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PUC-Rio

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Rio de Janeiro, 22 de maio de 2024


Campus

Descendente da realeza revela preciosidades dos Pilotis

Evandro Lima Rodrigues - Do Portal

10/12/2010

Album de família: PUC-Rio, 1957

Ouvidos atentos às palavras do padre Djalma, olhares curiosos à procura dos convidados, roupas elegantes, maquiagens, lágrimas. No fim da cerimônia, poses para fotos e pausa para aplausos. O encontro celebrava uma união que já dura 50 anos e, por alguns detalhes, diferenciava-se de uma boda tradicional. Em vez de um casal, 21 mulheres das turmas de 1960 dos cursos de letras e filosofia da PUC-Rio (a foto ao lado retrata o Edifício Cardeal Leme na época). O laço iniciado na universidade e relembrado anualmente ganhou a pompa de “boda de ouro”, celebrada na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no campus. Tinha até "noivo": Eustaquinho, um personagem imaginário criado pela ex-aluna Solange Carvalho e estampado em cartões. “Era a figura masculina numa sala só de mulheres”, lembra. Entre as ex-alunas, uma representante da realeza. Maria Cecília Pires e Albuquerque Penna, descendente do rei fundador de Portugal, Afonso Henriques e de Diogo Álvares, o Caramuru, foi também uma filha da PUC.

 Mauro Pimentel

Em entrevista ao Portal, Maria Cecília (foto), hoje assessora de imprensa da família real, explica a árvore genealógica extensa e intercontinental com o entusiasmo e o didatismo de quem estuda há décadas as gerações monárquicas portuguesas. Entre imagens barrocas, quadros, esculturas, móveis coloniais e outras preciosidades reunidas no simpático apartamento da Oswaldo Cruz, no Flamengo, a descendente do rei mergulha no tempo. Conta histórias dos pilotis enfeitado por saias de tergal e conjuntinhos de ban-lon ("Era como se fosse uniforme, só mudava a cor"); da filha que seguiu a carreira jornalística da qual ela, Maria Cecília, fora aconselhada a abdicar; do namoro platônico com o primeiro computador de grande porte no país, restrito à área politécnica (atual engenharia); do namoro combinado pelo vidro da porta do prédio Cardeal Leme. Começa pelas histórias da linhagem além-mar, iniciada quando Portugal foi fundado por Afonso Henriques, avó de Dom Diniz, conhecido como o rei das cantigas trovadorescas, e do qual Jerônimo de Albuquerque era tetraneto.

Em meio aos objetos históricos, a estudiosa conta que o rei Dom Pedro Fernando Sardinha enviou Tomé de Sousa, com o filho Garcia D’Avila, às novas terras. Aqui a filha de D’Avila casaria-se com o neto de Caramuru. "Daí vem minha família. Eu descendo dos D’Avila. E a última descendente direta deles, Leonor Pereira Marinho de Aragão, se casou com o Pires de Carvalho e Albuquerque, descendente de Jerônimo de Albuquerque. Assim uniram-se famílias", esclarece.

 Mauro Pimentel

A empolgação com que narra os caminhos da nobre ascendência é proporcional à alegria do reencontro com a corte de antigas colegas de turma. Como a professora aposentada Maria da Glória Azevedo Ribeiro (foto). Enquanto recorda as aulas de latim, francês e italiano da habilitação em letras neolatinas, Maria da Glória lembra dos agitos fora da sala de aula. Precisamente no clube Piraquê, na Lagoa, onde o ritmo celebrizado por Elvis embalou o baile de calouros de 1957 e fez dela a “menina do rock”:

– Os rapazes nos tiravam para dançar. Eu não conhecia o ritmo, mas meu par foi tão eficiente que me fez dançar rock sem nunca ter experimentado. Fiz tanto sucesso, que as pessoas fizeram uma roda para me ver.

Na universidade o ritmo era outro. Do mesmo grupo de Maria Cecília e Maria da Glória, Cilene Vieira de Souza diz que elas se entregavam à bossa nova de Ronaldo Bôscoli, Carlos Lira e Nara Leão. Às vezes, elas acompanhavam sessões intimistas de Roberto Menescal, lembra Maria Cecília. Eram convidadas de Tereza Menescal, prima e também estudante da universidade.

 Mauro Pimentel

A tradicional descontração dos pilotis era reforçada pelas brincadeiras dos veteranos. O trote, aplicado no principal prédio daquela época, o edifício Cardeal Leme, presenteava os calouros, enrolados em papel higiênco, com o “diploma de burro” (foto). Memórias de um tempo em que a espirituosidade não corria o risco de ser patrulhada pelo politicamente correto.

– Era um certificado com carimbo em que os veteranos diziam ter mais cultura e inteligência. Por isso, nos conferiam o diploma de calouro burro. Era uma brincadeira – diverte-se Maria Cecília, que ainda hoje guarda o "diploma".

Outra colega de Maria Cecília, a escritora Sonia Santana (foto) admite que o clima “descontraído” era essencial para motivá-la. Proibida pela família de cursar jornalismo, escolheu letras neolatinas por influência da melhor amiga Solange Carvalho, criadora do personagem Eustaquinho. Não chegou a concluir o curso, pois a família se mudou para Belo Horizonte, mas teve tempo de realizar um feito, segundo ela, inédito. Com a ajuda das colegas, passou um trote nos veteranos da Escola Politécnica. Convidados para a festa num apartamento na Vieira Souto, eles deram com a cara na porta. Escondidas, as calouras de letras divertiram-se com o desapontamento alheio. Mas a brincadeira durou pouco tempo:

 Mauro Pimentel

– Ficamos com pena e revelamos tudo. Naquela mesma hora, organizamos uma festinha de verdade. No outro dia, recebemos o castigo pela brincadeira: os veteranos queriam nos enfaixar com vários rolos de papel higiênico – conta Sonia.

