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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

"Foi no Estácio que se criou o verdadeiro samba"

Bruno Alfano - Do Portal

09/11/2010

 Divulgação

Entre 1902 e 1906, Pereira Passos, o então prefeito do Rio de Janeiro, tentou transformar a cidade em uma nova Paris. Entretanto, os rumos da cultura carioca acabariam influenciados por outra referência estrangeira. Foi na Pequena África, no centro da cidade, entre as décadas de 1920 e 1930, que foi criado o “samba de sambar”: estilo de música com a cadência propícia para os desfiles dos blocos carnavalescos.

A área composta pelo Estácio e Cidade Nova, colada com a Zona do Mangue, era habitada pelos descendentes de escravos, filhos de africanos, e por isso o nome de Pequena África. Os moradores da região eram vistos como uma subraça e o local ficou marcado pela prostituição do Mangue e pelos malandros violentos praticantes de capoeira com navalha. No bojo dessa população segregada, entretanto, surgiu a música que daria ritmo à cidade do Rio de Janeiro. O samba amaxixado de Sinhô e Caninha deu lugar ao ritmo batucado criado por Ismael Silva, Bide, Brancura, Nilton Bastos e outros.

Para contar a vida desses sambistas e do bloco carnavalesco criado por eles, o Deixa Falar, o pesquisador musical Humberto Franceschi escreveu o livro Samba de Sambar do Estácio – 1928 a 1931. A obra é acompanhada de DVD com as 100 músicas escolhidas pelo autor e vídeos dos depoimentos contidos nela. Samba de Sambar do Estácio foi lançado nesta terça-feira (09/11) no Instituto Moreira Salles.

Defensor de uma cultura carioca sem influência estrangeira, Humberto Franceschi, em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, definiu o samba batucado, criado no Estácio, como “a forma mais genuína de música carioca” e decreta: “a música brasileira acabou”.

Portal PUC-Rio Digital: Qual a importância do Estácio para a cultura popular carioca?

 Acervo Correio da Manhã Humberto Franceschi: O Estácio criou o samba de sambar, que é o samba batucado. Essa é a forma mais genuína de música carioca. O Estácio foi precursor dos blocos de carnaval que só estavam interessados no carnaval. O Deixa Falar era um bloco muito importante porque tinha uma produção musical fantástica e desfilava sem concorrer a prêmio nenhum. O bloco começou a ter uma popularidade imensa: para se ter uma ideia, na primeira saída deles, em 1928, o bloco tinha 50 pessoas e chegou na Praça Onze com 400. No ano seguinte, saiu com 400 e chegou ao final com 1200. Foram crescendo nessa escala. A música que o Estácio fazia não tinha pretensão de fazer sucesso ou mesmo de ser gravada. Quem levou as músicas para as gravadoras foram as pessoas do teatro de revista e do rádio. Os compositores tinham participações periféricas nos discos. O Ismael Silva foi o cara que criou o samba batucado – o samba verdadeiro – e nas gravações deram para ele tocar o reco-reco. O Bide foi o inventor do surdo e nos estúdios só tocava tamborim. Foi no Estácio que se criou o verdadeiro samba.

Portal: De que forma o ambiente em que os compositores viviam influenciava suas músicas?

H.F: O Estácio era uma parte da Pequena África que ficava colado à Zona do Mangue. Os negros, que viviam lá, não tinham a menor oportunidade de trabalho. O negro era subraça ainda. Os serviços braçais eram dados aos imigrantes europeus. Os negros só tinham duas hipóteses: capoeiragem, que fizeram muito bem; e mulher do Mangue, ou seja, explorar a prostituição no bairro vizinho. Para se ter uma ideia, o Brancura (foto), que era um dos bons do Estácio, agenciava cerca de 120 mulheres. Fazer aquela música era a razão de vida dessas pessoas miseráveis. Eles tiraram das letras aquela coisa mais metafísica – que vinha dos baianos – e botaram o dia a dia deles. Na época do Estácio, os caras faziam aquela música como necessidade de vida. Eles eram cafetões e o compositor que fazia mais sucesso conseguia mais mulheres para seu sustento. Isso foi uma das razões básicas do sucesso do Estácio. Uma vez, o Bide e o Ismael me falaram uma coisa muito boa: “Essa gente de hoje tem automóvel, apartamento, mas não tem mais graça nenhuma. Nós não. A gente tinha que fazer música e música boa. Porque, se não fizesse, nós não teríamos mulheres para nos sustentar”. Uma realidade fantástica. Isso foi o Bide e o Ismael que me disseram pessoalmente. 

Portal: Quem foi o compositor mais importante do Estácio?

