Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

'Tropa de Elite 2' atrai público recorde e novos debates

Carina Bacelar e Evandro Lima Rodrigues - Do Portal

22/10/2010

Alexandre Lima/ Divulgação

Em cartaz há duas semanas, Tropa de Elite 2 move bilheteria e discussões proporcionais ao lançamento hollywoodiano em Paulínia, interior de São Paulo. Entre os 4 milhões de espectadores estão, por exemplo, o crítico de cinema do Globo Rodrigo Fonseca, o cineasta Marcelo Taranto, o sociólogo Marcelo Engelke, o historiador Oswaldo Monteal e o estudante de cinema Dorgivan Vasconcelos. A convite do Portal, eles reforçaram o mosaico de visões sobre o longa de José Padilha. Analisaram desde a competência técnica até as reações ambíguas. Entre os especialistas, prevaleceu um consenso: a sequência capta de forma precisa a realidade criminal do país. A capacidade de “dramatizá-la” desperta no público, ao mesmo tempo, “desconforto” e “satisfação”.

Esquema de guerra

Tropa de Elipe 2 foi lançado sob forte esquema antipirataria, com instruções do próprio Bope. Não foram produzidas cópias digitais, só películas. A sessão première no Teatro Municipal de Paulínia, no interior paulista, incluía revista em bolsas, com apreensão de câmeras e celulares de convidados. Portas com detectores de metais na sala de exibição também foram utilizadas.

A preocupação era evitar o vazamento como acontecera com “Tropa de Elite 1”, em 2007. Estima-se que 11 milhões de pessoas tenham assistido a DVDs piratas do filme antes da estreia nos cinemas. O resultado do esquema pode ser observado na bilheteria superior da sequência em comparação ao primeiro. Tropa de Elite 2 alcançou, em apenas duas semanas de exibição, mais de 4 milhões de espectadores, segundo a assessoria de imprensa do filme.

Com esses números, o filme de José Padilha alcança a quarta colocação entre as maiores estreias de cinema do Brasil nos últimos dez anos. Está a frente de filmes como Homem-Aranha e Eclipse.

Na opinião do cineasta Marcelo Taranto, professor de cinema da PUC-Rio, Tropa de Elite 2 é “pertinente por levantar questões importantes não só para o Rio de Janeiro, mas para o Brasil”. O filme, acescenta ele, demonstra um amadurecimento da indústria nacional cinematográfica e tem dois méritos: atrair o grande público e levar para as telas uma "abordagem profunda de questões nacionais". Para Taranto, o longa promove a reflexão entre os espectadores, que se veem “espelhados” na tela:

– Os jovens brasileiros estão impregnados de valores propostos pela indústria de cinema americano. Por isso, acho bom que produtos como esse retratem nossa realidade. Desde a retomada, o cinema brasileiro é pensado não só como arte, mas também como indústria. E essa diversidade é benéfica – avalia.

 Alexandre Lima/Divulgação Taranto considera “exemplar” a direção de José Padilha. Acredita que as atuações não seriam tão convincentes “sem as mãos de um diretor competente”. Para ele, os melhores são Wagner Moura (coronel Nascimento) e Sandro Rocha (policial Rocha, líder da milícia). Enquanto Moura, segundo Taranto, consolida-se como um “ator de primeira linha”, talvez o mais versátil de sua geração, Sandro Rocha “mereceria um Oscar de melhor ator coadjuvante”. A única ressalva, “sem desmerecer o bom trabalho de Lula Carvalho”, remete à fotografia:

– Na minha opinião, houve uma preocupação maior com a qualidade da fotografia no primeiro filme. Mas ainda está presente a câmera “chicoteada", dinâmica, que tem marcado o cinema brasileiro desde “Cidade de Deus”      .

Para o cineasta, o sucesso de Tropa de Elite deve-se, basicamente, a dois fatores. À “boa construção dramatúrgica” soma-se a abordagem de um "assunto que incomoda a sociedade".

 – O cinema, ao refletir essa realidade, potencializa seu alcance – acredita.

Quanto à reação muitas vezes acalorada do público diante das cenas de violência, Taranto avalia como uma “catarse coletiva”. O comportamento refletiria “a essência violenta” presente em todos os homens aliada a um sentimento geral de revolta e inconformismo com a corrupção e a insegurança.

– As pessoas estão aliviando um trauma. Todo mundo, de alguma forma, sente-se refém da situação que se vê nas telas – avalia o cineasta.

