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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

O peso do Nobel para a estante latina

Carina Bacelar - Do Portal

08/10/2010

O prêmio da Academia Sueca à obra de Mario Vargas Llosa, depois de 58 anos dedicados às letras, foi comemorado pelo peruano de 74 anos como "um reconhecimento à literatura da América Latina e da Espanha”. A opinião é compartilhada pelos professores do Departamento de Letras da PUC-Rio Alexandre Montauri e Vera Lima. Enquanto ele acredita que os desdobramentos do Nobel de Llosa tornarão o escritor a nova “febre literária” e atrairão o leitor médio da América Latina e do mundo para a produção do continente, Vera destaca que o sucesso é facilitado pelo fato de a obra de Llosa ser palatável à maioria do público.

Um “homem das Américas”
Nascido em março de 1936, na pequena Arequipa, nos Andes peruanos, Mario Vargas Llosa escreveria a primeira peça teatral, "La Huida Del Inca" (A Fuga do Inca), aos 16 anos. A partir daí, escreveria mais de 30 romances, peças de teatro e ensaios com fortes traços políticos, cujos temas recorrentes são as tramas individuais inseridas em crônicas sobre a política e a sociedade latino-americanas. Um dos traços de sua obra é a “migração” de personagens entre livros, como o cabo Lituama. Antes de protagonizar o romance “Lituama nos Andes”(que critica o movimento guerrilheiro Sendero Luminoso), o personagem havia frequentado a “A Casa Verde”. Apesar do enorme interesse pela política (Llosa candidatou-se à presidencia peruana em 1990), várias obras fogem a esse tema e tratam das lembranças da infância e da adolescência do autor – que emigrara para a Bolívia recém- nascido, com a mãe divorciada, e só tornaria a ver o pai aos 10 anos, quando retornou ao Peru. Fazem parte desse contexto livros como "Tia Julia" e "Escrevinhador”, este um dos mais populares da Llosa, ao lado de "Pantaleão e as Visitadoras". O livro mais recente do escritor peruano, hoje professor da universidade de Princetown, em Washington, e colaborador do jornal espanhol El País, é "Sabres e Utopias", no qual analisa política e literatura contemporâneas da América Latina. As obras de Vargas Llosa, membro da Academia Peruana de Letras e da Real Academia Espanhola, já foram traduzidos para 33 idiomas.

Montauri considera que a honraria concedida ao peruano é importante porque distingue um “escritor notável” com preocupações literárias e políticas em sua obra. Para o professor, Vargas Llosa já é um “autor clássico”.

– Da mesma forma que, em 1998, a vitória de José Saramago provocou um frenesi em torno do escritor e da produção literária portuguesa, Llosa agora pode despertar o interesse internacional e do próprio leitor médio pela literatura sul-america.

O especialista em literatura condena o rótulo de reacionário que recaiu sobre o Vargas Llosa, que criticava o movimento guerrilheiro “Sendero luminoso” e as opiniões de intelectuais de esquerda latino-americanos. O Nobel redime etiquetas.

– Rótulos como esse são sempre redutivos. Ele merecia esse prêmio pelo conjunto da obra – avalia.

Já Vera Lima ressalta o vasto espectro da produção do romancista, dramaturgo e ensaísta. Essa variedade, observa a professora, inclui incursões por temas amorosos, existenciais, eróticos e até brasileiros: no livro “A Guerra no Fim do Mundo”, o peruano trata da Guerra de Canudos.

– Toda vez que um prêmio Nobel é dado a um autor latino, o impacto é muito maior, por conta do pouco destaque que o continente tem dentro da Academia. Vargas Llosa acende luzes para várias questões políticas, inclusive brasileiras – ressalta a professora – Ele consegue aliar uma literatura “palatável” à abordagem de temas densos.

Vargas Llosa já não acreditava que seria premiado pela Academia Sueca. O autor, também professor da universidade americana de Princetown, comentou em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, que a Academia Sueca havia “se esquecido” dele.  Agora, Llosa espera que o Nobel faça com que seus livros tenham para os leitores “uma importância comparável ao papel que Cervantes e Flaubert” tiveram na vida dele.