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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


País

Redução da dívida interna é o desafio da economia brasileira

Matheus Fierro - Do Portal

25/02/2008

Recebido com entusiasmo especialmente por aqueles que viveram o pesadelo da dívida externa nos anos 1980, o anúncio da superação do passivo pelas reservas nacionais, na semana passada, dividiu os analistas. Alguns enalteceram a importância do marco econômico para a captação de recursos estrangeiros. Outros, como o professor Ilan Goldfajn, do departamento de Economia da PUC-Rio, lembraram que a dívida externa há algum tempo já não ameaçava as contas brasileiras e alertaram para o leão a ser domado: dívida interna. Seu controle deve assumir posição de destaque na pauta econômica nacional:

– A dívida interna passou a ser o centro das atenções. Poderia ter caído consideravelmente nos últimos anos, pois a arrecadação vem crescendo. O problema é que os gastos permanentes do governo também aumentaram consideravelmente – avaliou  Goldfajn.

A dívida pública interna de um país pode ter três origens: os gastos com educação, obras e infra-estrutura em geral; as despesas com juros sobre os empréstimos contraídos em períodos anteriores; e os gastos para manutenção da política monetária e cambial. Há alguns anos, o passivo interno do Brasil decorre, principalmente, davs taxas de juros e pelos custos da política monetária e cambial.

O professor de Marcelo de Paiva Abreu, professor titular do departamento de economia da PUC-Rio, observou que, por outro lado, o acúmulo das reservas propiciado pelo crescimento brasileiro favorece a consolidação das bases econômicas nacionais. “O momento pode ser de celebração pela sustentação de políticas que fizeram sentido e permitiram que o país ficasse menos vulnerável do que já esteve nos últimos 30 anos”, destacou Abreu.

Sem o peso da dívida externa, ressaltam os economistas, está na hora de o governo conter a dívida interna, de perseguir o equilíbrio entre os gastos e a arrecadação. Segundo o economista Eduardo Pegurier, professor do departamento de comuncação PUC-Rio, as dívidas interna e externa são elementos econômicos independentes. Assim, ter reservas monetárias elevadas ajuda a manter a estabilidade em períodos de turbulência no mercado internacional, o que atrai investimentos estrangeiros. Mas as implicações da condição credora mostram-se relativas:

– Não acho importante o país ser credor. Uma economia crescente, com boas oportunidades de investimento, recebe muito capital externo e, por isso, se torna um devedor. Os EUA são um país devedor há centenas de anos. Isso significa que o capital gosta de lá – justificou Eduardo.

O professor ilustrou seu argumento com um exemplo recente: a compra da mineradora Xstrata pela Vale. A empresa brasileira fez uma oferta de cerca de 90 bilhões de dólares pela companhia anglo-suíça. Caso a compra seja consolidada, a dívida externa brasileira aumentaria consideravelmente. Apesar de ter se endividado, a Vale agregaria uma empresa que geraria mais lucros. O salto no rendimento subiria a arrecadação o governo brasileiro, contribuindo para a redução da dívida interna do país.

Embora hoje as contas internas sejam a vilã da economia nacional, a dívida externa foi motivo de preocupação e vergonha por quase duas décadas. Herança dos governos militares no fim dos anos 70, o alto endividamento internacional teve de ser negociado pelos sucessores. De acordo com o boletim do Banco Central publicado na sexta-feira passada, as reservas monetárias do país permitem saldar nossos compromissos internacionais. E ainda sobrariam US$ 4 bilhões.

A solidez gerada pelo crescimento dos últimos anos e pela confirmação do status de credor internacional abre janelas para a superação de problemas crônicos. O importante é aproveitar a deixa, ressaltou Pegurier:

– O nível das reservas já está em um patamar bom para garantir a estabilidade brasileira. Por isso, o importante é se concentrar em reduzir a divida pública interna. Essa é a hora.