Compostas na maioria por mulheres, as turmas de letras chamavam atenção especial da área politécnica da universidade, então exclusiva para homens. Segundo Maria Cecília, a atenção era retribuída nos encontros “propositais” que aconteciam na "cantina do português", única opção para lanches fora o Bar das Freiras. A cantina passaria a ser chamada de “Nobre cidade católica”, devido à maneira como o proprietário entendia e falava a palavra "universidade". Neste local muitos flertes tornaram-se namoros. Os casais, lembra Maria Cecília, eram favorecidos pelo vidro da porta das salas de aula, chamados de aquário: “Era só o namorado de uma aparecer por trás do vidro que já sabíamos. Daí alguém falava: 'Fulana, já olhou o aquário?”, lembra a ex-aluna.

Às solteiras, restava a companhia de Eustaquinho, o personagem criado por Solange Mendonça para compensar a falta de uma "figura masculina" na turma formada exclusivamente por mulheres. No intervalo das aulas, Solange fazia o desenho de um jovem, acompanhado de um verso. Apesar de romântico, explica a autora, Estaquinho não queria saber de compromisso. "Assim, todas se apaixonavam por ele", brinca. Terminado o curso, o personagem permanaceu nas mentes e nos corações das ex-universitárias. Tanto que reaparece nos encontros anuais da turma e foi convidado obrigatório na comemoração dos 50 anos de formatura, no campus. Desenhado em roupa de gala numa folha cor de rosa, saiu de dentro da bolsa de Solange, que, em nome dele, recitou: “E por mais que sejam belas, sempre continuarei admirável sedutor”.

Outra "figura" inesquecível de Maria Cecília e sua turma foi o Burroughs 205. O primeiro computador de grande porte do país, o único numa universidade da America Latina, cruzou o caminho daquelas jovens em 1960. Todas queriam vê-lo, experimentá-lo, mas o frisson pela novidade tecnológica sucumbiu ao uso exclusivo da Escola Politécnica.

– Tiveram de construir uma sala só para ele, porque era enorme. Carros foram proibidos de passar próximo. A explicação era que ocorria uma interferência no trabalho realizado por fitas – recorda Maria Cecília.

 Album de família 

Masunear o desejado computador não parecia um sonho impossível para estudantes que quebraram alguns tabus. Naquele tempo, lembra Maria Cecília, o número de mulheres que tinham a autorização dos pais para entrar na universidade ainda era reduzido. Grande parte das que conseguiam escolhia os cursos determinados pela família. Assim, a jovem que aspirava à formação na área de comunicação teve de mudar seu projeto. Convencida pela família das "incertezas do curso de jornalismo", Maria Cecília rendeu-se à sugestão de estudar línguas estrangeiras, de preferência na PUC, “onde havia o diferencial do ensino teológico e o currículo docente”.

A teologia ampliou-lhe o conhecimento religioso da estudante de família católica, que hoje promove cursos de preparação para o batismo e o matrimônio. Era comum participar de retiros espirituais organizados pelo padre Cerruti, S.J., no Cenáculo de Laranjeiras (foto). A opção pela universidade veio também da lista de professores, da qual faziam parte, por exemplo, o poeta Manoel Bandeira, que lecionava literatura brasileira; e o escritor Junito Brandão, professor de latim que empresta o nome ao anfiteatro do campus. De Alceu Amoroso Lima, um dos fundadores da PUC-Rio, de quem Maria Cecília se tornou amiga:

– Eu o acompanhei até morrer em Petrópolis [em 14 de agosto de 1983]. Sempre o encontrava na igreja. O conservei como um grande amigo – recorda Maria Cecília.

A amizade iniciada na universidade também levou o padre Leme Lopes, professor de filosofia, a celebrar o casamento da ex-aluna, em 1961, um ano depois da formatura. Três dos cinco filhos de Maria Cecília também estudaram na PUC-Rio. A filha do meio, jornalista, realizou o sonho da ex-estudante de línguas neolatinas. A própria Maria Cecília também iria fazê-lo mais tarde. A convite de um amigo, formou-se em jornalismo na Faculdade de Comunicação Hélio Alonso (Facha). Ela, no entanto, desencantou-se com a área:

 Mauro Pimentel

– Percebi que não era o que queria. Estava realizada com o meu primeiro curso, que me proporcionou conhecer cinco línguas e as respectivas literaturas. Estive ano passado em Éfeso, na Turquia, e lá eu li todas as inscrições em latim. Meus amigos não entendiam nada. Se não tivesse feito neolatinas, não saberia o que sei hoje. Graças a Deus eu tenho esse conhecimento, graças à PUC.

Ainda assim, o curso de jornalismo influenciou a atividade atual. Amiga de Dom Luis de Orléans e Bragança, chefe da Casa Imperial do Brasil, Maria Cecília responde pela assessoria de imprensa da família real. Ela também reúne, entre seus assessorados, a artista plástica Marli Mazeredo, criadora das imagens da Igreja Sagrado Coração de Jesus, na PUC. Maria Cecília conta que Marli acolheu a sugestão sobre o material e a posição da imagem do Cristo crucificado, exposta no chão da igreja. Diferentemente das demais, em mármore, foi feita em bronze.

– Marli queria o crucifixo preso em correntes no lado direito do teto. Isso tiraria a visão da imagem de Nossa Senhora. Daí eu sugeri o modelo que está lá – explica Maria Cecília.