Para o doutorando de ciências sociais da PUC-Rio Marcelo Engelke, está na força “carismática” do protagonista interpretado por Wagner Moura a capacidade tanto de passar aquele “trauma” para os espectadores quanto de atraí-los para as salas de cinema. Assim nasce um campeão de bilheteria.

– A maior parte da sociedade fluminense se identifica com o Capitão ["promovido" a coronel] Nascimento. Ele fez, no primeiro filme, o que muitos queriam que fosse feito com os bandidos. Por isso, a polêmica sobre a abordagem ter sido fascista ou não. Já no segundo filme, o personagem sofre mudanças – observa.

Embora abstenha-se das especulações sobre a estreia do filme só após o primeiro turno das eleições, Engelke considera que o tema levantado – a segurança pública – exige ainda um debate social mais profundo, em busca de avaços. Para ele, o assunto foi discutido de forma superficial na campanha para os cargos estaduais. "Se o filme tivesse estreado antes, talvez esse debate mais profundo não ficasse “para escanteio”, pondera.  Alexandre Lima/Divulgação

A principal mensagem do filme, na visão do sociólogo, é a de que a política de segurança revela-se equivocada. Ainda de acordo com Engelke, sociedade leva das telas a certeza de que é coautora das ações violentas de bandidos e policiais.

 – O crime é estruturado coletivamente. É uma questão de política – ressalta.

Sobre a carreira internacional do longa-metragem de Padilha, Marcelo Engelke espera uma boa recepção pelos estrangeiros, sobretudo porque Tropa de Elite 2 obedece a atributos técnicos e estéticos do cinema hollywoodiano.  A grande dúvida, acredita o sociólogo, projeta-se na forma com a qual os estrangeiros interpretarão a realidade exposta na narrativa.

Já para o jornalista Rodrigo Fonseca, o filme revitaliza o cárater "iluminista".do cinema. Resgata um sentimento observado só na década de 1960 com Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. Segundo o crítico, a exclusão política, marca na produção de Glauber, ganhou nova configuração em Tropa de Elite 2. Com enfoque na dinâmica pública da insegurança, a sequência conseguiu mobilizar a população, que se reconheceu em cena.

 – A ficção do cinema é uma forma de iluminismo perpétuo. O cinema é uma atividade iluminista. Tropa de Elite 2 é a prova disso – afirma Rodrigo. 

 Alexandre Lima/Divulgação Tal identificação é reafirmada pelo estudante de cinema Dorgivan Vasconcelos. Ele cresceu em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, e conta que, durante sua infância, a área foi dominada por milícias  – embora recebessem outro nome: “grupo de extermínio”. Para Dorgivan, o filme “conseguiu retratar fielmente essa realidade”. Mesmo as referências a um programa de TV “sensacionalista” seriam justificadas pela imitação da realidade.

O estudante consideras as reações mais inflamadas do público uma resposta à corrupção e ao crime institucionalizado. Ele ressalva. no entanto, que o “amadurecimento” da sequencia não teria sido acompanhado pelos espectadores, que continuam “eufóricos diante de cenas violentas”.

Embora para boa parte da crítica e do público o filme é fiel à realidade carioca (e brasileira), a ponto de ser (exageradamente) comparado a um documentário, o pofessor de história da PUC e da Uerj Oswaldo Monteal identifica distorções. Para o autor do livro 200 Anos da Polícia Militar (Editora PUC-Rio, 2010), o longa de Padilha tem abordagem limitada sobre certos assuntos. Entre eles, as condições nas quais vivem os policiais, como "salários baixos, riscos constantes e dificuldades de inserção social em suas comunidades", observa o professor. Outro lapso, segundo ele, remete ao “paradigma de força repressiva violenta”:

– O filme é defasado. A corrupção na polícia é discutida desde os anos 80, e temos hoje novos caminhos, como a Polícia Pacificadora. Enquanto o Tropa de Elite traz uma apologia à repressão, na sequência permanece um desequilíbrio entre as perspectivas de paz e violência.

Monteal considera “bravata” e “utópica” a mensagem de que acabar com a polícia seria benéfico. Ele reconhece, no entanto, que um dos acertos do filme é o retrato da institucionalização da violência:

– Essa violência está presente no consumismo, no culto ao corpo e à estética. Se contamina todo mundo, contamina também o policial – argumenta.