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Rio de Janeiro, 25 de julho de 2024


Economia

Armas para o novo governo superar a guerra cambial

Caio Lima - Do Portal

10/12/2010

Mauro PimentelPoupança externa. Segundo o economista Luiz Roberto Cunha, decano do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio, essa é uma das principais receitas para o Brasil manter um crescimento forte diante do real excessivamente valorizado. Enquanto propõe ao Fundo Monetário Internacional um mecanismo para inibir a guerra cambial – em que países como os Estados Unidos, a China e a Coréia do Sul mantêm artificialmente baixos os valores de suas moedas – o governo brasileiro disparou, internamente, dois aumentos seguidos do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) com o objetivo de conter o avanço do capital especulativo, atraído também pelo juro alto (taxa básica Selic a 10,75% ao ano). Baixada a poeira da eleição, o sucessor do presidente Lula terá de administrar essa batalha cambial. Cunha explica por que a poupança externa mostra-se estratégica:

– Esse tipo de poupança representa déficit em transações correntes. O aumento preocupa, mas, por outro lado, ajuda a financiar o crescimento do Brasil, pois o país não tem capacidade interna para crescer sob tais circunstâncias.

Segundo Cunha, os antídotos adotados para proteger a economia brasileira da guerra cambial “serão fracos, se a economia mundial mantiver uma liquidez forte, e os EUA continuarem injetando moeda na economia mundial”. Por outro lado, o economista avalia que, como parte do capital estrangeiro volta-se a ganhos financeiros de curto prazo, a alta do imposto para 6% eliminaria parte desse lucro. Ele faz, no entanto, uma ressalva:

– É vantajoso (o aumento do IOF), desde que a moeda brasileira não continue a se valorizar.

O real excessivamente valorizado inibe a exportação e aproxima a balança comercial do saldo negativo. “Esse déficit já equivale a mais de 2,5% do PIB (soma das riquezas nacionais). Tende a crescer ainda mais nos próximos anos, gerando um problema na economia, pois a indústria vai perdendo emprego e espaço”, alerta o economista.

Especialista propõe política monetária conjunta

Já o professor do Departamento de Economia da PUC-Rio Luciano Vereda acredita que, para conter a alta do real e garantir um crescimento equilibrado, é necessária maior cooperação com a economia de outros países. “A lição é simples: se os países tentam se virar sozinhos, nenhum terá lucros de competitividade no mercado internacional para incrementar as vendas. Por isso, recomenda-se que os países tentem trabalhar em conjunto, decidindo uma política monetária em comum acordo. A política cooperativa poderia aumentar a atividade econômica de maneira satisfatória e evitaria os danos da guerra cambial”, argumenta.

As manipulações cambiais  – com o propósito de estimular, por exemplo, as exportações e (re)aquecer as economias – são desdobramentos da crise mundial deflagrada em 2008. Economistas concordam que os esforços dos países desenvolvidos – em especial, os Estados Unidos – para evitar a recessão culminaram nesse confronto de moedas. Mas, segundo Cunha, a crise continua:

 Mauro Pimentel

– Na verdade, a crise de 2008 ainda não acabou. Continuará ainda por um período relativamente longo – prevê – O momento atual é o mais perverso, pela dificuldade que os países estão encontrando para crescerem internamente.

Cunha afirmou que, diferentemente de outras crises relacionadas ao câmbio – como a da década de 1980, quando países desenvolvidos firmaram um acordo para equilibrar as moedas –, a atual disputa é muito mais complexa:

– Hoje existe, do outro lado do dólar, uma economia chinesa em ascensão. A China é um país que controla o seu próprio câmbio, mantendo-o muito desvalorizado, aumentando a competitividade dos produtos lá fabricados. Os americanos tentam compensar, por meio da desvalorização da sua moeda, a perda relativa que tiveram recentemente na relação comercial com o país asiático. Essa situação não é vantajosa para nenhum dos lados – analisa.

Apesar do alerta de especialistas sobre os efeitos colaterais dessa guerra e do apelo do Brasil ao FMI para a criação de um índice voltado ao controle da manipulação cambial, a perspectiva de mudança a curto prazo é mínima. A nova esperança de consenso é a próxima reunião do G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do planeta), nos dias 11 e 12 de novembro, em Seul. Na visão de Vereda, o encontro sinaliza um esforço "necessário" de cooperação. O economista duvida, porém, de solução consensual na capital sul-coreana:

– Esforços estão sendo feitos para encontrar uma resposta eficaz (para o equilíbrio da economia mundial) na Coréia do Sul. Mas, não deve sair nada por que a China perturba qualquer acordo de cooperação que possa haver – critica.

Cunha concorda com o prognóstico de falta de acordo na reunião do G-20, mas discorda que a China seja a única responsável. “O maior motivo (de não se chegar a um consenso) é exatamente o grau de complexidade da situação”, afirma o economista.