mas só na PUC os dois tornaram-se amigos, e Camilo constatou que o rapaz aparentemente sisudo que circulava na escola técnica tinha uma personalidade além da aparência:

– Pelo biotipo, ele dava a impressão de ser uma pessoa fechada. Mas quando o conheci melhor, vi que era uma pessoa com o coração do tamanho dele. Respeitava os outros e sabia ouvir todo tipo de opinião. A reitoria também o respeitava como aluno e professor, quando foi um dos fundadores da associação dos docentes da PUC.

O também professor de engenharia lembra que participava com Eloi de vários grupos de discussão. Em um deles, decidiram criar um jornal universitário chamado “Síntese”. Cada um dos jovens era responsável por ler um periódico e extrair dali as notícias que considerasse mais importantes. Em uma das manchetes, o “Síntese” trouxe a notícia do golpe de estado sofrido por Salvador Allende no Chile – uma das poucas que não passaram pelo filtro da censura prévia instaurada no Brasil.Mauro Pimentel

– Os diretórios eram um centro de efervescência, e tínhamos apoio dos jesuítas. Naquela época, eles reuniam personalidades de todo o Brasil. A partir dali, o movimento estudantil começou a tomar corpo.

A parceria entre Eloi e Camilo assumiu partituras além da polítca. Eles faziam parte de um grupo de batucada organizado pelos alunos. Camilo conta que o colega, diferentemente de quando defendia as convicções democráticas ou praticava vela e polo aquático – seus esportes favoritos –, costumava “atravessar o ritmo” quando o assunto era a percussão:

 – Mesmo com o tambor, o instrumento mais simples que havia, o Eloi não tinha ritmo. Quando ele tocava, todos tínhamos que parar.

O ativismo estudantil e as discussões animadas nos bares do Leblon (“nosso quartel general”) ficaram para trás, não a amizade. Eloi e Camilo viraram colegas de trabalho na PUC. Desenvolveram, inclusive, um trabalho conjunto sobre “ativos intangíveis”. Trata-se do valor agregado dos produtos e serviços decorrentes do “capital intelectual”, e não de atributos “físicos”.

Se a entrada na universidade foi acompanhada das ambições tradicionais, como formação sólida e sucesso na carreira, a formatura foi, para Eloi, um momento de “transgressão”. Declinou da cerimônia “por questões de revolta pessoal, política e coisas do gênero”, ao contrário dos colegas, “que fizeram tudo certinho”:

– Eu era contra formalidades e coisas do gênero, para o desespero dos meus pais.

Por ironia, Eloi nunca mais saiu da PUC. Seguiu como aluno de pós-graduação e tornou-se professor. Hoje, o professor Eloi Fernández reconhece que se identifica com certas atitudes, desejos e receios dos jovens com quem convive nas salas de aula.

Mauro Pimentel– Trabalhar na faculdade onde você se formou tem uma vantagem muito grande, porque você já conhece toda a estrutura. Há também uma identificação com os alunos. Você estender o seu DNA ali junto com os jovens é sempre bom. Reconheço neles traços meus, e isso facilita o relacionamento com essa garotada – ressalta. 

Com quatro livros lançados sobre petróleo e tecnologia (“A publicação de um livro é sempre uma lembrança muito forte. É deixar um registro de uma série de coisas que você faz ao longo da sua vida profissional para o uso de outras pessoas”), Eloi Fernández avalia que a busca por um substituto para o petróleo é essencial pela alta dos preços dos barris e pelos problemas ambientais decorrentes dos combustíveis fósseis. Admite, no entanto, que uma "solução viável" ainda está longe. Já com relação à política, Eloi mantém a esperança do jovem engajado que frequentava a Vila dos Diretórios.

– Apesar de hoje os políticos se apresentarem de forma menos razoável, acho que não há outra forma de resolver os problemas. Espero que os jovens, e a sociedade de maneira geral, consigam trazer uma seriedade maior para a atividade política – sonha.