H.F: Foi, sem dúvida, o Ismael Silva (foto). Eu o conheci na casa do meu avô. Convivi com ele dos 15 até os 40 e tantos anos. Me lembro que o visitei dois dias antes dele morrer. O Ismael Silva era um sujeito extremamente bem educado. Muito simpático, mas que tinha suas mágoas: em 1935, um português transou com a irmã dele e o Ismael deu uns tiros no cara que não morreu. Esse fato o colocou na prisão por dois anos. Quando saiu, o Estácio tinha acabado; o Francisco Alves tinha sumido; o Noel Rosa, um grande parceiro dele, já tinha morrido e, então, os apoios que ele tinha desapareceu. O Ismael ficou na pior durante muitos anos até que, em 1955, surgiu uma oportunidade fantástica para ele. O produtor Zico Ribeiro passou a tomar conta de uma boate que ficava no final da Praia Vermelha e chamou o Ismael para cantar lá. Depois desse show, ele gravou vários discos e voltou a ter vida na imprensa.

 Mário Luiz Thompson Portal: O Deixa Falar durou apenas quatro anos (1928-31). O que aconteceu para o fim precoce do bloco?

H.F: Em 1929 e 1930, começaram a ter as greves dos anarquistas. As elites, donas das fábricas, exploravam os trabalhadores e tinham muito medo de alguma revolta social. Em 1930, com a revolução do Getúlio, começou a existir um embrião do Ministério do Trabalho. Ele era mantido só por pelegos – pessoas com poder policial, que se infiltravam nas associações, como se fossem integrantes, e minavam tudo que era novo e pudesse eventualmente ameaçar o poder deles. Os pelegos tinham verbas para patrocinar as agremiações e distribuir prêmios – o que abrandava muito a já praticamente inexistente possibilidade de que os blocos carnavalescos da época virassem organizações políticas. As elites pegaram essas pessoas e botaram nas agremiações populares que, na cabeça deles, tinham alguma possibilidade de virar entidade política. O Deixa Falar foi alvo e foram infiltrados um monte de pelegos. O que era só um bloco passou a ser escola de samba e, depois disso, virou rancho. O resultado é que as mudanças somadas às brigas internas resultaram no fim da organização.

Portal: Qual a importância do intérprete Francisco Alves para o samba do Estácio?

H.F: O Francisco Alves sentiu a possibilidade de sucesso que o Estácio tinha e começou a gravar as músicas desses compositores. Gravou muita coisa de lá. Se o Francisco Alves não tivesse participado daquele meio, o Estácio, como produtor de cultura, não existiria. Ele era um sujeito extremamente esperto. Tinha quase o mesmo nível dos malandros do Estácio e tinha uma voz fantástica. Ele dominava o teatro e o rádio também, quando o meio surgiu. Ele acabou virando a grande estrela da música da época.

Portal: O que aconteceu com o “samba batucado”?

 Divulgação H.F: Criou-se a ideia de que era necessário civilizar essa música e chegaram os chamados “civilizadores”. As rádios e os teatros de revistas levaram as música do Estácio às gravadoras que tinham os arranjadores: músicos do centro da Europa – fugidos da Primeira Guerra Mundial – com boa formação musical, mas que não sabiam e nem estavam interessados em nada de música popular. Então, acabavam com a música. O samba do Estácio era um samba batucado e os arranjadores, todos eles, colocavam fortíssima dose de violino. Não tem nada mais incompatível com o samba batucado que o violino. A melodia era maravilhosamente boa, mas os arranjos estavam longe disso. Isso, entretanto, agradava as revistas de teatro – o único meio de divulgação da época – que pegavam as músicas de sucesso e botavam de título nas revistas. A música original acabava só servindo de base para as letras que os revistógrafos faziam.

Portal: O senhor, no livro, diz que a música brasileira está hibernando. O que aconteceu?

H.F: A música brasileira acabou, simplesmente. Hoje em dia, esse pessoal não tem necessidade de nada. Os caras imitam aqui, imitam ali. Você quer coisa mais triste do que essas rodas atuais de choro. Primeiro que não existe choro como pauta de música, pois o choro é um diálogo entre dois instrumentistas. Eles fazem aquele meio círculo, parecendo uma ferradura, com os caras tocando sem nenhuma vivacidade. Aí fica aquele negócio: “...a quinta rebaixada, porque o Si bemol, o Fá sustenido e não-sei-o-que-lá...”, esse troço virou coisa de músico. O choro não era coisa de músico. Aqueles que faziam o choro, antes da década de 1930, não sabiam de música. No Estácio, eles não sabiam nem tocar violão. Um cara como o Nonô, que foi o melhor pianista que o Brasil já teve em termos de música popular, não sabia uma nota de música. Era só de ouvido e pela necessidade, que o cara tinha dentro dele, de fazer coisa boa. Hoje é difícil você ver isso. Apareceram as releituras das músicas e não existe nada pior do que isso, porque elas são interpretações extremamente equivocadas da proposta original. Poucas pessoas têm acervo, ou seja, disco para ouvir, para, como eu estou fazendo agora, colocar na rua a melhor música que o Brasil já fez – que foi o samba do Estácio.

Portal: O senhor consegue elencar as músicas mais importantes desse período?

H.F: São algumas, mas eu destaco "Quem eu deixar não quero mais", que é do Edgar Passos, o primeiro compositor do Estácio e "A malandragem", do Bide, que foi a primeira música comprada para o Francisco Alves gravar.